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20 USD, GEORGE FLOYD e os 8m46s trágicos

Habitualmente não faço reflexões sobre temas internacionais. Mas, a morte do George Floyd ocorrida no dia 25 de maio do ano corrente nos Estados Unidos da América, não pode deixar ninguém indiferente.

Esta trilogia dramática [ 20 USD, George Floyd e os 8 m e 46 s trágicos], deu visibilidade a morte de muitos negros que ao longo do tempo, sucumbiram  vítimas de brutalidade policial de contornos raciais.

George Floyd, é um negro americano, segurança de profissão, que foi acusado por um comerciante branco de tentar supostamente fazer compras com uma nota falsa de 20 Dólares. Na sequência disso, o comerciante chamou a polícia e o que aconteceu a seguir foi horrível.

Esta morte selvática foi protagonizada por um polícia americano chamado Derek Chauvin que durante 8 minutos e 46 segundos causou sofrimento e a morte por asfixia do segurança negro, apesar do seu grito de desespero dizendo que não estava a conseguir respirar. Foi claramente um ato deliberado de matar, até porque o mesmo já estava imobilizado no chão e também porque os outros três colegas policias assistiam pávidos e serenos esse massacre incompreensível, sem fazerem nada.

Esta morte causou a indignação dos antirracista americanos, brancos e negros, que iniciaram uma onda de manifestações de protestos. Alguns manifestantes menos pacíficos atearam fogos à viaturas, edifícios públicos e privados, que quase incendiava a América, apesar do recolher obrigatório que foi imposto.

Esses tumultos tiveram também rastilhos em muitos Países europeus e em quase todo mundo, numa manifestação de solidariedade para com esse movimento espontâneo antirracista.

Mas o que complicou a situação foi a atitude do Presidente dos Estados Unidos de América, Donald Trump que em vez de acalmar os ânimos, preferiu enveredar por um discurso de tom ameaçador aos manifestantes furiosos. Como consequência, os protestos aumentaram com maior intensidade em quase todos os Estados americanos.

Todavia, o polícia que causou a morte ao George Floyd, foi acusado pelo Procurador-Geral de homicídio em 2º grau, enquanto que os seus três colegas, acusados de cumplicidade.

Alguns dirigentes dos Países europeus como, Reino Unido e França, por exemplo, condenaram esse ato bárbaro e as suas populações promoveram manifestações antirracistas.

Volvidos 20 dias apos o acontecimento, os ânimos ainda não se acalmaram. Ainda continuam manifestações esporádicas de repúdio em alguns Estados americanos. Por outro lado, foi visível o desentendimento entre o Presidente e alguns líderes estaduais que não tem ajudado muito ao apaziguamento dos ânimos. Alguns analistas defendem que a gestão desta crise por parte de Donald Trump tem sido desastrosa. O presidente tem sido alvo também de muitas críticas de personalidades importantes americanas, com destaque para o ex-Presidente americano Barack Obama assim como o candidato a presidência por parte do Partido Democrata, Joe Bidem.

Na verdade, esses acontecimentos surgiram numa altura em que decorre a pré-campanha eleitoral e a atitude do Presidente Trump tem sido sobretudo para agradar as hostes do conservadorismo republicano, sua base eleitoral, cuja posição é normalmente a marginalização dos afro-americanos e outras minorias étnicas.

Numa tentativa para conseguir alguns votos dos afro-americanos, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um negro foi nomeado Comandante de um dos ramos das suas forças armadas. A nomeação já foi aprovada pelo Senado, sem nenhum voto contra.

Trata-se do general Charles Brown que foi até ultimamente comandante da força aérea no Pacífico onde comandava 46.000 militares.

Lamentavelmente, 52 anos após o assassinato de Martin Luther King, persiste ainda o racismo nos Estados Unidos. Bernice King, filha do ativista americano, numa entrevista a RFI, citando as estatísticas publicadas, dizia mesmo que houve até um aumento da brutalidade policial e do racismo contra os afrodescendentes nos Estados Unidos durante os últimos tempos. Esse fenómeno tem acontecido também nos países europeus.

Este movimento contra a brutalidade policial e o racismo, para além de inspirar uma mudança profunda nas sociedades que praticam esses atos de forma sistémica, fez ressuscitar o movimento esclavagista que estava um pouco adormecido, apesar de haver situações ainda gritantes que se verificam um pouco por todo o mundo. É assim que tem havido em alguns países o derrube de estátuas e bustos que simbolizavam os maiores traficantes de escravos da história.

Como é natural, não tem sido pacífico a retirada dessas estátuas, tendo algumas pessoas fazendo a defesa de que esses derrubes significam uma tentativa de apagar a história. Só que essas mesmas pessoas esqueceram-se de que houve momentos idênticos nos últimos tempos, de mortes e derrube de estátuas de individualidades, mas que naquela altura não houve assim tanta indignação que esta a acontecer agora.

O facto das estátuas dos esclavagistas, dos invasores, dos ditadores, dos colonialistas, dos nazistas e outros malfeitores da história não estarem erguidas nos locais públicos, não significa que os seus nomes serão retirados da história. Deverão ficar sim, pelos maus motivos. Portanto, essa atitude hipócrita de ver o mundo em função apenas dos interesses dos poderosos, também deve passar a história.

São Tomé, 13 de junho de 2020

Fernando Simão

    6 comentários

6 comentários

  1. Ralph

    15 de Junho de 2020 as 3:22

    Não há nenhuma dúvida de que o que aconteceu ao George Floyd foi uma desgraça, um facto reconhecido em volta do mundo pelas manifestações que se tem testemunhado desde a ocorrência. E não são apenas os EUA que têm um problema. O que será interessante é como os governos reagirão. Esperemos que veremos mudanças significativas realizarem-se. Embora o derrube de estátuas e bustos não possa apagar a história, há um argumento forte que os perpetradores dos atos mais graves de racismo e escravidão não devem ser homonegeiados nos lugares públicos.

  2. SEMPRE AMIGOC

    15 de Junho de 2020 as 10:36

    O derrube das estátuas dos colonialistas dos sítios públicos em SÃO TOMÉ E PRINCIPE na “primeira República” foi alvo de críticas sadosistas de alguns comterraneos santomenses.Derrubadas,sim,mas conservadas no lugar apropriado,no museu nacional, sem negar a HISTÓRIA,salvaguardando no entanto com dignidade a HISTÓRIA nacional.

  3. Fernando Afonso

    15 de Junho de 2020 as 10:53

    Senhor Simão
    Já agora, gostaria de conhecer e ver os seus comentários em relação a venda do espaço público defronte a ex Praia Brasil pelo seu amigo e chefe Posser da Costa. Qual é a sua opinião em relação a venda para o proveito individual de um espaço público que é uma zona de lazer para todos. Escreva e diga-me se concordas que cada um por influência que tem na justiça e no Governo pode vender para o seu proveito pessoal espaços e jardins públicos.
    Já agora, gostaria de ter também a opinião do Dr. Rafael Branco sobre esta venda do espaço público pelo senhor Posser da Costa. Gostaria de obter também a opinião dos ex Presidentes da República, Miguel Trovoada, Pinto da Costa, e Fradique de Menezes.
    Gostaria de ter a opinião do Primeiro Ministro que disse que está a lutar contra a corrupção em S.Tomé e Príncipe. Minha gente. Não podemos manter calados e aceitar este tipo de corrupção. Quando alguém vende um terreno que não é seu ou qualquer outra propriedade que não é sua para um terceiro, esta pessoa deve ser considerado como LADRÃO.
    O lugar de LADRÃO é a cadeia. Quero ver qual vai ser a reacção do Ministério Público, dos Tribunais em relação a este crime público.
    Ele vendeu o espaço e comprou e comprou a sua mansão em Portugal. Isto pode ser? Neste caso cada um de nós pode vender o espaço público, jardim para comprarmos as nossas casas e vivermos a nossa vida.
    Peço ao senhor Simão que critique esta situação e crie uma equipa para fazer devolver este espaço ao público de novo
    Bem haja S.Tomé e Príncipe
    Abaixo a corrupção
    Abaixo a venda de espaço público

    • Sotavento

      16 de Junho de 2020 as 8:43

      Caro
      Fernando Afonso

      Gostaria que me refescase a memoria.Onde é a ex praia Brasil?
      Obrigado

  4. João Ramos

    16 de Junho de 2020 as 8:34

    Meus caros Compatriotas Santomenses
    Normalmente as empresas petrolíferas costumam a ser muito responsável em relação ao meio ambiente e a protecção da natureza. Omo é possível que a SONANGOL uma empresa de renome internacional, compra um espaço público nas mão de um corrupto santomense, o senhor Posser da Costa e está a cercar este terreno para o proveito próprio. Este é um espaço público, isto é um espaço de lazer para os santomenses. Como é possível que a SONANGOL sabendo isso, consegue pagar à um corrupto santomense para transformá-lo numa propriedade privada.
    Seria bom que a SONANGOL revesse a sua posição
    Protejam o Ambiente e protejam o Espaço Público, que S.Tomé Poderoso agradece

  5. Alberto

    16 de Junho de 2020 as 10:00

    Pois foi uma VERGONHA, principalmente para os PALOP, que a tragédia que vitimou George Floyd tenha gerado protestos no mundo inteiro. Em África, de onde partiram seus ancestrais, apenas se registraram visto manifestações em poucos países. George Floyd pode ter sido um parente distante de cada um de nós. A forma como foi pisado, sufocado, simboliza o que acontece com cada um de nós e com o nosso continente ao longo de séculos. E, com o nosso silêncio, uma vez mais traímos a memória dos nossos ancestrais. Deveríamos ter vergonha de ver milhares de europeus, eurodescendentes e asiáticos nas ruas em defesa de uma causa que nos toca em particular. Uma nota de reconhecimento para a UNITA em Angola que, ao menos, soltou uma nota de condenação ao acontecido.

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