Economia

Evitar uma crise alimentar em África : O Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência

(Por Dr. Akinwumi A. Adesina)

O aumento dos preços dos fertilizantes em mais de 300% torna cada vez mais difícil para os agricultores africanos cultivar trigo, milho, arroz e outras culturas em quantidade suficiente

Akinwumi A. Adesina – Presidente do Banco Africano de Desenmvolvimento

ABIDJAN, Costa do Marfim, 16 de agosto 2022/ — Não demorou muito até que a guerra da Rússia na Ucrânia tivesse impacto em África. Já a braços com uma inflação crescente e ainda a recuperar da pandemia de Covid-19, África enfrenta agora uma escassez de pelo menos 30 milhões de toneladas métricas de alimentos – especialmente trigo, milho e soja importados da Rússia e da Ucrânia.

O aumento dos preços dos fertilizantes em mais de 300% torna cada vez mais difícil para os agricultores africanos cultivar trigo, milho, arroz e outras culturas em quantidade suficiente. Um número crescente de pessoas em África já não consegue pagar o preço do pão.

África está a lutar para mitigar uma fome induzida pelo conflito que poderá lançar cerca de 30 milhões de africanos para níveis catastróficos de insegurança alimentar. Pode piorar as dificuldades económicas e a agitação política. Com milhões a lutar para comprar alimentos, combustível e fertilizantes, os protestos antigovernamentais são uma possibilidade real.

Desde o início, o Banco Africano de Desenvolvimento apercebeu-se da necessidade estratégica de enfrentar o impacto devastador da guerra na segurança alimentar de África. Era importante prevenir a agitação e ainda mais sofrimento humano. Em maio, o Banco criou um Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência, no valor de 1,5 mil milhões de dólares. Em menos de 60 dias, pôs em ação 1,13 mil milhões de dólares de programas ao abrigo do Mecanismo, e em 25 países africanos. Espera-se que mais meia dúzia de programas se iniciem até setembro, à medida que mais governos se candidatam a este Mecanismo.

O Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência irá fornecer trigo e outras sementes de culturas básicas adaptadas ao clima e certificadas – e aumentar o acesso a fertilizantes agrícolas – a 20 milhões de agricultores. Nos próximos dois anos, o Mecanismo permitirá aos agricultores produzir 38 milhões de toneladas adicionais de alimentos – um aumento de 30% na produção local – num valor estimado de 12 mil milhões de dólares. Para facilitar um investimento global ainda maior no setor agrícola africano, o Mecanismo apoiará igualmente uma melhor governação e reformas políticas.

Embora este seja um começo forte, África precisa que a comunidade internacional preencha uma lacuna de financiamento de 200 milhões de dólares para o Mecanismo. O Presidente Joe Biden aprovou o Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência, e este é um apoio bem-vindo, assim como o seu apoio ao Programa de Financiamento de Risco de Catástrofes em África, do Banco Africano de Desenvolvimento.

Para ajudar os governos africanos a pagar prémios de seguro contra secas e inundações e a responder melhor à insegurança alimentar causada pelas alterações climáticas, o Programa de Financiamento de Riscos de Catástrofes é um elemento futuro muito necessário do Mecanismo. 

Para impulsionar a produção agrícola na Nigéria, Tanzânia e Costa do Marfim, a Agência de Cooperação Internacional do Japão estabeleceu recentemente uma parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento para cofinanciar programas do Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência. As agências de desenvolvimento internacional e uma coligação crescente de nações estão também a apoiar o Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência.

Lançado em 2018, o bem-sucedido programa Tecnologias para a Transformação Agrícola Africana (TAAT), do Banco Africano de Desenvolvimento, está a fornecer tecnologias sob a forma de variedades de culturas resistentes ao clima – sementes resistentes à seca, a altas temperaturas ou a pragas, por exemplo.

.Na Etiópia, graças às sementes de trigo financiadas pelo TAAT e tolerantes ao calor, o país aumentou as terras cultivadas, de 50.000 hectares, para 675.000 hectares adicionais, em apenas quatro anos. As sementes ‘smart’ do TAAT permitem que a cultura do trigo prospere nas terras áridas e baixas da Etiópia, onde as variedades comuns de trigo geralmente não se dão bem.

Mais trigo cultivado localmente reduziu a dependência da Etiópia das importações de trigo. Ao abraçar o TAAT, o país não precisou de importar trigo, pela primeira vez, este ano. Com o apoio contínuo do Banco, a Etiópia tornar-se-á um exportador de trigo em 2023. Exportará mais de um milhão de toneladas métricas de trigo para o Quénia e Djibuti. Isto significa comida suficiente para alimentar 10 milhões de pessoas durante 12 meses.

O Banco Africano de Desenvolvimento sabe o que funciona.

O TAAT já atingiu 12 milhões de agricultores. Apelamos aos nossos parceiros e governos internacionais para que se juntem a nós à medida que aumentamos o TAAT através do novo Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência. 

O nosso empenho em ajudar África a cultivar mais alimentos através da adaptação às alterações climáticas mereceu o apoio do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que recentemente afirmou que a afetação de metade do financiamento do Banco à adaptação climática deve ser o padrão a seguir pelos parceiros internacionais de desenvolvimento. O Departamento do Tesouro dos EUA aprovou o Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência como parte do Plano de Ação das Instituições Financeiras Internacionais para abordar a insegurança alimentar – um guia de programas pré-selecionados para consideração da nação doadora.

África não precisa de ajuda alimentar para se alimentar a si própria. África precisa de investimentos corretos e de sementes no terreno.

O Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência proporcionará uma solução imediata para os desafios globais do conflito e das alterações climáticas, e desempenhará um papel a curto, médio e longo prazo no crescimento do setor agrícola africano, como base para a resiliência das economias africanas.

As reformas políticas ajudarão a desencadear as reformas estruturais necessárias para uma distribuição de fatores de produção baseados no mercado e para produzir culturas de forma mais competitiva.

Hoje e bem no futuro, o Banco Africano de Desenvolvimento está a apresentar um plano comprovado para libertar o potencial de produção alimentar de África e ver o continente tornar-se um celeiro para o mundo.

O Dr. Akinwumi A. Adesina é o Presidente do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento

O artigo original foi publicado no site da China Global Television (CGTN.com) a 5 de agosto de 2022.

Distribuído pelo Grupo APO para African Development Bank Group (AfDB).

FONTE
African Development Bank Group (AfDB)

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