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Entre a Proteção e a Adultização: O Direito da Criança à Infância

A boa intenção não é norma nem fundamento das ações do Estado, devendo este sim orientar-se com base em conhecimento, ciência e boas práticas.

Ora, quando se junta crianças, adolescentes, jovens, entidades do estado, num evento em que o tema central é a sexualidade e a proteção contra o abuso, está o caldo derramado ab initio.

Não há dúvida da boa intenção, esforço, custos financeiros, e a aparência de robustez que estes tipos de eventos comportam, sendo cada vez mais comuns em São Tomé e Príncipe, a realização de marchas, palestras e outras apresentações públicas de temas de natureza complexa e potencialmente —– sensíveis por todos e qualquer um sem a devida consideração de fatores fundamentais.

mas poucos falam do um efeito contraproducente, prejudicial, inadequado, e não é autorizado pelos estudiosos.

Fala da adultização, da sexualização das crianças, do direito à infância consagrado,

Explora os temas e a forma como eu os trabalho nos worshops etc

são elementos evidentes, mas quem fala dos prejuízos que uma ação dessas traz sobre a vida de uma criança?

12 de Maio é o dia dedicado à —-violência de natureza sexual, e como é natural

Deixem as crianças serem crianças.

A boa intenção não constitui norma, nem fundamento suficiente para legitimar ações do Estado. O Estado deve orientar-se pela ciência, pelo conhecimento especializado e pelas boas práticas internacionalmente reconhecidas em matéria de infância, desenvolvimento psicológico e prevenção do abuso.

Nos últimos tempos, tornou-se comum em São Tomé e Príncipe a realização de marchas, palestras, campanhas públicas e eventos massivos sobre sexualidade e proteção contra o abuso envolvendo crianças, adolescentes, jovens, entidades públicas e múltiplos intervenientes. Há boa intenção. Há esforço. Há custos financeiros. Há visibilidade. Há a aparência de robustez institucional.

Mas poucos têm coragem de discutir os riscos.

Poucos falam sobre os efeitos contraproducentes que determinadas abordagens podem produzir quando temas complexos, íntimos e profundamente sensíveis são tratados de forma pública, genérica, emocionalmente invasiva ou sem segmentação etária adequada.

Nem toda prevenção protege.

Há formas de “consciencialização” que podem gerar ansiedade precoce, hipervigilância, confusão emocional, perda da inocência natural da infância e até exposição desnecessária da criança a conteúdos para os quais ainda não possui maturidade psíquica ou emocional.

A infância é um direito.

O direito à infância encontra respaldo em diversos instrumentos jurídicos e princípios de proteção da criança, incluindo o direito ao desenvolvimento harmonioso, à dignidade, à integridade psíquica e à proteção contra interferências inadequadas no seu desenvolvimento emocional e sexual.

A criança não deve carregar pesos emocionais de adultos antes do tempo.

Existe hoje uma preocupação crescente entre psicólogos, pedagogos, neurocientistas e especialistas em trauma infantil relativamente ao fenómeno da adultização e da sexualização precoce da infância. A exposição inadequada, excessiva ou descontextualizada a temas sexuais pode produzir efeitos negativos no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, sobretudo quando não há metodologia apropriada, ambiente seguro, linguagem adaptada e acompanhamento técnico especializado.

Prevenção não significa inundar crianças com discursos sobre sexualidade.

Prevenção séria exige prudência, técnica, profundidade e responsabilidade.

É precisamente por isso que defendo uma abordagem diferente nos meus workshops e projectos de educação para prevenção do abuso.

O foco não deve ser a erotização do discurso, nem a exploração pública de temas íntimos perante audiências heterogéneas.

O foco deve ser:
• educação emocional;
• literacia sobre limites corporais;
• desenvolvimento da autoestima;
• fortalecimento da capacidade de dizer “não”;
• identificação de comportamentos impróprios;
• diferenciação entre segredos bons e segredos perigosos;
• criação de ambientes seguros;
• capacitação de pais, educadores e instituições;
• ensino gradual, responsável e adequado à idade.

A prevenção eficaz começa pela proteção da estrutura emocional da criança.

Uma criança segura não é aquela que foi exposta precocemente a todos os perigos do mundo, mas sim aquela que desenvolveu confiança, discernimento, vínculos saudáveis e capacidade de pedir ajuda.

Nem tudo o que é bem-intencionado é adequado.

Nem toda campanha protege.

E quando a sociedade perde a capacidade de questionar métodos apenas porque o objectivo parece nobre, corre-se o risco de normalizar práticas potencialmente prejudiciais em nome da sensibilização.

Precisamos falar também sobre os excessos.

Precisamos proteger as crianças não apenas contra o abuso, mas também contra abordagens inadequadas feitas em nome da prevenção.

Porque infância não é palco para activismo emocional.

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