Aproximando-se o período eleitoral das eleições (presidencial, legislativa, regional e autárquica) a serem realizadas nos próximos meses deste ano, a disputa política tende a se inflamar. Tudo normal se o debate político fosse feito com urbanidade e dentro da normalidade democrática.
Ao contrário disso, verifica-se uma violência verbal sem precedentes, através das redes socias e outros meios de comunicação. O mais grave é que essa violência tem origem nos políticos ao mais alto nível, aqueles que deviam transmitir bons exemplos a sociedade. Quero me referir as últimas declarações inflamadas do líder do ADI, dirigidas aos seus companheiros do partido, incluído o Presidente da República, Carlos Vila Nova, o mais Alto Magistrado da Nação, bem como nos debates ocorridos nas últimas sessões da Assembleia Nacional.
Não há dúvidas que a causa principal desse agudizar da situação política no Pais é a crise que se instalou no seio do ADI, após a demissão, na minha opinião, por justa causa, do ex-Primeiro Ministro Patrice Trovoada. Essa situação e outros atos subsequentes tem sido a causa da convulsão política protagonizada de forma premeditada no Parlamento, pelos deputados apoiantes do Patrice Trovoada, claramente com o propósito de desestabilizar o Pais.
O mais grave é que o ADI e o seu braço direito, o Partido MCI – PUN transformaram o Parlamento no seu principal campo de batalha, prejudicando o seu normal funcionamento.
Tudo isto é consequência da ausência de democracia no seio do ADI, devido uma longa liderança, ainda por cima, autoritária, ditatorial e única que decide tudo dentro do Partido, comportando-se como um autêntico dono de tudo. Outra situação incompreensível é a ausência prolongada do Líder do Partido no Pais, sem quaisquer explicações plausíveis, dando ordens de forma indigna aos seus seguidores através de vídeos conferências. O ADI e outros partidos políticos deviam colocar nos seus estatutos a proibição desse procedimento anormal e incompreensível. Acho que, quem quer dirigir um partido político em São Tomé e Príncipe tem que residir no Pais, junto do povo e partilhar com ele as suas aspirações, ansiedades e dificuldades.
Ora, como sempre disse, um partido político que tem um dono e financiador, não tem pernas para andar. Os são-tomenses tem um grande problema de não aprender com os erros, porque tivemos exemplos no passado, de grandes partidos políticos que se extinguiram ou tornaram-se insignificantes no ambiente político são-tomense por esse motivo, ainda assim não aprendemos. Alias, isto é claramente falta da democracia interna no seio de um partido político que se diz democrático, pelo que, esse comportamento não deve ser permitido nem tolerado pelos tribunais. A situação no ADI é claramente resultado da falta desses prossupostos básicos, ou se existem, não são observados.
A correta decisão do Tribunal Constitucional através do Acórdão 12/2026, na sequência de uma queixa subscrita por um grupo de militantes do próprio ADI, vai nesse sentido. Essa situação reflete claramente a falta de democracia interna que já referimos. O ADI já nos habituou a esse comportamento que muitas vezes ultrapassa o âmbito do próprio partido e torna-se o seu modus operandi, quando o mesmo está a governar o Pais.
O que se tem assistido no Parlamento nesses últimos tempos, é vergonhoso e inadmissível. Estão a banalizar muito uma Instituição importante de um Pais como o Parlamento e transmitir mau exemplo a sociedade. Com tantas ameaças ao adversário, linguagens inflamadas e insultuosas, mau comportamento na plenária sem o mínimo respeito pelos princípios educativos, se nada for feito poderá escambar-se para uma violência física. Por isso, sou também da opinião que se deve rever as legislações para que, ainda antes das próximas eleições, se possa eleger deputados com qualidades dignas dessa nobre função, para melhor servir o Pais.
As próximas eleições vão determinar muito o nosso futuro socioeconómico, para o bem ou para o mal. Tudo vai depender do que os são-tomenses quiserem e o tipo de governantes que vamos eleger.
Os são-tomenses já não precisam de ´´banhos´´, cuja origem do financiamento não é questionada pelas autoridades competentes, porque os tribunais estão todos capturados pelo poder político. Para alem de ser um ato indigno, todo o mundo já deu conta que essa compra de consciência é um expediente apenas para enganar e controlar os eleitores. Basta só constatar as promessas que foram feitas ao longo desses anos da nossa vivencia democrática durante as campanhas eleitorais e a percentagem das realizações no fim dos mandatos. Por isso é que o Pais se encontra nesse estado deplorável. Em contrapartida, constata-se cada vez mais aos olhos de todo mundo, o aumento de atos de corrupção que tem prejudicado o desenvolvimento socioeconómico e a credibilidade do Pais.
As leis que obrigam a apresentação das declarações dos bens dos políticos e individualidades, quando ascendem aos altos cargos na Administração Publica e a apresentação das contas das campanhas dos candidatos que concorrem para as diversas eleições, tem prazos previstos na lei e, para tanto, devem ser de cumprimento obrigatório. Estranha-me e não entendo, por que razão se faz uma Lei, se calhar apenas para ficar bonito no papel e, ninguém vela pelo seu cabal cumprimento e seu efeito prático? Só pode ser cumplicidade entre os políticos e o conformismo dos cidadãos.
Digo sempre que São Tomé e Príncipe, apesar da sua pequenez territorial e populacional, tem tudo para dar certo. Vamos parar de continuar apenas a culpar os políticos e governantes. Em vez disso, devemos exercer a nossa cidadania, cada um a sua maneira, dentro dos direitos previstos na lei, para exigir o cumprimento das promessas eleitorais durante os mandatos dos partidos políticos que vencerem as eleições, bem como o cumprimento dos preceitos da Constituição e das leis de uma maneira geral.
Com as próximas eleições é a oportunidade para sairmos do marasmo em que o Pais se encontra e inaugurarmos uma nova era para São Tomé e Príncipe.
Cá estarei, como sempre, para continuar a dar as minhas modestas opiniões sobre o Pais e os momentos decisivos que se avizinham.
Bem-haja!
São Tomé, 14 de abril de 2026
Fernando Simão
