Nas últimas 72 horas, o país foi confrontado com um documento que expôs, de forma explícita, aquilo que durante semanas se dizia apenas em voz baixa. Uma carta assinada pelo Director-Geral da EMAE, Raul Cravid, dirigida ao Ministro das Infraestruturas e Energia, veio a público através de um canal improvável: o estado de WhatsApp do próprio director — não se sabendo se por inadvertência ou por escolha calculada.
O teor da carta é claro: a EMAE propõe que o Governo autorize, “a título excepcional”, a entrada na rede nacional de um produtor privado, durante os próximos três meses, com fornecimento de combustível subsidiado e faturação posterior. É, no essencial, a mesma lógica que esteve na origem do caso Tesla.
A partir do momento em que esta carta se tornou pública, a narrativa oficial deixou de ser sustentável tal como tinha sido apresentada. O Primeiro-Ministro, no Parlamento, negara conhecer qualquer iniciativa desse género. Negou factos, reagiu de forma agressiva, invocou amizade pessoal como se isso fosse argumento válido em matéria de probidade e remeteu a oposição para uma Comissão Parlamentar de Inquérito, como se o problema fosse apenas político-partidário e não institucional.
Com a carta agora exposta, instala-se uma contradição objectiva entre o que foi dito no Parlamento e o que estava já em preparação no seio do aparelho do Estado.
Mais do que julgar intenções, o que se impõe é uma exigência clara: o Chefe do Governo deve ao país um esclarecimento completo e verificável. Num Estado de Direito, zonas de sombra neste nível fragilizam todos.

I. Tesla 2: mudar o nome, repetir o erro
A proposta da EMAE parece repetir o mesmo modelo que mergulhou o país na dependência da Tesla:
– produtor independente a diesel;
– fornecimento emergencial;
– combustível fornecido pelo Estado;
– relação contratual assimétrica;
– opacidade sobre critérios de escolha;
– risco real de chantagem operacional futura.
Tudo isto numa altura em que se diz que o objectivo dos produtores independentes é acrescentar produção renovável ao sistema, não substituir a EMAE na produção convencional.
O referido produtor independente de que alude o Director da EMAE parece ser desconhecido e não tem seguramente histórico público conhecido de operação no sector, aparece agora como “solução rápida” para um problema que é estrutural — e não conjuntural.
O país vive, há três meses, numa espiral de apagões. Mas a falta de luz não justifica a falta de princípios.
II. A EMAE como activo estratégico – e o erro político de a subalternizar
A EMAE não falha por falta de conhecimento técnico. Falha porque há décadas é impedida de funcionar como empresa.
Criada no final dos anos 70, é a única estrutura com memória operacional completa do sistema eléctrico nacional. Tem técnicos e gestores competentes, formação acumulada, experiência directa de geração, distribuição e manutenção da rede.
O seu problema “nunca” foi técnico. O seu problema é político:
– ingerência permanente de governantes;
– direcções reféns de maiorias parlamentares;
– ausência de autonomia para planear;
– lideranças nomeadas para obedecer e não para gerir.
Quando o Governo entrega produção de diesel a privados, está implicitamente a dizer aos trabalhadores da EMAE: “Vocês não servem”.
É falso. E é humilhante.
É um atestado de incompetência passado a quem, durante décadas, manteve o país ligado nas piores circunstâncias, muitas vezes com meios mínimos e em ambiente de grande pressão.
III. A economia oculta das crises – quando a energia vira negócio
Em países frágeis, as crises não são apenas crises. São também terreno fértil para que redes de interesse transformem urgência em oportunidade económica.
O padrão é conhecido:
- surge uma falha estrutural;
- instala-se o desespero público;
- aparece uma empresa-sombra, criada ou activada em cima do acontecimento;
- o Estado assume o custo do combustível e da energia;
- resolve-se hoje, criando dependência para amanhã;
- abre-se espaço para ganhos privados significativos, muitas vezes sem escrutínio proporcional.
Depois do trauma Tesla, qualquer repetição deste modelo já não pode ser explicada por ingenuidade. É uma opção política.
E quando o Estado escolhe fragilizar a sua própria empresa pública em benefício de entidades privadas – sejam elas competentes ou não -, o que está em causa não é apenas gestão: é o risco de captura institucional de um sector estratégico.
IV. O Presidente do Sindicato da EMAE
O presidente do sindicato da EMAE, identificado publicamente como próximo de um partido político, surgiu nos media a defender a validade da iniciativa privada como se fosse parte da direcção.
Não falou em nome dos trabalhadores, não defendeu a honra profissional dos técnicos, não questionou o impacto da medida na estrutura pública.
Falou, na prática, como actor político.
Num país onde as instituições intermédias já são frágeis, este tipo de sobreposição entre papel sindical e alinhamento partidário é perigoso. Os trabalhadores da EMAE merecem uma representação que coloque, em primeiro lugar, a defesa da sua competência e da missão pública da empresa.
Um sindicato que não defende os trabalhadores está a defender quem?
V. Probidade e responsabilidade – aquilo que se exige a quem governa
A reacção do Primeiro-Ministro, ao ser confrontado no Parlamento com suspeitas de conflito de interesses, foi tudo menos exemplar.
Em democracias maduras, suspeitas fundadas são tratadas com seriedade – e podem ter consequências políticas graves, mesmo antes de qualquer condenação judicial.
Foi assim em Portugal onde recentemente um Primeiro-Ministro eleito caiu quando houve suspeitas credíveis de favorecimento económico, mesmo antes de qualquer julgamento. Foi assim com José Sócrates, um ex-Primeiro-Ministro que hoje responde na Justiça por actos de corrupção e tráfico de influência.
Em São Tomé e Príncipe, o princípio não muda: não basta não ser corrupto — é preciso garantir que a gestão pública não tem sequer a aparência de favorecimento.
A opacidade mata a confiança. E um Governo sem confiança não governa — improvisa.
Luisélio Pinto / Fla Von Von
jose Manuel
2 de Dezembro de 2025 at 14:17
Meus Caros
A EMAE é uma empresa de fachada de negócios escuros e de riqueza fácil para os gestores da mesma, nomeadamente, Diretores Gerais, Engenheiros e técnicos. O Negócio de roubo de combustível na EMAE é histórico. Todo o mundo conhece este negócio ao longo de décadas. Já houve desvio de camiões de combustível que devia abastecer EMAE e que foi desviado para bombas de vendas de combustíveis e contentores espalhados pelo país de vendas de combustíveis. Todo o mundo conhece os sucessivos governos conhecem e sabem. Técnicos da EMAE que durante o turno da noite levavam bidões e bidões para a central com justificação de que iam catar água, mas cujos bidões eram cheios de gasóleo para negócios. Os Diretores e engenheiros sabiam.
Quando se fala de energias renováveis na EMAE é como alguém que estivesse a provocar a EMAE, pois a redução da quantidade de gasóleo na EMAE é sinónimo de redução de receitas paralelas dos dirigentes da EMAE.
Por isso, desde que o TESLA se instalou na EMAE e começou a controlar a entrada de combustível eu tinha a certeza de que a vida do TESLA tinha dias contados na EMAE.
Mesmo que tivesse havido erro no contrato assinado com TESLA, não houve estratégia de negociação, pois a negociação não se faz com uma espécie de ordem que outra parte em que obedecer. Quem não conhece a prepotência do Diretor da EMAE. Este individuo tem alguma metodologia para negociar? Porque é que o Governo não criou uma equipa séria e com experiência nas negociações para negociar com TESLA. Será que com a anulação dos sucessivos contratos que têm sido assinados de forma irresponsável pelos sucessivos governos, dá alguma credibilidade aos investidores sérios para continuarem a acreditar no país?
Como é que o motor de EMAE vai parar a empresa do António Dolores. Isto é uma agulha que se mete no bolso e se transporta de forma invisível? O Ministro das energias não sabia? O primeiro-ministro não sabia? O Ministro das Finanças não sabia?
Qual é a responsabilidade do Diretor da EMAE nesta nova empresa criada. Não é socio da empresa? Este senhor quando foi diretor da EMAE nos anos anteriores, entregou ao António todos os camiões de água que EMAE possuía para abastecer as zonas de água e hoje a EMAE não tem nenhum camião para fazer este serviço e em troca a empresa do António construiu a sua casa em Santo Amaro.
Estas são as negociatas que arruínam este país e que o povo é que tem que sofrer
Bem haja S.Tomé e Príncipe
Garoupa
2 de Dezembro de 2025 at 14:55
Necessidade premente de esclarecimento por parte das autoridades, transparência rigor e justiça se exige na gestão da administração pública,…
Dai necessidade urgente, da reforma da administração sector publico, a nível de lei laboral, formação de quadros, capacitados interna(todos aqueles que são funcionários publico, devem ter qualificação exigida para tarefas a executar), regras e procedimentos bem definidas, penalização, responsabilidade/responsabilização, sempre que se verificar desvios, código procedimento administrativo( nas tramitação dos processos, nos concursos públicos de acesso a lugar na administração publica- para ser funcionário publico, de aquisição ou de vendas, de execução-cadernos de encargos, prestação de serviços, em toda a esfera sectores da administração pública, legalidades dos atos praticados, suporte legal), avaliação de competências/ou de desempenho, avaliação institucional, seguro-saúde, higiene segurança e ambiente no trabalho, definição carreiras/meritocracia, políticas anuais de valorização remuneratórias consoante a evolução dos índices da economia e finanças(INE), evolução do PIB(se os funcionários públicos, ou trabalhadores quiserem ganhar mais têm que trabalhar mais, produzir para ganharem mais anualmente), evolução da inflação, crescimento da economia….
Há que ter princípios e clareza na administração pública, jamais se pode tratar da coisa publica(fazer negócios, propostas, vendas, compras como se de privado se trata-se),…
É tempo de transparência, é tempo de trabalho, rigor e justiça,…
Justino Justo
4 de Dezembro de 2025 at 11:44
Excelente texto que retrata bem a falta de vergonha de quem decide e mostra, de forma exemplar, que quem o faz não quer saber do povo e da população para nada. Sevem apenas para deixar o voto na altura própria. Usam e abusam dos sistemas montados e tratam de precaver as suas carteiras. A eletricidade é um negócio e será sempre um negócio quando for produzida desta forma, com combustível fóssil. Por isso dizem que vão apostar nas alternativas mas depois, nada fazem ou fazem muito lentamente pois no entretanto mais algum vai entrando nas suas contas.
Por isso este país, e muitos outros deste continente, não avança: poucos roubam o quer podia beneficiar muitos. E infelizmente são todos iguais. STP regrediu. Está no século XIX com esta falta constante de energia. Isto limita e devia envergonhar toda a gente. A mim envergonha quando relato o que aqui se vive. E estaria na hora de dizer chega mas não me aparece que seja já. Continuaremso no século XIX por mais meses…. até Às eleições, no mínimo. Infelizmente.
Assunto
6 de Dezembro de 2025 at 9:05
Excelente! Estes gordos ladroes sem vergonha tudo a roubar roubar gordos