50 anos: uma declaração de responsabilidade
Hoje faço 50 anos.
Nasci a 31 de Maio de 1976, menos de um ano depois de São Tomé e Príncipe ter conquistado a sua independência, a 12 de Julho de 1975.
Sou, por isso, filho da independência.
Pertenço à geração que nasceu já num país livre. Uma geração que recebeu um país imperfeito, mas também uma herança preciosa: a ideia de que existiam coisas maiores do que cada um de nós.
Sou filho do serviço público. Da maternidade pública onde nasci. Da escola pública onde aprendi a ler e a escrever.
Dos professores que me ensinaram. Dos profissionais de saúde que cuidaram de mim. Dos valores públicos que moldaram a minha geração.
E sei que não estou sozinho. Milhares de santomenses da minha geração podem dizer exactamente a mesma coisa.
Antes de nós houve outros. Homens e mulheres que chegaram a estas ilhas arrancados às suas terras, ao seu futuro e às suas famílias. Pessoas que sofreram, resistiram e sobreviveram. Gerações inteiras que deixaram sangue, suor, lágrimas, trabalho e esperança neste chão.
Não sou capaz de imaginar verdadeiramente o que significaram séculos de injustiça e privação. Mas sou capaz de reconhecer a dívida que temos para com aqueles que vieram antes de nós.
É por isso que hoje não quero falar apenas da minha vida. Quero falar do nosso país. Do nosso São Tomé e Príncipe.
Porque os meus 50 anos coincidem com a celebração dos 50 anos da independência nacional. E isso obriga-me a uma reflexão.
Ao longo destes cinquenta anos tivemos dois grandes arranques. O primeiro foi a independência. O segundo foi a democracia. Nenhum deles produziu plenamente o país que desejávamos construir.
Mas ambos deixaram conquistas que não devemos ignorar: a independência deu-nos soberania. A democracia deu-nos liberdade. E ambas abriram possibilidades que gerações anteriores nunca tiveram.
Mas também é verdade que muitos dos problemas fundamentais do país permanecem por resolver: Continuamos a discutir questões que já deviam estar ultrapassadas. Continuamos a enfrentar dificuldades básicas que condicionam a vida das pessoas. Continuamos demasiadas vezes presos a ciclos que se repetem.
E talvez o mais preocupante seja que fomos perdendo, pouco a pouco, uma parte da confiança colectiva que sustenta qualquer sociedade. O interesse colectivo foi cedendo terreno ao interesse particular. A responsabilidade pública foi desaparecendo. A política foi-se afastando daquilo que deveria ser: um instrumento ao serviço do bem comum.
Não digo isto para acusar ninguém. Nem para procurar culpados.
Digo-o porque esta é a realidade que muitos de nós observamos e sentimos. E porque acredito que compreender os problemas é condição necessária para os resolver.
Há um ano, quando completei 49 anos, ainda profundamente marcado pela emoção com a partida da minha mãe, tomei uma decisão: decidi dizer publicamente que queria servir o meu país na vida política. Nessa altura, partilhei uma reflexão a que chamei Nova Democracia.
Na altura, era sobretudo uma direcção. Uma convicção. Uma proposta de reflexão.
Desde então, essa ideia foi posta à prova. Foi discutida. Foi criticada. Foi aprofundada. Foi amadurecida. Ouvi muitas pessoas. Concordei com algumas. Discordei de outras. Aprendi com todas.
E cheguei a uma conclusão simples: é o momento de dar o passo seguinte.
Hoje não vos falo apenas de uma ideia. Falo-vos de uma iniciativa concreta.
Uma iniciativa de cidadãos independentes que pretende participar de forma responsável, organizada e transparente na vida pública do país. Uma iniciativa que chamámos Cidadãos Nova Democracia (Cidadão ND).
Os Cidadãos ND assentam numa ideia simples: o país precisa de mais participação cívica, mais responsabilidade colectiva e mais espaço para cidadãos independentes contribuírem para as decisões que moldam o nosso futuro.
Não vêm para prometer soluções milagrosas. Não vêm para alimentar ilusões. Não estão contra ninguém.
Vêm porque acreditamos que os cidadãos podem e devem participar mais directamente na construção do futuro colectivo. Acreditamos que a vida do país não pertence apenas aos partidos políticos.
Pertence aos cidadãos. E porque pertence aos cidadãos, estes têm o direito — e também a possibilidade — de participar activamente na definição do rumo do país.
Foi nesse espírito que submeti formalmente ao Tribunal Constitucional um pedido de esclarecimento sobre os procedimentos legalmente aplicáveis à participação eleitoral de grupos de cidadãos.
Não porque queiramos atalhos. Mas precisamente porque queremos fazer as coisas com seriedade, respeito pela lei e responsabilidade institucional.
Nas próximas semanas continuaremos a dialogar com cidadãos, a esclarecer o propósito desta iniciativa e a construir, de forma aberta e participada, os passos seguintes deste caminho.
Não sabemos ainda onde este caminho nos levará. Nem temos a pretensão de possuir todas as respostas. Mas sabemos que o país precisa de voltar a acreditar que é possível construir. Que é possível participar. Que é possível fazer melhor.
Ao longo deste último ano compreendi uma coisa importante.
A mudança de que precisamos não começa apenas nas instituições. Começa também na forma como nós, os cidadãos, olhamos para o país e para os outros.
Começa na capacidade de ouvir, de cooperar e de colocar parte importante do nosso tempo, da nossa energia e da nossa experiência ao serviço de uma causa maior do que nós próprios.
Hoje não vos peço nada. Não vos peço adesão. Não vos peço confiança. Não vos peço que concordem comigo. Quero apenas partilhar convosco uma decisão.
A decisão de colocar uma parte da minha vida ao serviço do país que me formou.
Faço-o com humildade. Faço-o com gratidão. Faço-o com esperança.
E faço-o porque continuo a acreditar que São Tomé e Príncipe é maior do que os seus problemas.
Os meus pais e os pais da minha geração tinham aproximadamente a minha idade quando participaram nas grandes escolhas que moldaram a democracia santomense.
Hoje somos nós os adultos. Somos nós os depositários desta responsabilidade histórica.
E cada um de nós terá de encontrar a sua própria forma de lhe responder.
Esta é a minha. Aos 50 anos. Filho da independência. Filho do serviço público. Filho desta terra. Quero servir o meu país.
Porque São Tomé e Príncipe merece mais do que sobreviver. Merece voltar a acreditar em si próprio.
E talvez este seja apenas um pequeno passo. Mas é um passo que decidi dar.
Um passo que não ignora os riscos. Um passo que muitos consideram que não vai dar em nada.
Há quem me diga que devia preocupar-me apenas com a minha vida, com a minha carreira, com as minhas filhas e com o meu bem-estar pessoal.
Compreendo essa preocupação.
Mas pergunto-me: desde quando se constrói um país pensando apenas na vida individual de cada um?
Desde quando uma comunidade avança se todos escolherem ficar apenas dentro dos limites do seu interesse privado?
Nenhuma escola pública existe porque alguém pensou apenas nos seus próprios filhos.
Nenhum hospital existe porque alguém decidiu cuidar apenas da sua própria família.
Nenhum parque, nenhuma estrada, nenhuma instituição que serve a todos nasceu da lógica do cada um por si.
Tudo aquilo que recebemos das gerações anteriores foi construído porque houve pessoas dispostas a dedicar parte do seu tempo, da sua energia e da sua vida a algo maior do que elas próprias.
Foi assim que se construiu o serviço público que me formou. Foi assim que se construiu a independência. Foi assim que se construiu a democracia.
E será assim que construiremos o futuro: com serenidade e com convicção.
Mas com a firme rejeição da ideia de que não somos capazes de fazer coisas juntos, de que estamos condenados, por natureza, ao individualismo ou à desconfiança mútua.
Não aceito essa visão de nós próprios.
Não aceito a ideia de um povo incapaz de trabalhar em equipa ou condenado a jogar contra si mesmo.
A nossa história demonstra exactamente o contrário.
Quando queremos, quando precisamos, quando somos chamados pelas circunstâncias, sabemos unir-nos.
Sabemos cooperar. Sabemos superar dificuldades.
Somos melhores do que aquilo que, por vezes, nos habituámos a acreditar sobre nós próprios.
Estou profundamente investido nessa convicção e tenho esperança num novo renascer para todos.
Mas essa esperança não é fruto de um sonho.
É fruto de uma necessidade. É uma condição de sobrevivência.
Sobretudo em tempos atribulados como aqueles que vivemos.
Vamos em frente, São Tomé e Príncipe.
Eu chamo-me Luisélio Salvaterra Pinto, sou da Trindade. E sou orgulhosamente santomense. Não sei ser de outra forma.
