Maioritariamente analfabetos (não sabiam ler nem escrever), assim ficaram os santomenses quando acabou o colonialismo fascista no dia 12 de julho de 1975.
A comissão organizadora das celebrações dos 50 anos da independência nacional, composta por alguns intelectuais santomenses, não esqueceu deste marco histórico na afirmação do homem santomense, a vitória sobre o analfabetismo.
A comissão solicitou à embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe a realização de uma exposição do professor e escritor brasileiro Paulo Freire. Foi o arquitecto da campanha bem-sucedida de alfabetização da população santomense.


Em parceria com a matriarca do nacionalismo santomense, a poetisa Alda do Espírito Santo, que também foi professora de várias gerações de santomenses, o brasileiro Paulo Freire implementou um método de ensino adaptável a realidade santomense.
«O método Paulo Freire é o seguinte; O processo de aprendizagem tem de ser feito conhecendo o universo daqueles que aprendem. Por exemplo, aqui em São Tomé e Príncipe a palavra Matabala todo santomense conhece, e foi uma das primeiras palavras utilizadas na alfabetização», explicou Pedro Luiz Dalcero, o embaixador do Brasil em São Tomé e Príncipe.


Paulo Freire trabalhou na alfabetização da população santomense de 1976 a 1980. O Téla Nón recorda que os adultos eram sensibilizados a frequentar as aulas de alfabetização. Os homens e as mulheres cujas mãos só serviam no passado para produzir riqueza para o regime semi-escravocrata e fascista, aprenderam a segurar no lápis para leve-leve escrever a palavra Matabala (nome do tubérculo cultivado nas roças e muito consumido em São Tomé e Príncipe)…Bonito (nome de um peixe também muito consumido e muitas vezes acompanhado pela matabala).
«Não adianta você tentar alfabetizar uma população de adultos, trazendo palavras que essa população não conhece. Ele conhecia o universo das pessoas, sabia quais eram as palavras geradoras de conhecimento, e a partir dessas palavras se começava o processo de educação. Esses são os principais aspectos do método de Paulo Freire», acrescentou o embaixador do Brasil.


Segundo o diplomata do Brasil, para Paulo Freire o educador tem que antes de tudo saber escutar, aquele que quer apreender, e assim identificar as palavras que devem ser a génese do conhecimento.
A exposição mostra os manuais da campanha de alfabetização criados por Paulo Freire em São Tomé e Príncipe. Manuais que guardam a história da libertação do homem santomense das amarras do analfabetismo tecidas pelo colonialismo e pelo fascismo.
«A exposição tem várias informações sobre o trabalho que fez aqui em São Tomé e Príncipe, e também sobre o pensamento desse grande intelectual brasileiro, provavelmente um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, que foi um educador muito importante, muito revolucionário na verdade, é também um grande pensador e um grande humanista», frisou o embaixador Pedro Dalcero.
Os documentos que estão expostos no Centro Cultural Guimarães Rosa anexo à embaixada do Brasil, tem quase a idade da República Democrática de São Tomé e Príncipe.

Paulo Freire foi considerado pelo representante diplomático do Brasil como o primeiro parceiro do Brasil em São Tomé e Príncipe. Como intelectual escreveu várias obras. O destaque vai para “A Pedagogia do Oprimido”. «É um livro que está entre os 3 mais citados no mundo em todos os cursos na área de ciências sociais. As obras de Paulo Freire são conhecidas em todo o mundo pelo seu carácter inovador, revolucionário e pelo seu conteúdo humanista», concluiu.
A exposição sobre Paulo Freire, que foi encomendada pela comissão dos festejos dos 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe, está aberta ao público durante todo o segundo semestre de 2025.
Abel Veiga