Numa altura em que o lixo se acumula nos cantos da cidade, nas estradas e até nos quintais, jornalistas são chamados a deixar os bastidores e assumir a linha da frente de uma batalha que já está a ser perdida em silêncio: a guerra contra os resíduos e produtos químicos mal geridos.
A segunda fase da formação nacional em jornalismo ambiental, promovida pelo Comitê Nacional de Gestão de Produtos Químicos e Resíduos, juntou comunicadores de diferentes órgãos de comunicação social do país, para uma missão urgente — transformar microfones em armas de sensibilização, e reportagens em escudos contra a ignorância e a indiferença.
Este não foi mais um daqueles encontros formais com discursos mornos e aplausos protocolares. Foi um chamado à ação. Um alerta direto aos que andam de olhos fechados num país onde os resíduos perigosos se escondem em depósitos improvisados, em valas, e às vezes até no prato do cidadão comum.

Mikael Saraiva, membro do Comitê Nacional, não teve papas na língua:
“A comunicação social tem que parar de noticiar apenas quando a tragédia bate à porta. É preciso agir antes que o desastre seja manchete. O lixo tóxico não espera por editoriais.”
A formação de um dia que decorreu na Aliança Francesa, centrou-se em ferramentas práticas: como investigar fontes, como identificar irregularidades ambientais, como transformar números e documentos técnicos em histórias que mexem com a opinião pública. E, claro, como colocar pressão — porque, sim, é preciso pressionar.
Desidério Paquete, jornalista da Rádio Lobata, foi ainda mais incisivo:
“Se nós, jornalistas, não abrirmos os olhos do povo, amanhã vamos respirar veneno e engolir silêncio. Esta formação foi um abre-olhos. Não podemos continuar a tratar resíduos químicos como se fossem cascas de banana.”
Entre análises de reportagens, debates acalorados e troca de experiências, surgiu com mais força a ideia da criação de uma associação de jornalistas ambientais — uma rede de profissionais prontos para incomodar, denunciar e propor, com coragem e conteúdo.
Porque, sejamos claros: não se trata apenas de lixo. Trata-se de dignidade, de saúde pública, de soberania ambiental. Trata-se de tirar o ambiente da secção de rodapé dos noticiários e colocá-lo no centro das prioridades nacionais.
São Tomé e Príncipe não pode mais ser um terreno fértil para o descaso ambiental. E os jornalistas sabem disso. Agora estão mais preparados. Mais atentos. E — se depender desta formação — mais perigosos para quem prefere varrer o problema para debaixo do tapete.
Que fique o aviso: a tinta da caneta pode ser mais corrosiva do que qualquer químico. E há quem esteja pronto para escrever a mudança.
Waley Quaresma