Sociedade

O Programa UCMI em São Tomé e Príncipe: Uma parceria multissetorial rumo à eliminação de Paludismo

O paludismo continua a ser uma das principais causas de doença e morte em África, afetando particularmente crianças com menos de cinco anos. Apesar de reduções significativas na mortalidade por paludismo desde o início dos anos 2000, o progresso no combate à doença tem estagnado nos últimos anos, e os casos de óbito voltaram a aumentar. São Tomé e Príncipe (STP), onde a Iniciativa da Universidade de Califórnia contra Malária (UCMI)atua desde 2018, não é exceção a essa tendência.

Embora o país tenha registado avanços importantes na redução da incidência do paludismo, dados recentes evidenciam a necessidade de uma ação renovada. De acordo com o World Malaria Report 2025 (Relatório Mundial sobre Paludismo 2025) da Organização Mundial de Saúde (OMS) , São Tomé e Príncipe registou aumentos de 70% ou mais tanto na incidência de casos como na mortalidade por malária desde 2015. No mesmo período, o número de casos de malária no país mais do que triplicou.

Membros da equipa da UCMI a recolher larvas selvagens de Anopheles coluzzii em São Tomé e Príncipe. Fotografia: UCMI

A Iniciativa Contra a Malária da Universidade da California (UCMI) é uma iniciativa colaborativa de investigação sem fins lucrativos, dedicada a contribuir para a eliminação do paludismo. Estamos a trabalhar no desenvolvimento de novas tecnologias genéticas (new genetic technologies) para modificar mosquitos transmissores do paludismo, de modo que deixem de ser capazes de transmitir o parasita da doença. Em articulação com as ferramentas já existentes, esta abordagem poderá representar um método sustentável e custo-efetivo para reduzir a transmissão de paludismo.

Desenvolvimento de capacidades locais para a eliminação da malária

Desde 2019, a UCMI tem vindo a trabalhar em São Tomé e Príncipe (STP) para avaliar a viabilidade de utilizar a tecnologia em desenvolvimento como uma ferramenta futura no combate ao paludismo e no apoio à tomada de decisões informadas por parte do governo. O programa integra investigação em genética de vetores e ecoepidemiologia, capacitação institucional e engajamento comunitário.

Para implementar o seu programa, a UCMI estabeleceu parcerias com o Centro Nacional de Endemias (CNE) de São Tomé e Príncipe, a Universidade de São Tomé e Príncipe (USTP), e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) de Lisboa, Portugal. O nosso trabalho permanece na fase de investigação, e até ao momento não foram libertados nem estão presentes em São Tomé e Príncipe quaisquer mosquitos geneticamente modificados.

Janete Marbel, gestora do Laboratório de Biologia Molecular da UCMI na Universidade de São Tomé e Príncipe. Fotografia: UCMI

Em janeiro de 2023, estabelecemos um laboratório de biologia molecular no campus da USTP com um duplo objetivo: apoiar as necessidades de investigação molecular do programa em São Tomé e Príncipe e reforçar a capacidade nacional em saúde pública e investigação neste país insular.

Estudantes e investigadores da USTP trabalham lado a lado com os nossos cientistas, contribuindo para o avanço do conhecimento em biologia molecular e tecnologias genéticas. Este ambiente colaborativo não só fortalece as capacidades locais, como também assegura que as nossas tecnologias são codesenvolvidas em parceria com instituições de São Tomé e Príncipe.

Inauguração do laboratório na Universidade de São Tomé e Príncipe (USTP). Fotografia: UCMI

Adicionalmente, inaugurámos formalmente um insectário reabilitado (newly renovated insectary) no Centro Nacional de Endemias (CNE) de São Tomé e Príncipe, onde o (National Malaria Elimination Programme) Programa Nacional de Eliminação de Paludismo (PNEP) desenvolve as suas atividades de investigação. A infraestrutura reforça a capacidade nacional ao permitir o estabelecimento de colónias locais de mosquitos e ao apoiar investigações essenciais para a estratégia de eliminação da malária no país, tais como bioensaios de resistência a inseticidas e estudos comportamentais. Um espaço de escritório para a equipa da UCMI encontra-se igualmente instalado no CNE, promovendo uma interação próxima com a equipa do PNEP, com a qual são continuamente realizadas atividades de campo e de laboratório. No seu conjunto, estas duas infraestruturas de investigação têm constituído um pilar fundamental, não apenas para a investigação, mas também para as atividades de formação que vêm sendo implementadas.

Membros da equipa da UCMI a realizar trabalho laboratorial no Laboratório de Biologia Molecular da UCMI na Universidade de São Tomé e Príncipe. Fotografia: UCMI

A formação local tem sido um componente central das nossas atividades em São Tomé e Príncipe, com o objetivo de desenvolver capacidades e competências nacionais nas áreas de entomologia médica e parasitologia. Estudantes da USTP, bem como técnicos do Ministério da Saúde e profissionais de saúde pública (CNE, Hospital Central, Delegados de Saúde), têm participado nos nossos programas de formação, implementados através de abordagens tanto de campo como laboratoriais. Cursos de curta duração e workshops têm sido fundamentais para abordar temas específicos, incluindo a recolha de mosquitos no terreno, bioensaios de resistência a inseticidas e métodos moleculares.

Adicionalmente, o laboratório de biologia molecular da USTP tem proporcionado formação prática em técnicas moleculares para técnicos de saúde. A colaboração com a USTP inclui também a mentoria de estudantes de ciências biológicas nos seus projetos de tese sob supervisão da UCMI, bem como contributos para o ensino de licenciatura nas áreas de bioinformática e ecologia. No seu conjunto, estes esforços estão a contribuir para capacitar a próxima geração de cientistas e líderes de saúde pública são-tomenses.

Uma iniciativa colaborativa global para a troca de conhecimento e expertise

A UCMI é uma iniciativa colaborativa que reúne investigadores de quatro campus da University of California (Irvine, Davis, San Diego e Berkeley) e da Johns Hopkins University, todos a trabalhar em prol do objetivo comum de eliminar o paludismo. No seio desta rede, é conduzida uma vasta investigação laboratorial para conceber e avaliar abordagens genéticas para o controlo de paludismo. Estudos complementares incidem sobre a biologia e o comportamento do Anopheles coluzzii — o principal vetor de paludismo em São Tomé e Príncipe — bem como sobre as suas interações ecológicas com outras espécies de mosquitos e com o ambiente em geral.

O programa mantém ainda colaborações académicas internacionais ativas que reforçam e ampliam o seu escopo científico. A UCMI financiou quatro bolsas de estudo integrais para nacionais de São Tomé e Príncipe no IHMT. Os mestres formados desenvolveram dissertações sobre a bioecologia dos mosquitos e a transmissão de paludismo no país e regressaram posteriormente para assumir funções-chave a nível nacional, incluindo chefe de entomologia do PNEP e consultor da estratégia nacional de controlo de paludismo. A colaboração com o IHMT inclui igualmente atividades de formação em São Tomé e Príncipe, trabalho de campo conjunto e estudos de competência vetorial conduzidos no insetário de alta segurança IHMT-VIASEF, em Lisboa. Estas parcerias permitem a conjugação de competências complementares, a partilha de metodologias e a coordenação de esforços de investigação entre instituições com vista à eliminação do paludismo.

Envolvimento comunitário liderado localmente e parcerias nacionais

Um envolvimento significativo das partes interessadas e uma comunicação transparente estão no centro da nossa investigação. Estes princípios asseguram que a nossa abordagem e as nossas atividades científicas estejam alinhadas com as necessidades e preocupações das comunidades e dos atores envolvidos ou impactados pelo nosso trabalho.

A nossa equipa nacional de engajamento é composta por Agentes de Saúde Comunitária e professores-agentes, distribuídos por todos os distritos de São Tomé e Príncipe, sob a supervisão dos Pontos Focais Nacionais da Malária e dos Delegados de Saúde. Estas equipas realizam atividades de sensibilização e envolvimento tanto nas comunidades como nas escolas.

Equipa de engajamento da UCMI em São Tomé e Príncipe. Fotografia: UCMI

Adotámos um modelo baseado em relações, o que significa que as nossas estratégias e atividades de engajamento são definidas pela equipa local, garantindo que os valores e perspetivas das comunidades sejam integrados e priorizados. Este modelo coloca os membros da comunidade no centro dos processos de tomada de decisão, em vez de os tratar como recetores passivos de estratégias, métodos e quadros previamente definidos.

Realizamos uma ampla gama de atividades com comunidades e partes interessadas, incluindo campanhas de sensibilização porta a porta, encontros com líderes e membros comunitários, debates comunitários sobre a tecnologia, workshops, reuniões com stakeholders (as partes envolvidas) e ações de limpeza comunitária. Todos os materiais de sensibilização utilizados são produzidos pela equipa local.

Estudantes de São Tomé e Príncipe a participar nas atividades de engajamento da UCMI. Fotografia: UCMI

Colaboramos também ativamente e apoiamos as atividades de sensibilização planeadas e implementadas pelo Programa Nacional de Eliminação de Paludismo (PNEP), com o objetivo de ampliar o alcance do engajamento comunitário.

Paralelamente, trabalhamos com parceiros locais no âmbito dos nossos estudos científicos realizados em São Tomé e Príncipe. Isto inclui coautoria com investigadores da USTP, bem como parcerias com organizações não governamentais como a BirdLife, em estudos de análise molecular destinados ao inventário de espécies de aves no país. A UCMI tem igualmente colaborado com a BirdLife  e a Fundação Príncipe  em estudos que visam compreender melhor os predadores naturais do vetor de paludismo. Estas colaborações ampliam o alcance científico do programa e permitem aprofundar a compreensão das ligações entre a investigação em saúde pública e a biodiversidade.

O paludismo continua a representar um desafio crescente em São Tomé e Príncipe, evidenciando a necessidade de reforçar os esforços de eliminação. O nosso programa de investigação dá prioridade ao desenvolvimento de capacidades nacionais, através de formação, infraestruturas e apoio académico. Este trabalho é reforçado por colaborações internacionais e por um engajamento contínuo com as comunidades e as partes interessadas a nível nacional, sustentando um caminho de longo prazo, enraizado localmente rumo à eliminação de paludismo.


Lodney Nazaré and João Pinto

Lodney Nazaré, University of California Malaria Initiative
João Pinto, Global Health and Tropical Medicine (GHTM), LA-REAL, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade NOVA de Lisboa

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