Finalmente! A grande festa quinquenal. Dois candidatos ao título e numa competição em que se antecipa longa e “bacana”. Não tem ruído, não! Ventanias das novelas e séries infantis brasileiras têm colorido a língua da gente. Os antigos aliados de um mesmo clube, desavindos; ao longo das últimas semanas se guerrilharam entre si, a ponto de torcidas “inimigas” apanhadas no matrimónio da impressionante gravana, foram banhadas de ouro estratégico, consequente do fogo cruzado.
Os terceiros e quarto lugares, por mais talento energético dos dois clubes, treinos intensos e táticas de último suspiro que lhes permitiram passar nas eliminatórias, não se perspetiva animação que venha a cheirar golo ao palácio cor de rosa. Emblemas de poder financeiro “zerado”, confrontados com o esbanjo dos rivais – à nossa maneira -, lastimaram aos céus pela ausência da mão do Estado.
Quem não me conhece, sou o enviado especial à cobertura da competição em Grasse – França. Após a hesitação do campo para a bola, propositada pela vivacidade da diáspora local – quem se acha de um olho na terra de cegos, auto promove de rei -, a intervenção do Consulado de Tozé Cassandra, em Bruxelas, através da sua congénere são-tomense, em Marselha, serviu de toque da mágica. A última hora, a diplomacia abriu portas ao estádio do espetáculo. Do campo sintético, ao nível de segundo andar, observa-se o coração da cidade gaulesa e a multidão de pedestres, trotinetes, ciclistas, “motards” e automobilistas que pintam de vida a beleza artística medieval.
Neste domingo, o especial 19 da final do Mundial de Futebol, é de audaciosa exposição histórica, a festa desportiva. A torcida familiar, sem margens para dúvidas, vem ensaiando pés ao Flamengo. A magia da bola! Simbolicamente, dois negros, Lamine Yamal e Nico Williams, filhos de emigrantes africanos, carregam a África à refrescante margem solar da Espanha.
O troféu internacional, em disputa, guardará na cave da memória mais duas exaltações históricas inéditas. Os africanos, em represália ao silêncio e à cumplicidade do governo sul-africano à violência xenofóbica e expulsão violenta e homicida de negros, estrangeiros, ativos na economia, uniram-se numa só frente. Cidadãos de países que deram vida e alma ao fim do racismo institucional na África do Sul, efusivos, torceram a favor dos adversários do país do lendário prisioneiro do Apartheid, o presidente Nelson Mandela. O terceiro momento, o mágico e mais inspirador do torneio, agora de quarenta e oito clubes, foi reservado à estreia dos Tubarões Azuis.
Vózinha, a estrela brilhante no deserto, iluminou o horizonte. Carregou um continente inteiro às costas. Os brasileiros rendidos ao guarda-redes, de 40 anos de idade; num só lance, fizeram explodir de uns milhares à beira de um milhão de aderentes na sua conta pessoal, na Internet. Cabo Verde, a minúscula e recente nação insular, bateu de frente contra as três campeões mundiais: Espanha, Uruguai e Argentina, duas delas finalistas, de hoje. Só depois, caiu de pé. Prova ilustrativa de campeões e fruto de trabalho produtivo, organização, competência e transparência do Estado cabo-verdiano; merecedor de efusivas palmas mundiais.
Coincidência ou não, a maior das festas das últimas seis semanas, com desperdícios de milhões e milhões de euros de zombaria à pobreza endémica instalada às populações, sem saúde, educação, água potável e nem infraestruturas, não tem decorrido no México, Canadá ou nos EUA. São Tomé e Príncipe. Numa final de resultado imprevisível, desde manhã cedo, as ruas das ilhas inundaram-se de jogadores e apreciadores da bola que nem os Santos Domingos de Nazaré e Deus Pai. Entre 7 e 17 horas, horário de Santomé, e consoante os fusos de cada país, a bola, ao certo, rolará e a gosto de todos nos respetivos campos de terra batida, relvados e de piso sintético.
Por cá, de pés e cabeçadas de um quinteto supervisionado pela delegação credenciada pela CEN, em Bruxelas, o espetáculo decorre de 9 às 19 horas. Ativa a rede aos vários estádios por países e cidades desportivas, as queixas convergem-se num só alarido. Jogadores inscritos que não aparecem na lista dos convocados. Cada um puxa calor ao seu voador com os eventuais golos de Eugénio Tiny, Nito d’Abreu, Miques Bonfim ou Carlos Vila Nova.

Nada mais aliciante que pequeno cheiro do postal local. Grasse, a Capital Mundial do Perfume – a galinha de ovos de ouro turístico -, e o Património Cultural da Humanidade, fica encravada entre as montanhas alpinas que, pelos chutos do aquecimento global, vão perdendo neve. Como que cábula assertiva à Trindade; ao fundo, deixa ver o Mar Mediterrâneo. Nice, a capital da região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, fica há uns trinta quilómetros. É a dama do Aeroporto Internacional de Sul. Cannes, a Cidade Internacional do Cinema, uns 20 quilómetros. As rodovias, sem as dores de corpo aos automóveis, permitem deslizar, quer numa ou noutra viagem, em menos de meia hora. Ninguém vai à Roma para não visitar Vaticano. Dei olhos no Mónaco, o principado contornado pelo Estado francês e também balnear milionária e convidativa, similar às outras duas cidades.
São Tomé e Príncipe, ainda é um país desconhecido dos franceses. Pior. Alguns africanos da região central do continente, abordados; à primeira, poucos abrem dentes rendidos à peculiar beleza das ilhas vizinhas. Trazendo os irmãos Calema ao centro da diplomacia cultural, alguns, maioritariamente, os jovens europeus, sul americanos ou africanos, têm na língua o contágio da delícia das suas canções. Para o estrondoso choque, vendem Calema como a dupla portuguesa, brasileira, cabo-verdiana ou angolana. Ninguém ganhou o troféu, São Tomé e Príncipe.
De reconhecer a abnegação do titular de braçal de capitão do quinteto do sul francês. Não desperdiçou um só registo do rigor, da pontualidade e eficiência. Onofre Pontes, Malisa Sacramento, Leopoldina Frota e Elvídio Lavres, consolidaram a equipa. No campo sintético, surgiram momentos em que ele batia a cara contra a parede. Já no início, apesar de tudo à hora, soou mãos na mesa. Recusou que se desse o apito inicial, sem que houvessem jogadores na plateia. Contextos em que a desistência espelhava a melhor saída para não cair de costas. Circunstâncias de tentativas de atentados contra a legalidade do jogo. Manobras e ameaças de fraude desportiva.

Jogadores sem a identificação na lista disponível, mas que exigiam ser titulares. Atletas que não se inscreveram aquando de certificação de maio; com a documentação pessoal, em dia, mandavam bocas no direito de jogar a bola. Jogadores, incrivelmente, sem qualquer “papel com foto” na terra alheia. Estes, confirmados por figuras credenciadas, jogaram a bola. Jogadores alistados para a competição, mas que em casa, repousaram o domingo. Sentem-se traídos por repetidas apostas erradas dos decisores políticos ou por qualquer outro egoísmo liberal de desrespeitarem a democracia. É como que de cartões vermelhos contra os governantes de vários “times”, por represália, nos respetivos sofás, manifestaram o desconhecimento da mão esquerda, da direita.
Nada a justificar o dar de costas ao país. Quase três décadas depois, retirou-me da zona de conforto. Revivi as crónicas desportivas de Mé-Zóchi e Lobata, estas de Roberto Carlos – amigo, aquele abraço -, ao mundo desportivo da Rádio Nacional. Em pé da atualidade nos vários estádios das competições, partilhei os distintos momentos com São Tomé e Príncipe, Luxemburgo, Londres, Lisboa, Porto e Paris. Por volta das 15 horas, um telefonema mandou abaixo o direto.
Alguém ligou para me bater a barriga. Um cúmplice de longa data. A esposa e os três filhos adultos faziam-lhe o coro. Maca grande. O seu nome não aparecia nos alistados. Apesar de reconhecer que a cumplicidade pessoal lhe retirou do sono em maio; na altura, a companhia “banô orelha”. A culpa não morre solteira. O seu ídolo tinha de vencer o jogo pelo que gelava na viatura o champanhe. Nem que os golos fossem marcados com as mãos fantasmas e com o estádio fechado. Cruzei peças no xadrez. Havia razões suficientes da sua equipa andar em penitência, última hora, contra os golos fraudulentos. Desertores, em especial, os generais, jogam na equipa adversária. Descarregou manto para tudo quanto era canto, em especial à CEN. «- Uma colja de bandidos e incompetentes!»
Refresquei-lhe o calor após o almoço. O país anda debaixo de fogo. O jogo do título. A competência briga com a garotada. A gentileza disputa contra a aventura. Responsabilidade contra a humilhação. A excessiva vingança ao antigo aliado, não marca golos. O líder do clube, Acção Democrática Independente, sem ilusão que traduzisse em vitórias, passou os meses a chincalhar o adversário, o engenheiro Carlos Vila Nova e, em consequência, a acumular derrotas absurdas e conducentes à fora de porta desportiva. A torcida nacional, usando o Fair Play, deve convergir a razão da Nação na evolução do contraditório desportivo ajustado à competência intelectual e democrática.
Para a honestidade intelectual, esfreguei-lhe com Cabo Verde na cara. Que abrisse o champanhe de parabéns e de coração, aos cabo-verdianos, em geral, mas também aos “nacionalizados”, a par de angolanos e moçambicanos, em 12 de Julho de 1975, pelo então presidente da República, Pinto da Costa. Vestiu-lhes da colorida bandeira são-tomense de direitos e garantias constitucionais com que exibiram os excecionais dribles e marcaram os golos do país, sem a mínima discriminação.
De lance oportuno, refresquei-lhe com a pesada cruz do ministro português da Educação, Fernando Alexandre, esgotado na crise da digitalização dos exames nacionais. Cedo ou tarde, a robótica indisciplinada; os pais “desagendados” de viagens e férias de verão; os professores em fadiga e os alunos em ansiedade e incerteza contínuas, eventualmente, lhe custarão a braçadeira.
O licenciado, emigrante e gente grande, abanou os ouvidos. Interessa-lhe apenas São Tomé e Príncipe. Enumerou alguns lances fora-de-jogos que vão dando golos ao clube adversário. Mantinha a bala na culatra. Prometia acabar com a festa desportiva, caso não entrasse na competição e marcasse o seu golo. Paciente e para remate, baixinho e longe dos ouvidos, convidei-lhe a tirar um pé de bola da “Panela Velha de Sangazuza” com Vila Nova. Deveria seguir a lógica dos clubes parlamentares, MLSTP e BASTA, antes atropelados pelo então 1º ministro, o seu ídolo, quarta vez na liderança de executivos de cultivo de mediocridade, autoritarismo, exclusão, corrupção e extravagância. Na atualidade, vítima do próprio veneno, conduz com o alarme; «Pega gatuno!».
O telefone me caiu na cara como que eu abusasse na unificação de ADI à torcida do desertor Américo Ramos, bem recente, o general do clube. O auto salvador constitucional – mimetismo (erro tático) da lei interpretativa do XVIII Governo – anima o novo ciclo político do desporto. Não se ganha, continuamente, os jogos através de “abuçaide” e exacerbada carga emocional de romance com quem, por capricho pessoal, perdeu os distintos voos comerciais para Santomé.
Às 19 horas, o apito final. Houve um compasso de espera. Chama da Pátria na Praça da Independência. Não! Uns minutos antes, Bruxelas transferiu ao Coordenador da Diáspora Eleitoral, André Lima, vindo de Paris, do espetáculo decorrer até 20 horas. Em Santomé, alguns jogadores, empoeirados na alma, sondaram o banho até ao extremo. Beneficiam de jogadas aos últimos golos. Final na diáspora “azurense”! A equipa de Carlos Vila Nova levou de melhor. Marcou o dobro dos golos do recém licenciado Nito d’Abreu. Os advogados Miques Bonfim e Eugénio Tiny, como previsto, posicionaram-se no terceiro e quarto lugares. Os desistentes rondaram os 50%.
No hotel, por volta das 21 horas, já com os holofotes nos EUA e ouvidos em sintonia com a disputa nacional – Parabéns RSTP! -, bomba para cima de mim. De enfurecido ao festivo, o meu comparsa ligou para festejar a vitória. Lançou-me a moeda de troca através de África Negra. «– Lentlada kachêlo, non ká lentlé ku pódgi lumadu/ Saida kachêlo… Quem ri no fim, ri melhor!» Caiu-me água gelada para arrefecer o intenso verão. Na sala de mais de 30 graus, tremi o chão de muro.
As gargalhadas festivas consumiram a energia familiar. Eu e a jovem dupla feminina, ruíamos dedos na bola, Argentina – Espanha. O suspense da noite, por fim, ganhou acalmia já na fronteira do sorteio de pontapés; os penáltis. Com um golo se ganha; por um golo se perde o jogo. Aos 105 minutos derradeiros, o suspiro de alívio. Espanha da cabeça africana de William para traseira. No lugar certo, Ferran Torres e explosão nos EUA. Gooooolo! O segundo troféu mundial aos espanhóis perante as lágrimas de Lionel Messi que se viu vergado também ao africano Kylian Mbappe, de França, o melhor fuzileiro do Mundial 2026. Era tudo África. Zion Suzuki, o jovem japonês, para a curiosidade internacional, defendeu de garras africanas, a baliza do Japão.
Para a memória do pandemónio, sem que o interlocutor imaginasse, carreguei no gravador de voz. Fui gemendo à baboseira criminal, deselegante e desgastante para um adepto do Estado de Direito Democrático formado pelos saudosos mestres do jogo eleitoral, António Aguiar e Pascoal Pires dos Santos. Duas ilustres personalidades íntegras e de carteira independente que sem aparente falha, nem fraude, coordenaram as espetaculares competições da estreante e festiva Democracia, em 1990 e adiante. Aconselhei. Os derrotados, pelo bem desportivo, não costumam engolir as palavras.
«- Meu amigo! Na repentina distração do árbitro, exigente – pensava concertar o país -, introduzimos a mesa no bolso. Nem os vídeos árbitros dos observadores internacionais, caso fossem para aqui convidados, dispunham de holofotes para a engenhoca. Eu celebrei o pacto com a equipa adversária. Exercemos o direito de cidadania! Jogo limpo, limpinho, mas ilegitimamente, legal!»
Há muito trabalho pela frente. Fechei a estúpida noite do intenso calor de Grasse, já de madrugada, com a mão no queixo a carregar a embriagada esperança no leve-leve.
José Maria Cardoso
19.07.2026