Enquanto os holofotes do mundo esportivo se concentram em Milão, onde os atletas olímpicos estão desafiando seus limites, outro fogo arde a milhares de quilômetros de distância. Na China, a Festa da Primavera, marcada pelo Cavalo, está em pleno andamento, enquanto os ecos dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 em Pequim ainda ressoam.

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 em Milão-Cortina destacam-se pelo seu forte compromisso com a sustentabilidade. A sua ambição de reduzir a pegada de carbono traduz-se na reutilização de cerca de 90% dos locais existentes ou temporários, limitando assim as novas construções. As provas de esqui freestyle e snowboard em Livigno, assim como as descidas nas Dolomitas, encarnam esta busca de equilíbrio entre a realização desportiva e a preservação do património natural.
A China não é apenas um espectador desta nova edição de inverno, é um dos seus principais intervenientes, graças ao imenso legado dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim. O objectivo de “atrair 300 milhões de pessoas para os desportos de neve e gelo”, uma promessa feita ao mundo, tornou-se numa realidade transformadora.
De acordo com os dados mais recentes da Administração Geral dos Esportes, até o final de 2025, mais de 350 milhões de chineses haviam participado de atividades de inverno. O mercado dos desportos de neve e gelo atingiu 1 bilião de yuans (125 mil milhões de euros), com mais de 850 estâncias de esqui e mais de 1000 pistas de patinação – um aumento anual de 21% nos últimos 10 anos. Por trás desses números, há histórias de famílias que descobrem as alegrias do glissing, jovens atletas que treinam em instalações de classe mundial e um setor turístico em rápida mudança.

A cidade que mais encarna o entusiasmo por esportes de inverno na China é, sem dúvida, Harbin, muitas vezes apelidada de “rainha do gelo”. Harbin recebeu 4,1 milhões de visitantes durante as férias de três dias do Ano Novo de 2026, gerando receitas turísticas superiores a cinco mil milhões de yuans, ou mais de 600 milhões de euros. Seu Festival Internacional de Gelo e Neve celebrou em janeiro de 2026 sua 42a edição. As esculturas monumentais iluminadas tornaram-se um campo de jogos em tamanho real onde o público pode aprender a patinar e deslizar sobre escorregadores gigantes. Harbin fez do inverno uma festa popular e acessível.

E este feriado de inverno sobrepõe-se este ano à mais importante celebração do calendário chinês: o Ano Novo, o Ano do Cavalo. Símbolo de energia, perseverança e impulso para a frente, o Cavalo é uma maravilhosa alegoria do espírito olímpico. Nas redes sociais chinesas, os internautas partilham os seus votos para o Ano do Cavalo associando-lhes mensagens de apoio aos atletas chineses em competição em Milão. São vistas famílias patinando juntas, vestindo roupas vermelhas tradicionais, símbolo de sorte e prosperidade. Esta fusão é mágica: ela mostra como uma herança esportiva pode se integrar harmoniosamente ao tecido cultural e social de uma nação, enriquecendo suas tradições e criando novas formas de celebração coletiva.

Os Jogos de Milão recordam-nos que a chama olímpica é uma chama que se transmite. Enquanto os atletas perseguem os seus sonhos de medalhas na Itália, milhões dos seus compatriotas celebram em casa, durante o Ano Novo Chinês, a alegria simples e profunda de um inverno que se tornou sinónimo de vida, partilha e superação. Não é este, afinal, o melhor legado que os Jogos podem deixar?
Por Zhang Meijiao, jornalista da CGTN francesa
(Fotos: VCG)