Sociedade

Conta bancária de solidariedade – COVID 19/STP

Na lista dos péssimos alunos de matemática, tenho uma cadeira, mas nada que me vete de correr o risco de intervenção ao redor de COVID 19, a maldição contra a Humanidade, em que nem sou aprendiz de fundamentar e partilhar os conhecimentos com os especialistas da área de saúde, os combatentes visíveis da linha da frente contra o inimigo mundial, silencioso, invisível, de golpe contagioso e letal.

Neste dia, meados de Abril, a barreira oficial de mortos no mundo, vítimas dessa infeção, está a ultrapassar o número de toda a população são-tomense. Há muito que a linha vermelha ultrapassou as cem mil vidas humanas perdidas. Mais de cento e quarenta mil mortos, sem que os familiares e entes queridos pudessem dar um último adeus.

Mais de cem médicos, os generais, já faleceram no combate mundial. Mais de dois milhões de infetados, em todo o mundo. No leve-leve das minhas ilhas, há quem não retira ilação dos números arrasadores de COVID 19, apesar de quatro casos positivos.

Mas, há quem faz toda a diferença. Através das novas tecnologias de comunicação e informação, vi três mulheres da minha terra, em São Tomé, a “levantar saia à cabeça”, não como aquando de 19 de Setembro de 1974, mas agora, dando cara pessoal e material voluntário na luta contra o coronavírus. Elsa Garrido, Antonieta e a jovem Niela Rodrigues – espero não errar nos nomes – as mais efusivas palmas.

Mas, afinal, o que fazem os homens, os antigos presidentes da república, primeiros-ministros e ministros, os partidos políticos de visibilidade governativa, os empresários, os dirigentes associativos, os jornalistas das redes sociais e, em especial, os da diáspora? Só aparecemos nas TV e redes sociais para “bla-bla-blas”? Mais. Aonde anda o dinheiro que, nas campanhas eleitorais, chove na terra que nem o capim?

Delfim Neves, Elsa Pinto, Guilherme Posser, Maria das Neves, Guilherme Octaviano, Carlos Neves (todos do eixo governativo para a queda precoce do executivo) Patrice Trovoada, Tozé Cassandra e tantos outros que abundam nas redes sociais, na qualidade de candidatos presidenciais para 2021, por favor, abram, enquanto é tempo de salvar a terra, as torneiras de “banho” para o povo abastecer a precária logística familiar e manter-se de forma digna, em quarentena possível.

O país está em guerra sanitária e também de economia familiar. Uma exceção. O Abel de “Anda Pligo”, a comédia de que sou adepto, dispôs, grátis, ao hotel da quarentena, o produto do seu esforço agrícola. Cometeu um erro de “marketing” político. Mal assessorado, ao invés de subir as escadas do XVII Governo constitucional, “Somos Todos Políticos”, entendeu publicitar, antecipadamente, o produto e o seu contacto telefónico nas redes sociais para quem pudesse achar um ministro, em qualquer beco da “net”.

Andamos em gritos de “quidalê”, criminalizando ou defendendo o governo, conforme a barricada, pela tardia na resposta ao coronavírus. Os países desenvolvidos com os sistemas de saúde aprovisionados, a Itália, a Espanha, a França, os Estados Unidos da América, o Reino Unido, a Bélgica e tantos outros e, o parente, Portugal, estão fechados em casa e com as ruas desertas para a respiração saudável do Planeta, mas também sofreram e sofrem dos mesmos constrangimentos de antecipação discutível e deficit nas infraestruturas, nos meios materiais e humanos, capazes de derrotar ao inimigo invisível, o COVID 19. Tem valido o socorro material e humano de Cuba, Rússia e China. A má lição, não deveria ser replicada em África que não deu os devidos passos aos alertas vindos do Magrebe e da África do Sul, os países mais viajados aos centros de pandemia.

Uma pausa solene. Com algum atraso, presto à família e aos familiares de José Manuel Carneiro “Kubilas” e Ortins David, amigos pessoais, ambos falecidos em Portugal e por circunstâncias diferentes, as mais sentidas condolências.

A diáspora também vai atrasadíssima. Além da remessa mensal e medicamentosa de salvar a retaguarda familiar na terra, estamos perante uma oportunidade para a diáspora, de forma unida, despartidarizada e responsável, aproveitar esbofetear aos governantes das ilhas que vivem, de governo ao governo, de costas viradas para com os que saltaram a água em busca de vida e conhecimentos.

Todavia, para o pecador, a guerra dá sempre jeito. Quatro partidos políticos da praça, perturbados com o saldo de protagonismos pessoais, em tempo de guerra, apressaram-se a entrar nos gritos. O MLSTP e a união MDFM/UDD , acharam-se no dever de atender ao auto-demissionário e concomitantemente, o líder reassumido de uma das fações inimigas no interior de ADI que, pela paupérrima, deselegante e banal entrevista e direto extemporâneo, espalhafatou-se, recentemente, aos seus guerrilheiros debandados do acantonamento.

Ansiava eu, numa altura de cerrar das fileiras e de cooperação nacional e internacional, que o MLSTP, saído da trincheira, ao invés de resposta ao “soldado desertor”, viesse a anunciar aos são-tomenses de ter conseguido o apoio do MPLA e da FRELIMO para fazer chegar os “contentores” de materiais de combate ao COVID 19, retidos em Portugal e na África do Sul. Um empresário, nesse país africano, tinha as ofertas necessárias para São Tomé e Príncipe, mas o fecho do espaço aéreo, especialmente em Gabão, vinha dificultando o envio da logística à nossa terra.

Senhores governantes, para a defesa da honra do governo e da oposição, já nos bastam os “discípulos” nas redes sociais e noutros meios de comunicação. Não terão aprendido com a deselegância, o desrespeito e o nível gratuito de resposta governamental aos fatos reais encarados à república pela embaixadora, a senhora doutora Maria Amorim? Aonde param as ajudas sanitárias do reino de Marrocos para o combate à pandemia?

Não era de esperar um país, isolado do mundo, mais de um mês desde as primeiras medidas, anunciadas em tempo, de prevenção à propagação da doença, ainda não tenha um laboratório com todos os reagentes e especialistas. No início da epidemia, a África tinha quatro laboratórios capacitados para diagnosticar a praga. Neste momento da pandemia, já há dezenas de laboratórios. Própria, as Nações Unidas, nesta luta global e devido a especificidade das ilhas, deveria desenvolver o “namoro financeiro” e até disponibilizar os especialistas internacionais para “laboratorizar” a ilha de São Tomé e a ilha do Príncipe. Um pequeno país isolado do mundo, mas com eficácia e eficiência, nacional, distrital e regional, pode tornar-se numa grande Nação na vitória global ao inimigo.

Na outra mão, a ministra da Educação e do Ensino Superior, Julieta Izidro, está a sair bem com a iniciativa de escola à distância, rádio-telescola (eletricidade, pilha, gerador) aos estudantes, em quarentena. Quem nunca escutou relatos de Sporting, Porto e Benfica, discos pedidos e anúncios, através de rádio da vizinhança? Peçam aos vizinhos que subam os altifalantes dos aparelhos. A “San Mosa”, a iletrada, minha mãe, em quarentena, estaria ativa, em cima dos filhos que nem o professor de escola-mato. Palmas, senhora ministra!

Em Portugal, muitas famílias ciganas, particularmente no Alentejo, devido a pobreza lamentável, em que são testemunhas factuais, puseram em causa a telescola, emanada pelo governo português. A democracia, é um pouco disso. Os direitos fundamentais, estão a ser reavaliados, mas há que prevalecer em nome da urgência sanitária, a autoridade do Estado.

Mãos à obra agrícola para a auto-suficiência alimentar! O último grito de Bom Jesus. Num paralelismo ao retorno dos meninos ao ensino em casa, haverá matéria de discórdia. Os países de tradição agrícola, os camponeses, mesmo o mais básico, têm os animais, boi, burro, cavalo e outros mais que utilizam, dia-a-dia, no transporte e escoamento de produtos. Em São Tomé e Príncipe, por caricato que pareça a nossa verdura, sem “jeep”, trator, “honimog” ou outra locomotiva à tração e exploração infantil de prender o pescoço e desalinhar a coluna vertebral, “comida estraga dele un mato”.

Em termos de contributo pessoal para alistar na solidariedade nacional, venho há muito e sem sucesso, desdobrando-me em esforços e troca de informações com os amigos, os ativistas das redes sociais e os presidentes comunitários, na diáspora, para juntos darmos uma mão de salvação ao meu povo, através de uma conta bancária de solidariedade. Contactei por e-mail e telefone à embaixada são-tomense, em Lisboa, apesar do anúncio on-line, portas abertas, não consegui o “feedback”. Disponibilizem-me, por favor, a conta bancária internacional de solidariedade COVID 19/STP.

Conversa é comprida. Nesta vertente, tenho as saudades de Elsa Garrido, enquanto líder social, a pessoa de quem não conheço, nem de rua. Apenas na imprensa. Era detentora de uma conta bancária de solidariedade, em que juntou o dinheiro (enviou-me no “plé -mundu” os comprovativos do meu tostão contributivo) e contentores de necessidades sanitárias e hospitalares, incluindo ambulância para, em tempos, salvar ao meu povo, carente de meios básicos de saúde. A ativista correu um risco de ser política, criando um partido político “Os Verdes”, ao invés de encostar-se aos existentes como vem sendo prática, a Geração Futuro e outros jovens desnorteados. As coesas deram pelo torto. Já há excedente de partidos e movimentos “quebrados” na nossa terra.

O risco político de Emmanuel Macron que, em poucos meses, o ministro da Economia, desertou-se do governo francês, formou o seu partido político, retirou da recandidatura o presidente François Hollande, encostou o seu primeiro-ministro, Manuel Valls e foi o eleito, em 2017, presidente de França, não é para todos os países.

Na última segunda-feira, o presidente francês, veio anunciar a abertura, leve-leve, do país, com mais de dezoito mil mortes, apesar da quarentena, desde o dia 16 de Março, somente para a partir do dia 11 de Maio, se tudo correr bem no abate ou confinamento do inimigo invisível e fatal. Mais um mês, aprisionados em casa, com as multas duras e cadeia aos infratores que não apresentarem os justificativos às autoridades de controlo e fiscalização, espalhadas pelas ruas e até praias com homens, viaturas, cavalos e drones de sentinela. Os telemóveis terão, em breve, um aplicativo, voluntário, de vigia do COVID 19 para o Estado sintonizar os movimentos e focos de infeção.

Vamos ao que interessa deste fórum. A aritmética da conta bancária. Dez euros, individuais, vezes mil são-tomenses disponíveis, a contribuir, em Portugal, dariam dez mil euros. 10.000 euros. Mais e na mesma proporção.

Os dez mil euros de mil são-tomenses, disponíveis, a contribuir no Reino Unido. Mais. Os dez mil euros dos de França. Mais. Os dez mil euros dos do resto do mundo ocidental. Mais os dez mil de gentes de boa vontade e até na África. Mais os que disponibilizarem valores superiores. Conta feita! Mais de cem mil euros da diáspora.

Quantos kits de testes rápidos, materiais de diagnósticos, aparelhos de reanimação, ventiladores, luvas, viseira, máscaras, gel, desinfetantes, sabão, a diáspora enviaria à nossa terra para salvar ao nosso povo?

Boa-nova. O FMI declarou “Perdão dos serviços de Dívidas” nos próximos seis meses, a vinte e cinco países africanos, incluindo São Tomé e Príncipe, para que as incipientes injeções financeiras, sejam viradas para salvar vidas e economias.

Outra Boa-nova. Finalmente, na última segunda-feira, chegou-nos a notícia, de que as embaixadas africanas na China “enfrentaram” ao governo chinês, devido ao estigma e à discriminação, a que estavam sujeitos os estudantes africanos, expulsos de residências, a deambular e dormitar pelas ruas, à chuva e ao frio, naquele país, devido o coronavírus. Cheguei a partilhar, no  último fim-de-semana, o vídeo em causa, bastante chocante, do grito desesperante e pedido de socorro internacional de uma angolana, acredito pelo sotaque – mana parabéns! – residente no país asiático. Após a condenada e rotineira discriminação racial pelo mundo, EUA, Brasil, países europeus do leste e ocidente, e até os do Magrebe, chegou a vez da China, o país originário do vírus, deixar cair a sua máscara contra os “Homo-sapiens”.

Nesta altura, em que o mundo, a tentar vencer a guerra, busca o réu, ao invés de partilha de conhecimentos e solidariedade internacional, desde o início do mês de Abril, os franceses, fronteiriços da Alemanha, também são expulsos do país vizinho, conotando-lhes à doença. Todos estamos afetados, direta ou indiretamente pelos efeitos nocivos do inimigo invisível. A guerra tem disso. A União Europeia, está de cabeça perdida.

O presidente Trump, do outro lado do Atlântico, farta-se de pedir a cabeça do africano à frente da OMS, o etíope, Tedros Ghebreyesuso, acabando mesmo na vigarice de retirar a ajuda financeira à organização. O presidente Bolsonoro, após a longa batalha, “abateu” ontem, o seu ministro da Saúde, o médico Luiz Mandetta e a sua equipa científica que vinha praticando as medidas de quarentena contra a pandemia, contrárias ao desejo presidencial de atirar os brasileiros à rua e ao trabalho para enfrentarem a “gripezinha”.

Lavar as mãos com o “sabão-de-Lisboa”, ao longo do dia, quantas vezes necessárias e, o distanciamento social, dois, três metros, ainda são as vacinas mais baratas e eficazes para juntos, vencermos o COVID 19.

Quando viermos, a comemorar a vitória sobre a guerra, devastadora, com os impactos económicos e financeiros desastrosos e, eventualmente, o desemprego de muitos anónimos que não só, mantém higiénicos os postos de trabalho, como diretamente, salvam as vidas nas “maisons de retraite”, clínicas e nos lares da terceira idade, para não citar os hospitais, o mundo não deverá esquecer dos invisíveis combatentes da linha da frente. Enfim!

Para as Elisabete, Rita, Maria, Lina, Deolinda e os José, Manuel, João, os anónimos são-tomenses, espalhados pelo mundo inteiro e, em especial, por esta Europa, gravemente infetada e que têm visto morrer as suas velhinhas amizades, uma palavra de estima.

Para esses anónimos, incluindo a Betinha, na foto, sem a visibilidade de médicos, enfermeiros, policias, bombeiros e ademais técnicos da saúde, ela, uma das invisíveis desta guerra global, a correr os sérios riscos e diários de contágio à família, em quarentena, com a máquina de lavagem e desinfetantes, balde de limpeza, vassoura, máscara, viseira, luvas, fatos descartáveis e mais materiais com que mantém, todos os dias e as horas complementares, na linha da frente de combate ao inimigo invisível, a singela homenagem, a todos eles, os soldados sem o rosto visível na imprensa internacional.

Deus proteja o mundo, a África e São Tomé e Príncipe.

  1. Maria Cardoso

17.04.2020

    6 comentários

6 comentários

  1. Almeida

    18 de Abril de 2020 as 15:34

    A todos esses anónimos que estao na linha da frente na luta do inimigo invisível o covid19, os nossos agradecimentos. Sao também graça a eles que riscam as suas vidas e a dos próximos todos os dias para nos proteger e nao podem ser esquecidos. Parabens pelo texto zé Maria Cardoso, pela abordagem de assuntos importantes da atualidade.

  2. Macalacata

    18 de Abril de 2020 as 16:21

    Boa escrita nota 18.
    Mais os que vivem na diàspora nào devem contribuir em nada porque o paìs em vez de receber carros luxuosos devia trocar este luxo por materiais hospitalar.A fragilidade do nosso sistema de saùde ja vem do tempo antigo e nao desta pandemia.
    Està è a responsabilidade do governo,dos antigos governantes, do presidente e de todos antigos presidentes. Porque se o governo è amador e incapaz como todos sabemos eles que apresentam a demissào.
    Sei que este nào è o momento ideal para julgar o governo porque segundo Rui Rio presidente do PSD ele disse que fragilizar o governo neste momento è gragilizar o paìs.
    Agora pergunto onde para milhares de euros que se paga para desalfandegar uma viatura?
    Inumeras taxas que se paga no paìs.Porque razao o sr primeiro ministro composto pela sua equipa e os deputados ainda nao vieram ao pùblico apresentar um corte nos seus salàrios face a esta situaçao pandèmica?

    Muito obrigado

  3. A Verdade

    18 de Abril de 2020 as 21:59

    Que saturante ler este artigo.
    Extenso e sem sumo.
    Escrita só por escrita com muito pouco para dizer.
    É assim mesmo.

    • Sempre atento

      19 de Abril de 2020 as 15:00

      Até me cansei de ler porque vi nada de substancial ou concreto. Ler aquilo é fazer dormir o leitor. Se tivessem a praticar a mesma quantidade que escrevem o país já avançava.

  4. ze Maria Cardoso

    20 de Abril de 2020 as 6:20

    Olá colega “TODOS POR UM STP MELHOR”, é o nome da campanha que lançamos p compra de um ventilador para o nosso STP e cada um contribuir com o que poder. Men Non q é a associação que também está a colaborar connosco.
    Faz parte da organização Noemy Vaz Medina, Solange Salvaterra Pinto, Liberato Moniz, André Aragão e Rute Salvaterra. Podemos contar consigo para nos ajudar a ajudar STP?
    Enviaremos para todas as pessoas as informações da campanha,o que se vai conseguindo, quais as etapas, etc,até a concretização final desse objetivo que é colocar um ventilador no Hospital Ayres de Menezes em STP.
    Juntos podemos e conseguimos. MUITO OBRIGADA.
    Conta da associação Men Non: CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS
    NIB: 003500 970 000 817 053 048
    IBAN: PT50 00350 097 000 0817 053 048
    Escrevem nos comentários “TODOS POR UM STP MELHOR”
    Depois envia para mim a foto do comprovativo do recibo. Pode ser por Messenger, envio de fotos.
    Também poderá nós enviar os comprovativo da transferência ou depósito para o e-mail: ajudastp2020@gmail.com
    Que Deus vos abençoe sempre e muito obrigada.

    Obrigado Alain Carvalho (Londres)

  5. SANTOMÉ CU PLIXIMPE

    20 de Abril de 2020 as 7:13

    CONTA BANCARIA::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::??????????????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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