Opinião

Voto útil, a razão da Nação

As prerrogativas democráticas deixam clarificadas as balizas de cada órgão no nosso quadro constitucional e daí, nenhum dos quatro órgãos de soberania, o Presidente da República, a Assembleia Nacional, o Governo e os Tribunais, é dono do poder absoluto. Ainda assim, na Política Externa e Defesa, o Chefe do Estado deve meter nariz na agenda do Governo e goza de tentáculos da Magistratura de Influência junto da comunidade internacional, capazes de atrair o empresariado estrangeiro para o engajamento no desenvolvimento económico e social dos são-tomenses.

O mais Alto Magistrado da Nação tem ainda a faca da justiça para cortar o queijo através dos poderes na dissolução parlamentar; demissão do Governo; promulgação e no veto, mesmo que as deliberações lhe cheguem com a credencial de um outro órgão e porta-voz do povo, o Parlamento. Decisor do equilíbrio e da convivência democrática, o Presidente da República, é o garante da Independência Nacional, Representação do Estado São-tomense, Unidade e do Regular Funcionamento das Instituições, cabendo-lhe ser, o Comandante Supremo das Forças Armadas.

Aqui, o primeiro fôlego à consciência eleitoral. Uma questão que deveria adoçar os cidadãos eleitores, independentemente de paixão partidária, familiar ou personalizada. Dos candidatos credenciados e ordenados pelo sorteio realizado por juízes do Constitucional: 1 – Eugénio Tiny (empresário, professor universitário e antigo vice-presidente do parlamento); 2 – Nito Abreu  (“licenciado em Relações Internacionais” e líder parlamentar de ADI); 3 – Miques João (advogado das vítimas de 25 de Novembro, ativista e, recentemente, preso político); 4 – Jorge Bom Jesus (professor universitário, antigo líder do MLSTP, antigo ministro e primeiro-ministro no XVII Governo, tardiamente e mal fotografado no abandono da corrida presidencial); 5 – Carlos Vila Nova (empresário, antigo ministro dos governos de ADI e presidente da República na corrida à própria sucessão); qual dos quatro, em atividade concorrencial, melhor se enquadra no desempenho responsável da prestigiada missão presidencial, há muito, pactuada pelos legisladores e de fé no brasão: Unidade – Disciplina – Trabalho?

Se existe encruzilhada eleitoral, em que os candidatos colocam os eleitores contra espada e parede, sem a menor das dúvidas, uma delas, é a atual circunstância que exige muita ponderação dos são-tomenses a evitarem ao máximo o desperdício dos votos. Daí, a necessidade do duque de espada no jogo democrático, isto é, o voto útil. A consciência eleitoral deve convergir, não no grande candidato, jovem ou de idade, mas naquele que menos dúvida espelha ao futuro e à estabilidade do país.  

O voto, é ouro, diamante, petróleo, terra arável, mar de peixe, esperança, mas acima de tudo, a consciência de decidir na cruz de excelência. O calor festivo que se faz sentir no país e na diáspora até à crucificação individual no escrutínio de 19 de julho, merece cabeça fria, apesar do banho e da bebedeira abundante para a época. A consciência pessoal, desde há muito, estava bem formatada. «É a vez das mulheres!» Eu dispunha do voto otimista para qualquer excelência feminina, independente da corrente política ou de cidadania. Bastaria que avançasse com competência reconhecida e verticalidade no préstimo à nação. Festejei a “rumba” ensaiada por Elsa Pinto, infelizmente, de sonho amputado pela opção contrária do seu partido.

No cenário que resta e espelhado pela dinâmica dos dois pretendentes ao palácio cor de rosa, vindos à luz da mesma família partidária, a ADI, inevitavelmente, a escolha será entre o experiente e o caloiro. O rei e o príncipe. A sabedoria do adulto ou a rebeldia da juventude? Maturidade ou amadorismo? O voluntarismo público ou a servidão partidária? A sensatez de fazer algo ou a esperteza em ser algo? Em suma, um árbitro da democracia parlamentar e conselheiro com o sentido de Estado e que o cargo exige para o equilíbrio e a estabilidade ou um oportunista em frete ao líder do seu partido? Na gíria doméstica, “sebêdô” ou “bêtuado”, isto é, uma personalidade de reconhecido currículo público ou um aventureiro?

Para lá do falso argumento no uso da juventude (qual juventude desesperada e fugida do país pelo absolutismo do XVIII Governo?), «É a nossa vez!», não passa de mais um malabarismo do líder de ADI. Vê-se a camisa, nitidamente, mal costurada e apertada nos músculos do jovem Nito Abreu. Caso o deputado usasse a humildade que a inteligência humana obriga aos políticos para decidirem com o brilhantismo do próprio cérebro, ainda tem um caminho a percorrer e desbravar até sonhar com o mais alto cargo. Jamais deveria acelerar que a energia das próprias pernas. Com mais anos no horizonte, deve corrigir a veia radical, arruaceira, mal-educada e submissa, em que surgiu de vulto no parlamento, como o líder parlamentar e a cópia do mestre no arremesso das pedras na selva que fez de arte, a atual legislatura no parlamento. 

Os árbitros de bancada, no país e na diáspora, infelizmente, por mais publicidade de independência de opinião, imunes à obediência partidária, aquecem as veias com a mesma bebedeira que, há duas décadas, os eleitores são-tomenses banham a alma. Levados pelo excesso ilusionismo, pela má-fé ou simples manipulação, cometem a mesma cegueira na consagração do líder de ADI como o salvador da pátria e o mais conceituado político do país, desde a sucessão política do pai Trovoada. Daí, em substituição da geração de Santa Isabel, os cidadãos de fato e gravata sensibilizam o povo a correr cego, atrás do candidato sorteado pelo chefe, sem qualquer filtro à competência, sensatez ou ao brilhantismo público.

Distraem-se, propositada ou estupidamente, da velha artimanha que embeleza a ilusão dos ganhos eleitorais do político agraciado pelas antenas internacionais e pelos profetas circunstanciais da democracia. Contexto apropriado para a questão que deveria nortear todos quantos têm batido com a cara da bebedeira no muro. Qual o mistério do então primeiro-ministro (quatro vezes) fugir do país logo que perde o poder executivo, mantendo-se no estrangeiro, sem sequer uma visita familiar e de turista para relançar a economia nacional ou abraçar a militância?

A réplica de rotina e fabricada pela estratégia devidamente arquitetada pela própria figura, cinge-se na fuga aos seus inimigos, ou seja, ele é a única vítima dos poderosos do país. Representados pela velha elite, de armas apontadas, não lhe poupariam a vida. Essa falsidade, ou teoria de conspiração, já não tem pernas para andar, caso os eleitores elevem a razão da Nação acima do coração.

Com a queda do seu executivo, no dia 6 de janeiro de 2025, o presidente da República, tardiamente, liberto da vergonhosa, desprestigiante e demorada submissão ao chefe do governo, subscrição da corrupção executiva, do abuso de poder e, do prolongado esmagamento da oposição parlamentar, fez o aconselhável para a circunstância. De antever, a resistência do titular do cargo, despromovido. Trouxe à praça pública o deselegante braço-de-ferro entre os dois palácios e prometeu caos no país. Porquê de mais uma fuga para longe da governação, assumida pelos quadros e militantes de ADI, chefiados no XIX Governo, pelo primeiro-ministro Américo Ramos, até recentemente, o braço direito do líder, o Secretário-geral do partido e quem galvanizou a vitória ao poder, em 2022?

Manter intacta a sua imagem política. Repito. Manutenção da imagem política, longe dos mendigos, até os de fato e gravata, que nos executivos, germinou à custa da «vaca que não dá leite». Não desgastar a sua imagem política nos debates legislativos, executivos e judiciários. Jamais foi elegante na vida política, prestando o nobre serviço de passagem de pasta executiva. Sempre fugiu do parlamento como o diabo da cruz, inventando narrativas para não prestar contas públicas, vezes imensas, em núpcias com a corrupção ativa. Nunca lidou com os inquéritos parlamentares, nem aquando da prisão, tortura e do assassinato de quatro cidadãos civis pelo Estado totalitário, chefiado por si.

Preferível, longínquo e em exibição luxuosa com a reserva miraculosa na agenda, a vender ilusões e a “manda-bôkas” contra tudo e todos. Insulta, faz ameaças e joga feio na devastação política dos adversários e até dos aliados, os “companheiros”, que reclamam democracia interna no partido. Porquê não assumiu a cadeira de deputado na defesa do povo e da democracia que em setembro passado, divertiu a militância com o sorteio do seu regresso ao país?

A não se rever ao espelho, usa a máscara e acusa os adversários com a anotação que guarda da sua própria má gestão política, económica e social com que governou em vezes repetidas, acentuando a instabilidade política, pobreza, ignorância e intolerância democrática no país. Sem se rever ao espelho, espalha veneno para renovar a presidência do país, com o sangue novo de um jovem desnorteado, aniquilando com o ato, o candidato à própria sucessão, bem recente, o menino brilhante e obediente. Liberto da corrente do chefe, o presidente da República, por ele, é enxovalhado e reportado pelas acusações deselegantes de inimigo-traidor. Todavia, décadas passadas à testa de Acção Democrática Independente; aí daquele “companheiro” que levantar a voz contra o líder, exigindo contraditório democrático interno ou palavra eletiva à nova era! Hum… Já era!

O país assim, reclama do patriotismo de todos, o voto de utilidade pública! Amanhã, para a cereja por cima do bolo, a data festiva dos Cinquenta e Um anos da Soberania Nacional, o povo ao peito da “rumba”, «Primeiro o meu país!», anseia do presidente Carlos Vila Nova, marido, pai e avô, a aplicação urgente, antes de 19 de julho, da prerrogativa jurídica de nobreza humanitária que os são-tomenses fieis à estabilidade social, tolerância democrática, autonomia do pensamento e dignidade da vida humana, há muito, reclamam à sua consciência católica.

Indulto presidencial ao Lucas, o preso político do XVIII Governo de São Tomé e Príncipe.

Boas Festas de 12 de Julho!

José Maria Cardoso

11.07.2026

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