Herança familial provável
Distanciado já há uns bons pares de anos da escrita literária de um modo geral e em particular as do mundo sãotomense por razões alheias a minha vontade, me encontro de um dia para outro obrigado a fazer um papelzito sobre os escritos de Francisco Costa Alegre um amigo, colega e irmão, poderei assim dizer, dos remotos tempos da ex – Escola Tecnica Silva Cunha , hoje Liceu Nacional professora Marina Graça. Foi ele quem me pediu com uma certa insistência ou teimosia que eu puxe pela língua sobre ele por razões que me são desconhecidas. Tive que ceder a sua demanda, tendo em conta o nosso passado juvenil .
Como eu, Francisco não era da família daqueles alunos brilhantes destinados divinamente a seguirem uma carreira estudantil, nas mais também, brilhantes Universidades europeias, ou melhor portuguesas.
Conhecia-lhe mais que suficiente, para não dizer bem e posso vos afirmar que o gajo tinha mesmo um obtuso cérebro. Eu não lhe via, uma vez adulto e terminado os seus estudos, com um papel qualquer justificando ter obtido uma licenciatura e muito menos ainda um doutoramento em direito, em economia, em engenharia ou em qualquer destas formações universitárias que na hora atualidade valem pouco, ( visto que no nosso Pais, os que têm estes diferentes papeis, poucos entre eles mostraram que têm alguma coisa no estômago). Papeis esses que só servem para impor as pessoas como Francisco a obrigação de andarem de gravata e casaco todos os dias, mesmo quando a temperatura ultrapassa os 35 graus a sombra. Não, meu amigo Francisco não era desta trampa de gente.
Na Escola Técnica ele seguia uma formação comercial destinada a exercer uma profissão de datilógrafo, estenógrafo, apontador e com um pouco de sorte terceiro ajudante contabilista. Todavia meu colega de carteira durante anos do ensino neste dito liceu era muito sentimental; ora como sabem, isto não é aconselhável para alunos sérios. O tipo tinha mesmo um coração muito leve e transparente que o levava a ser amoroso por aquelas meninas alunas do liceu de batas brancas bem curtinhas ao ponto de pôr em nervo o reverendo padre professor da disciplina de religião e moral. Chibo admirava muito ver as suas colegas neste uniforme que suscitava nele uma inspiração lírica , mas o problema era que as donas dos uniformes nem sequer o olhavam, como um possível candidato ao amor azul. Assim já naquela altura e para esconder os seus fiascos sentimentais, ele se torna amante da literatura e dos estudos de línguas, nomeadamente francesa e inglesa .
Cultivando uma relação de amizade, de camaradaria, de cumplicidade e sobretudo de cabula nos dias dos pontos nas disciplinas de línguas e de matemática, que eu, e tantos outros da mesma estirpe, descobrimos os primeiros escritos do nosso amigo Francisco Costa Alegre, aliás Chibo para os íntimos , visto que ele também fazia parte da banda. Eram poemas líricos, lamentações e choros por falta de amores, penso da mãe e das suas colegas de batinhas curtas, que ele, bem os escondia os ditos escritos nos seus cadernos, dos olhares curiosos dos neófitas da turma e da banda dos cábulas. Uma vez descoberta as proezas literárias do Chibo, acabamos por divulga-las contra a sua vontade, em toda turma e por fim em todo Liceu. Chibo torna-se conhecido e admirado, pelo seu talento poético-literario mas isto não constituiu uma mais valia junto as nossas jovens colegas, para estenderem-lhe uma mão, em socorro ao seu coração vagabundo e perdido, uma vez mais , por falta de amores.
Este gosto ou melhor esta paixão pela escrita parece estar ligada a vários determinismos. O primeiro, atribuímos a certa herança familial, de um certo tio avô do nome Caetano Costa Alegre. Este poeta amante do lirismo literário, pioneiro da negritude nas colonias ditas de expressão portuguesa foi um dos primeiros negros a ser admitido na Universidade de Medicina em Portugal nos anos 1864 – 1890. Chibo herdou do seu tio avô este lirismo literário onde a poesia se impõe como um exutório do autor, um meio de se exteriorizar as consolações e as mágoas. Caetano muito sofreu da discriminação sentimental , ele que na sua época, atreveu amar uma mulher branca sendo ele um ‘’macaco ‘’ : Macaco chamaste tolo / ao meu pequeno sangui / também queria que ouvisses / o que ele disse por ti/ . Caetano não fica por ai , ele continua : Por teu desdém não me mato / não faço tamanha asneira / se o meu amor tu não queres / há muita gente que o queira /’’.
Impossibilitado de amar uma mulher da pele clara como leite e da pura raça , Caetano descobre na mulher negra as mesmas virtudes que ele atribuía somente as europeias, e que as mulheres negras podem também ser objeto do seu amor, tanto mais que elas são todas recetíveis. Caetano se sente ferido no seu amor próprio vitima da sua cor da pele. Ele regressa não sem amargura ao amor das mulheres negras ou melhor ao regresso ao seio familiar das suas origens ou melhor ainda, ao regresso ao útero da mãe negra , como se ele andasse a procura de uma proteção materna símbolo de um novo nascimento, livre de todos os complexos de inferioridade, livre de toda alienação e sobretudo de poder olhar para o espelho e ser orgulhoso do seu grande e largo nariz por cima das carnes grossas dos seus lábios.
A utilidade desta rápida abordagem de natureza lírica dos escritos do tio avô Caetano foi justamente para que se veja e entenda melhor um dos fatores do determinismo herdado do Chibo .Um pouco mais além retomarei este determinismo racial-sentimental vivido pelo tio, fazendo um paralelismo com a discriminação também vivida pelo Chibo. Assim torna-se necessário também notar que a herança familial literária não é bastante suficiente para justificar somente este dom literário. Outros fatores ou determinismos não menos importantes contribuíram também para a ressurgência desta paixão de Francisco Costa Alegre pelo cultivo da arte literária.
Francisco Costa Alegre é de origem modesta, apesar do seu nome de família carregar um apelido que soa como sendo de origem aristocracrata portuguesa como também são todos os nomes de raízes crioulas profundas deste arquipélago de São Tomé e Principe. Filho de Ofélio Costa Alegre , Francisco nasceu em 1953 na freguesia de Santo Amaro, mais precisamente na região de Changra, uma pequena aglomeração que se situa a uma dezena de quilómetros da cidade – capital, São Tomé .
Muito cedo, o pai Ofélio teve que assumir sozinho a educação do único filho, visto que a sua mulher separou -se dele . Vivendo das modestas e irregulares economias provenientes da sua gleba, composta de vendas dos produtos tais como bananas, cacau, azeite de palma e caroço, o desenrascado Ofélio era também obrigado a vender diante do único cinema da ilha, e também de fronte ao mercado municipal da capital, bolachas de água e sal que ele mesmo confecionava.
Lembro-me de ter comprado estas bolachas com as moedas subtraídas clandestinamente dos meus pais. Olha que eram mesmo boas, estas bolachas ! Tudo me deixa crer que Chibo nunca se esqueceu desta luta pela sobrevivência travada pelo seu pai para lhe garantir uma educação conveniente, integra moralmente e sobretudo uma escolaridade que lhe poderia abrir as portas de um futuro melhor. Assim, Chibo memoriza este passado da vida difícil do seu pai na sua publicação Mussandá, escrita em prosa, onde se vê uma certa personagem Sum Bastos é de Deus, que diariamente de manhã cedo, deixa o seu luchan a caminho do porto da cidade capital , para vender aos turistas de passagem, papagaios, braceletes e outros mais objetos artesanais da ilha. Não se esqueçam que estamos na época colonial, nos fins dos anos 60 princípios dos anos 70 . O seu nome, Mundo é de Deus é uma alusão fatalista as vitimas do massacre de 1953, visto que a personagem tem nas suas pernas, cicatrizes das correntes e dos castigos físicos sofridos durante as obras da construção daquilo que devia ser hoje , mas que não é , porto de Fernão Dias . Provavelmente que Ofélio Costa Alegre, pai do Chibo também fez parte daqueles numerosos são-tomenses que tinham nas suas carnes cicatrizes deste massacre, como também têm Sum Kassongo , Sum kwa Kà Doxi, Sum Bastos e outras tantas personagens do conto Mussandá.
Aqui estamos perante um outro determinismo que marca os escritos do Francisco Costa Alegre : trata-se da vida difícil e mais que modesta de um pai responsável único da educação de um filho na ausência, voluntária ou não, da mãe . Mesmo se o Chibo visse a sua mãe de quando em vez, não se pode dizer que ele beneficiava deste amor pleno, amor feminino materno. O cultivo da arte da escrita se impõe uma vez mais como um exutório, traduzindo seu sofrimento em uma forma estética, aceitável, maneirado sua modéstia, a sua falta de amor materno, sua simplicidade, e isto sem esquecer sua marginalização. Meu amigo Chibo é um homem da escrita marginal na nossa sociedade. Marginal na orientação optativa da sua arte de escrita, marginal também na sua vida ou no seu comportamento de todos os dias. Chibo é um escritor de pena atípica.
Os primeiros passos literários , ou
as primeiras inspirações literárias
No final dos seus estudos primários, Francisco Costa Alegre é obrigado a deixar o seu município de Santo Amaro para a cidade – capital afim de continuar a sua formação secundaria, nomeadamente na nossa famosa Escola Técnica. Durante anos numa constante ida e volta de manhã e a tarde, ele fazia uns vinte quilómetros quotidianos a pé , seja pela estrada nacional, seja pelos pequenos caminhos em terra batida ou atalhos , encharcados de lama ou cheios de pó, atravessando matagais receosos e poucos seguros; eram caminhos de vuá – satá , caminhos de mato, muitas vezes temidos. Foi certamente por estas ocasiões que Francisco se familiarizou com as histórias e contos populares fazendo eco aos animais noturnos tais como: morcegos , corujas , lagaias e outros mais , deste mundo rural medonho, um mundo que metia receio a todo jovem da sua idade . Francisco homenageia este universo visto que é o adorno de certos escritos seus, tal como no Mussandá; encenação literária de um conjunto de contos. Esta é a paisagem por vezes lúgubre que ele atravessava quase quotidianamente ao lado da sua muita bela jovem mulata, uma certa Gabriela, mais conhecida por Gaby, sua deusa vizinha, que alinhava beldade e inteligência . Esta santa criação divina o autor Chibo nunca a esqueceu nos seus aparos. Assim ela está presente no Mussandá na pele da personagem Maria Plangana ou Maria dos Desenganos ou ainda Maria dos Desencantos , pois que desencantado , isto ele foi . Chibo a esculpe, melhor que um escultor, perfeitamente bem, resultado da sua estreita aproximação com ela:
‘’…era ela a de poder de encanto sete vezes superior ao do seu pai . A sua imagem vista pelas frestas do arvoredo verde e esperançoso era para Ngombé a maior escultura humana talhada pela mão do Nzamby ( Deus ).’’
Ngombé aqui citado não é ninguém doutro que o próprio Chibo em ação, despindo a jovem mulata com os seus tenros, apaixonantes , mas viciados olhares :
‘’Os seios vivos suspensos no peito como chocalhos e as nádegas cobertas com um pano Kilambu de calcinha atada com cordas de mussandà causara no Ngombé um arrepio dos pés ao miolo da cabeça ‘’.
Nada dela escapava a curiosidade do Chibo nem mesmo as suas discretas calcinhas , tao grande era a sua paixão por ela . Dotada de um coração duro como mármore e de uma orelha surda como uma porta, a bela continuava completamente indiferente aos gritos do amor do seu fiel amigo, vizinho e companheiro das sinistras estradas , como ele mesmo o testemunha no seu soneto escrito em 1972 intitulado Red Dress :
‘’ No dia que puseste teu vestido cor de sangue
Meus amigos chamaram – te Dress Red
A mim , denominaram – me Black Heart
Porque me envolvia uma paixão sufocante
Tu passaste a ser mais bonitinha
Eu passei a ter a vida descontente
Não tinha aquele saber dum lente
Para fazer de ti linda minha
Oh filha de quem é emigrante
Não quero ter essa paixão sufocante
Ah ! A vontade de ter-te agoniza-me
Sei que lembras o mal do teu pai emigrante
Que vencendo atraiçoou tua mãe residente
Não, apenas sou alguém que de amor precisa . ‘’
Alguém que do amor dá e que do amor precisa é o que deixa bem a transparecer este pequeno soneto. Sensível a esta paixão Francisco Costa Alegre não é nada indiferente a situação da mãe da sua bela mestiça que tal Ofélio seu pai, assumia sozinha a responsabilidade educativa da jovem , abandonada e sem ajuda financeira e afetiva paterna .
Os dois jovens sofriam da precaridade afetiva, o Chibo da falta da mãe e Gaby, da falta do pai que aliás tinha deixado definitivamente São Tomé de regresso a sua terra natal , algures em Portugal. Qual outro jovem poderia melhor compreender esta ausência afetiva paterna desta moça? Através deste poema, o poeta Chibo expõe umas das problemáticas do funcionamento da sociedade sãotomense.
Na realidade muitas crianças sejam elas mestiças ou não, conhecem esta problemática de serem educadas por um dos pais , quando não são os avós. Muitas até não eram reconhecidas pelos seus progenitores, sejam elas mestiças ou negras. Em todo caso Chibo utilizava todas as escassas armas para atingir os seus objetivos demonstrando assim um lado sentimental um pouco piegas.
A descoberta do amor leva os dois a adotar comportamentos juvenis típicos. Precisa-se de um cúmplice ou de uma cúmplice para enviar mensagens a pessoa amada; vergonha ou pudor, sabe-se lá! Não, nesta idade qualquer jovem tem muitas dificuldades em assumir os seus atos e feitos , o que é sobejamente normal. E é assim que eu , que nada me fazia receio e nem me causava incomodo, encontrei implicado nos negócios sentimentais do meu amigo e colega Chibo que me emprega como carteiro e a proposito como sempre, da mulatinha.
‘’Hoje, dia do teu aniversario
Arranjarei um presente para te dar
Farei Izequiel meu emissário
Para encomenda em tua casa ofertar
Não ! não arranjarei mais ninguém
Se te mandar rosas, rejeitarás
Se mandar ouro farás o mesmo também
Então, dar-te-ei algo de que gostarás
Ofertar-te-ei uma bela canção
Do Nelson Ned , natural daquela Nação
Que hoje tem por capital Brasília
Na alma ela entrar -te-á , Maria
E contigo mesmo dirás; bem feliz seria
Se ao filho do Ofélio tirasse a Paixão’’
Está-se em 1973, Chibo é jovem adulto dos seus vinte anos de idade, quando ele toma todas as suas precauções escrevendo este soneto para não ofender o pudor da sua dulcineia. Fiel a sua indiferença e atingida pela cegueira sentimental, esta última continua ignorando completamente esta brilhante paixão devorando o espirito e a alma do filho do Ofélio . Na verdade, a jovem donzela mulata, sabia o que queria e o que fazia, e isto, Chibo apesar da sua dita grande aproximação com ela ignorava completamente as suas ambições.
Aliás, ainda me recordo que em 1973 , ela já tinha começado a cultivar uma certa distanciação com o meu amigo. A presença do Chibo ao lado dela começava a ser embaraçosa para ela, que precisava sentir os olhares vivos e intencionados dos outros jovens, afim de melhor acreditar e explorar se necessário for, a sua beleza . Gaby evitava quando podia a sua companhia, já tinha algumas moedas para pagar o transporte para ir as aulas e regressar a casa sozinha, enquanto Chibo continuava a fazer a sua caminhada a pé e em companhia dos jovens seus amigos da zona. A sua rara beleza atraia os olhares maliciosos de tantos outros jovens do liceu, mulatos ou negros da elite crioula beneficiando de estatuto financeiro mais atraente visto que os pais de uma grande maioria destes últimos eram funcionários da administração colonial.
Como mulata bela e inteligente que era, ela podia também ser cortinada por um daqueles numerosos jovens do liceu brancos nascidos na ilha cujo os pais beneficiavam de importantes estatutos sociais e financeiros. Não se deve ignorar que a grande tendência de um importante numero destes jovens da geração do Chibo ou melhor da nossa geração era de se esbranquiçar estatutariamente ou epidermicamente e que a verdade seja dita, amen. Havia mesmo toda uma hierarquia dos diferentes tons da cor da pele , bem cultivada na nossa sociedade. Quanto mais claro é a pele e mais empinado é o nariz mais êxitos se tinha junto as jovens meninas ou senhoras e vice versa.
As mulatinhas e mulatinhos eram os mais preferidos da sociedade inteira insular. Assim sendo e em boa verdade o meu amigo Chibo não tinha nenhuma, mas nenhuma mesmo , possibilidade de apertar eventualmente nos seus braços a bela e inteligente Gaby e sentir o ritmo do bater do seu amado coração contra o seu.
Para já , a natureza não fez nenhuma oferta, seja ela social ou fisica que pudesse provocar uma atração amorosa das jovens mulatas ou mesmo das jovens da elite negra citadina pelo meu amigo. A verdade seja dita: Francisco não obedecia em nada os critérios da beleza apreciados e valorizados na ilha. De um fisico pouco atraente apesar de ter uma estatura aceitável mas um pouco mal feito de corpo , suas pernas um pouco longas são traídas por uns pés virados para o sul, quando ele caminha em direção do norte , um nariz carnudo e bem aberto para que ele nunca tenha falta de ar, uns lábios bem espessos que agradaria qualquer esfomeada do Hemisfério Norte dotada de apetites exótico – tropicais .
Enfim, o Senhor Criador Todo Poderoso não deu nenhuma oferta corporal ao meu amigo Chibo, capaz de atirar uma atenção particular da mulatinha Gabriela por ele . Sim, discriminação desta vez fisica é ampliada pela discriminação socio-económica ligada a precaridade da vida do pai Ofélio . Esta dupla discriminação é um dos determinismo que caracteriza certos escritos literários do Chibo e que o une a herança do seu tio avô, Caetano Costa Alegre. Tal como este último, Francisco foi vitima da discriminação sentimental da parte da mulatinha porque ele não reunia os critérios não somente do belo homem, apreciado na sociedade do momento, como também do critério socio -económico.
Ele era pobre e não citadino vivendo na marginalidade, como ele próprio o confessa no seu poema intitulado Os doze amores e onde ele faz alusão a paixão do Cristo e da sua pesada Cruz das atrocidades sofridas. Chibo se sente reconfortado com a sua vida difícil comparado-a àquela vivida pelo Cristo. Ele se recorre a sua crença religiosa para melhor relativizar o seu sofriment . Por ouro lado, o dia 12 de julho data da independência de São Tomé e Príncipe é uma evocação ao sofrimento também vivido pelos são-tomenses durante a escravatura e a colonização.
‘’Nesta avenida de doze paixões
Marginalizado fiquei amando as doze
Paixões na avenida marginal doze de julho.’’
Marginalizado vivendo algures lá no mato de Changra, povoação de Santo Amaro. Um contexto socio-geográfico que de forma nenhuma podia agradar a sua bela Gaby, dotada de ambições de vida mais ‘’nobre’’ que a sua inteligência e a sua côr da pele poderiam eventualmente lhe garantir . E , isto , apesar de também ter nascida algures em Changra pois que uma parte das suas origens fazem dela uma citadina, contrariamente a Chibo. Em suma, os dois não eram compatíveis. Melhor ainda , se algo que se aproxima a uma certa compatiblidade existiu, entre ales, o que comporta uma veracidade muito forte , é o facto que Gaby tem o merito de ter sido a fonte principal do rio que deu a luz e alimentou com os seus próprios seios a paixão do meu amigo pela escrita, repito , pela escrita e não pela literatura, matização se impõe. Gaby foi a mãe primeira da sua inspiração, fio de Ariadne de sua vida como escritor e da sua vida no tornar-se adulto. Privado do amor da sua mãe , da sua bela Gaby, Chibo torna por conseguinte marginal sentimental transformando suas lágrimas em tinta com a qual ele desenha palavras vectoras dos seus tormentos. Enquanto o Chibo de olhos semi-abertos sonhava ao seu lado, ela de olhos bem abertos caminhava ao seu lado, evitando os eventuais obstáculos de uma estrada da vida bem sinuosa . As perguntas que se impõem são estas: evitou-lha verdadeiramente estes obstáculos? Tinha ela verdadeiramente os olhos bem abertos ? Ou ainda, foi o Chibo o culpado deste amor perdido? Francisco, quanto ele, e como o seu tio , acaba por admitir o seu fiasco sentimental com a jovem Gabriela que entretanto conhece o seu primeiro amor com um jovem do liceu cujo pai era um daqueles funcionários crioulos da administração colonial. Chibo abandonado compreende pela primeira vez que ele deve orientar o seu coração para horizontes iguais a ele . Assim ele descobre o seu primeiro e quente lábios a lábios com uma certa Protásia, rapariga do povo da região de Batelo (Freguesia de Santo Amaro), tal como ele mesmo . Os dois se entendem bem . Mesmo que as relações entre eles não foram mais além , Chibo guarda uma respeitosa nostalgia daquela que lhe iniciou a alinhar o sentimento amoroso as delicias da carne . Uma doce criatura, tão ‘’ doce como o Sol da Asia’’ . Esta primeira doçura amorosa é um enraizamento do poeta Chibo a terra mãe lá onde ele nasceu , ao útero materno , neste mato lúgubre atravessado por aqueles caminhos ou estradas descritas nos seus contos e onde o Chibo
abraçou pela primeira vez a jovem Protasia como se ele conhecesse um novo renascimento no ventre da mesma Protásia. Mais uma vez o paralelismo é mais que evidente com as poesias (lirismo ) do tio Caetano que graça ao seu regresso ao amor da mulher negra tambem se renasce de novo nas realidades das suas origens . Ele assume a sua negritude e o seu sobrinho – neto assume a sua ruralidade ou seu ‘’ luchanismo ‘’ou ‘’matoismo ‘’ . Coube a jovem Protásia este processo de iniciação ao seu enraizamento rural ou melhor ao seu reingresso ao seu útero maternal mesmo que o destino lhes tenha separado . Francisco jà iniciado a esta vida adulta , continuará definitivamente seu caminho de integração total neste mundo rural nos braços desta que é hoje esposa e mãe dos seus quatro herdeiros visto que ela também é originaria deste mesmo mundo . Eles bem se entendem .
‘’ Maria do Rosario Alves de Carvalho , a minha
“ Dulce “
Foi tão doce como muitas , Esperança , Gabriela ,
Francisca e outras que nao me deram a
Verdadeira agua tonica .
Agua tonica nao encontrada em Monica , nem na
Protasia
Que embora puderam ser mesmo doces como o
Sol da Asia
Não derrubaram e enfeitiçado da minha querida
Doce Dulce .
Para dizer mesmo que foram elas todas mesmo
Muito doces
Bem doces , mas não autenticamente doces
Como a Dulce
De meu matrimonio Doce de todas as bem doces
De sempre .’’
Doce de todas é a Maria do Rosario , mais conhecida por Dulce sua esposa e mãe dos seus filhos, aquela mais doce que todas as outras e que continuou o trabalho de regresso ao útero materno iniciado pela jovem Protasia cuja a sua agua tónica não era tão doce, mas o suficiente doce para que Chibo ainda se lembre dela em 2014, quando ela jà se foi para aqueles lados aonde se vai não se regressa. Enfim, são vários os determinismos que marcam certos escritos literarios, digo certos porque não considero alguns deles como obra literária . Aliás Chibo mesmo se define como sendo: escritor , investigador , e ensaísta , muita coisa junta para uma só cabeça . E aí, creio que não partilho de forma nenhuma a sua demarche . Não se pode ser tudo ao mesmo tempo e tudo é uma questão de opção. Quando leio os escritos do meu colega e amigo fico com a impressão que ele ainda se encontra nesta fase em que ele frequentava a mulata Gaby em que passava o seu tempo nos seus delírios ditos poéticos com ela, sem vendo que os anos iam se passando e que as exigências do corpo e do coração evoluem. Eles se desenvolviam tornando -se jovens adultos e que tinham que começar a alimentar conversas mais sérias, caso quisessem ainda continuar a caminhada, desta vez como adultos; amando realmente como adultos e vivendo como adultos. Chibo em pessoa me confessou que ele é em parte responsável deste amor perdido com a Gaby visto que nas conversas com ela nada de concreto saia da sua boca a não ser recitar os seus versos, falar das notas escolares e de outras banalidades .
Quando leio os escritos do Chibo, é esta impressão que tenho. Ou seja não sei o que quer o meu amigo. Ele não se define para se especializar num único domínio da escrita e dar do seu melhor visto que reúne todas as capacidades para tal escolha. Eu não considero Francisco como um homem da literatura, não , ele não é porque não quer visto que tem mesmo demais para tê-las. E é pena como os seus escritos são inacabados, ou seja ele não explora até ao fim os ricos temas que ele aborda, porque tem pressa, pressa para terminar, pressa para passar a outra coisa.
Chibo dá-se uma de historiador, dá -se outra de jornalista , ainda outra de ensaísta, de investigador, de escritor-poeta ,de romancista, oh meu Deus! Enfim, de tudo como se ele tivesse a necessidade de explicar aos seus compatriotas e a si mesmo que ele beneficia de um conhecimento enciclopédico, único modo de se impor na nossa sociedade como um grande senhor da escrita que no fundo não passa de um marginal escritor sem opção literária , eu ousaria dizer mesmo, sem disciplina literária , porque ele não quer ter. Ele escolheu assim e assim é. Marginalidade obriga! Não será isto a manifestação de um certo complexo, este mesmo complexo que o levou a se marginalizar desde a sua infância e que lhe ficou colado a pele, como uma cicatriz crónica ? Ele carrega nas suas costas o peso dos fatores que o conduziram a marginalização que apesar de ter exercido funções importantes ministerial e na embaixada no estrangeiro, não conseguiu se emancipar deste complexo de inferioridade e desta mentalidade marginal , determinismo principal dos seus escritos ditos literários e que faz dele um escritor atípico.
Atípico mas iluminado : Universalidade da escrita
Francisco soube perfeitamente tirar proveito do seu dom pela escrita enriquecendo-a em França e nos Estados Unidos, países por onde ele passou como estudante , conhecendo e familiarizando com grandes nomes da literatura tais como Cervantes, Descartes, Diderot e também como da literatura da Antiguidade e da mitologia africana.
O homem tem leitura, deve -se reconhecer , e coisa admirável, tendo em conta do mato e do meio social donde ele vem, pertence e vive . Ele não se economiza nos seus escritos fazendo referência a estas leituras mesmo que por vezes elas parecem um pouco pesadas para os temas abordados . A sua pena sempre transparece regularmente uma visão do mundo que se inscreve na universalidade da cultura, seja a nível do seu município de Santo Amaro e seus arredores, do seu arquipélago, do continente africano ou da Terra inteira , conduzindo a um Humanismo afeiçoado por ele. A ligação a sua povoação de Changra e do seu riacho Mussungù ou ainda do seu município de Santo -Amaro demonstra até que ponto Francisco Costa Alegre consagra uma particular atenção as raízes do Homem em osmose com a terra lá onde nasceu, e sua Historia. Valorizar a História da Humanidade, construindo sua própria história , história do seu Pais : /aqui no Mussungu escrevo / As minhas histórias de amores sem apreço / Obrigações que devo a Pátria .
Está mais que evidente que se trata de preservar este aspecto universal da cultura. Recordar a historia do Rei Amador que sacrificou sua vida nos fins do seculo XVI para libertar seu povo das correntes da escravatura e da colonização é valorizar este País que viu nascer gerações livres de se exprimir nomeadamente através da escrita como o demonstra Chibo nestes versos.
‘’ Esta é a minha pátria querida
Terra de Amador e minhas namorada
Meus filhos e minhas obras
Motivo do meu prender Historico
Esta obra que escrevo agora
E o fim persistente da apaixonante força
Sem fim de amor à pátria e a mim
Num preencher e num começo
Num preencher e num começo
Aqui no Mussungù escrevo
As minhas historias de amores sem apreço
Obrigações que devo a pátria ‘’
Como na grande maioria dos escritos literários do Chibo, trata-se aqui mais uma vez do testemunho do seu amor pela Natureza e pela Humanidade . Seus escritos estão repletos de referências bíblicas, que encenam exaltações da vida dos homens, dos animais e das plantas , fazendo lembrar a obra de Pablo Neruda Canto General .
Na sua poesia intitulada O ovo de Colombo , Francisco faz honra a terra mãe Africa, fragmentada e pilhada pela l’Europa, e cujos seus filhos da diáspora caribenha ou americana , tal como sãotomense encontram -se todas desprovidas de preciosas raízes que os ligam ao útero materno . Todavia e apesar da existências de fronteiras entre os continentes e entre os países , entre religiões : cristã , muçulmana hebraica ou budista , a cultura continua sendo comum a todos que é esta da Humanidade e da Paz entre os Homens . Ela deve ser algo do sagrado . E o diálogo e os intercâmbios entre os diferentes povos do Mundo são os únicos meios para garantir este humanismo ou esta humanidade sagrada. Chibo fiel a si mesmo, faz num dos contos de Mussandá um laboratório onde os diferentes povos insulares do Golfo da Guiné se encontram numa manifestação cultural para justamente promoverem este humanismo ou esta sacralização da humanidade.
Os exemplos deste humanismo universalista são múltiplos nos escritos considerados literários do meu amigo como também são múltiplas as referências religiosas judeu – cristã , demonstrando assim a influência da cristandade na sua educação . Francisco não cessa de suplicar a Deus todo Poderoso e a todos os Santos Padroeiros de o ajudarem a propagar através seus escritos os valores da cristandade que ele considera universal na medida em que ele coloca nos mesmos pés de igualdade as quatro religiões citadas anteriormente . O homem , está mesmo completamente feito com, o Vaticano, como estão todos os Saotomenses , o que não é nada de estranho visto que durante a sua juventude todos os domingos ele mais a Gaby nâo faltavam um único ritual religioso , até para confessar, iam os dois juntos. Mas deixemos os dois antigos pombinhos em paz e continuemos sobre a universalidade dos escritos literários do nosso amigo. Deus Todo Poderoso é universal e independentemente das confissões religiosas de cada um. E Francisco tem razão de sempre evocá-lo nos seus escritos.
‘’ O Deus e Santos Patrões
Ajudai – me a preencher as épocas
Ajudai – me a pesar o valor e o preço
Da minha arte , historia e época
O Deus e Santos Patrões
Ajudai – me a atravessar cidades e campos
Ajudai -me a pensar o valor e o preço
Eu sou um deles no meu campo.’’
Maio de 2025
Izequiel Afonso Batista de Souza
Sem assunto
3 de Janeiro de 2026 at 12:29
Grande Izequiel Afonso Batista.
Afinal temos homens com talentos, só não temos gentes com coragem para admitir e promover los.
Zoze Love
3 de Janeiro de 2026 at 14:02
Uma linda homenagem
Leonel Afonso Batista de Sousa
3 de Janeiro de 2026 at 18:51
Espero que, sobretudo os que tutelam as áreas da educação e cultura, do turismo, as universidades locais, se interessem pela difusão deste trabalho ora publicado, por forma a que os estudantes, investigadores, e demais interessados, no porvir, tenham a possibilidade de acede-lo, para produção de conhecimento e conteúdos informativos para fins diversos.
E ao fazerem isso, estarão a imortalizar, de facto, as obras de FCA, e a dar devida importância ao texto ora publicado.
zé maria cardoso
4 de Janeiro de 2026 at 5:15
“O Deus e Santos Patrões
Ajudai – me a atravessar cidades e campos
Ajudai -me a pensar o valor e o preço
Eu sou um deles no meu campo.’’ Francisco Costa Alegre
«Na sua poesia intitulada O ovo de Colombo,Francisco faz honra a terra mãe África, fragmentada e pilhada pela l’Europa…o diálogo e os intercâmbios entre os diferentes povos do Mundo… os únicos meios para garantir este humanismo ou esta humanidade sagrada…”Paixões na avenida marginal doze de julho”… soube perfeitamente tirar proveito do seu dom pela escrita enriquecendo-a em França e nos Estados Unidos.
Gaby (Gabriela) foi a mãe primeira da sua inspiração, fio de Ariadne de sua vida como escritor e da sua vida no tornar-se adulto. Privado do amor da sua mãe, da sua bela Gaby, Chibo torna por conseguinte marginal sentimental transformando suas lágrimas em tinta com a qual ele desenha palavras vectoras dos seus tormentos.
As mulatinhas e os mulatinhos eram os mais preferidos da sociedade inteira insular. Assim sendo e em boa verdade o meu amigo Chibo não tinha nenhuma, mas nenhuma mesmo, possibilidade de apertar eventualmente nos seus braços a bela e inteligente Gaby e sentir o ritmo do bater do seu amado coração contra o seu.»
Mas, «Chibo em pessoa (nome restrito aos amigos do liceu) me confessou que ele é em parte responsável deste amor perdido com a Gaby visto que nas conversas com ela nada de concreto saia da sua boca a não ser recitar os seus versos,falar das notas escolares e de outras banalidades…
Doce de todas é a Maria do Rosário, mais conhecida por Dulce, sua esposa e mãe dos seus filhos» Izequiel Afonso Batista de Sousa – Maio de 2025
Não tive como resistir o atrevimento e roubar o pulsar do coração de Izequiel a ser metralhado no último dia do ano da lírica narrativa, ao seu amigo do liceu, Francisco Costa Alegre, na eterna partida; para bater as merecidas palmas pela tão verdadeira homenagem em vida do homem de “talento literário desperdiçado”.
Parabéns!