Análise

Um minuto para o Interior

A riqueza só existe onde há muita gente, porque o dinheiro só tem valor se circular de mão em mão. Este é o mote para as próximas linhas, em que reactivamos um perigoso problema que nasce das políticas de desenvolvimento económico, até agora, aplicadas: grande desequilíbrio socioeconómico entre o centro e o interior.

Para aqui, são chamados dois relevantes aspectos: crescente êxodo rural e a não adopção de medidas de inovação de modo de vida das pessoas. Porque se tornou quase impossível viver nas roças, as pessoas têm se dirigido em massa para o centro. O dinheiro está a circular na capital. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), em 2003, 54,6% do volume de negócios total eram gerados por empresas localizadas em Água Grande. A olho nu se percebe que este número aumentou. De mais a mais, todo o progresso registado pela Administração Pública está localizado no centro. Este panorama é seriamente preocupante se adicionarmos a crescente taxa de natalidade.

Contudo, não estamos perante uma fatalidade, este problema é de fácil resolução, se tivermos a noção de que, primeiramente, existe aqui um sério problema – a desproporcionalidade de acesso ao rendimento agudiza a pobreza -, segundo, a nossa pequenez geográfica representa uma vantagem e, terceiro, é preciso pensarmos fora da “caixa”. Por exemplo, termos o Guiché Único apenas em Água Grande é pensar dentro da “caixa”. Sair da “caixa” é pensar na população e nas potencialidades de Mé-Zóchi e construir, aí, uma delegação do Guiché Único.

As câmaras distritais têm uma vocação natural para a execução de políticas de desenvolvimento local. O Fundo Monetário Internacional é perfeitamente dispensável, pelo menos, em termos de ideias e iniciativas, porque qualquer são-tomense consegue naturalmente perceber que os cursos profissionais de gestão agrícola ou de electricidade se deveriam realizar, por exemplo, em Cantagalo ou Caué.

Micro e pequenas empresas

A dinamização da economia local implica dois conjuntos de medida: inovar o processo produtivo e criar canais de relações comerciais. Inevitavelmente, mais pessoas estariam empregadas e mais dinheiro a circular no interior, o que baixaria a tensão no centro e geraria maior equilíbrio de oportunidades. Pensemos no incentivo que teriam dez jovens criativos, residentes em Diogo Vaz ou em Santana, para criar uma empresa de apoio aos visitantes (guias turísticos).

Podemos mesmo ser ambiciosos e empurrar as médias e grandes empresas para o interior, nomeadamente, através de incentivos fiscais. Uma vez mais, pensemos fora da “caixa”. As empresas de construção civil tendem a contratar trabalhadores sem grande nível de escolaridade, então, se calhar, faria todo sentido incentivar estas empresas a instalarem-se no interior, onde, por sinal, a taxa de abandono escolar é alta. As pessoas que não completaram o 12.º de escolaridade têm o direito de acesso ao emprego sem grandes dificuldades. Aliás, a formação durante o trabalho pode constituir uma obrigação das empresas.

O leitor pode não concordar com a opinião expressa, mas não pode duvidar do esforço que representa para “San Quinina” e os seus cinco filhos, de Santa Catarina, a ida diária à capital. Porque todo o dinheiro está na capital.

Ludmilo Tiny

Junho de 2012.

    11 comentários

11 comentários

  1. Fruta pão

    12 de Junho de 2012 as 10:20

    Puramente a verdade!!

  2. malapetema

    12 de Junho de 2012 as 10:42

    Muito bom…

  3. dPires

    12 de Junho de 2012 as 11:08

    Soubeste diminuir o espírito contraditório dos leitores concluindo com o exemplo de San Quinina e seus cinco filhos. Boa estratégia escrita. Pois sabes que nem todos os teus pontos de vista são viáveis, e mesmo que fossem, há sempre contrariedades, mas STP precisas mesmo de desenlaçar de Á.Grande se pretende desenvolver economicamente. Bom ponto de vista.

    Por acaso, muitos são aqueles que, muito gasta, deslocando para a nossa capital tentando entrar na circulação monetária que só acontece naquele pequeno pedaço de terra. Mas há muitos outros locais onde a dobra poderia circular, como é o caso de Mé-Zóchi. O pior é que se isso não melhorar, qualquer dia STP se resumirá em Água-Grande. Se é que ainda não…

    Acho que dos artigos de opiniões e reflexões que já li no Tela Non, alguns dos seriam páginas importantes no manual de instrução de alguns dirigentes do país, no que concerne a gestão prática dos recursos que temos.

    CONTINUE, MEU CARO JOVEM, LUDMILO TINY.

  4. dPires

    12 de Junho de 2012 as 11:11

    3º PARÁGRAFO … quis dizer alguns dos teus (artigos. Retifico.

  5. pamau

    12 de Junho de 2012 as 11:50

    que bom ter alguem que não esqueceu do meio rural e das pessoas que vivem lá.

  6. Vagi Ngola

    12 de Junho de 2012 as 13:30

    Estás de parabéns, o problema é os nossos governantes já não sonha só vivem do pesadelo. É preciso ter um olhar ptofundo e um espírito patriótico. O que funciona neste país é EGOÍSMO.

  7. Vagi Ngola

    12 de Junho de 2012 as 13:31

    quereria dizer (profundo)

  8. ôssobó1

    12 de Junho de 2012 as 16:05

    Certamente ao ler este texto, fiquei com impressão que embora pouca, mas importantes ideias do Milo. Julgo que essas ideias vêm por na sua total amplitude que leve leve vamos tendo pessoas com ideias positivas.

    Bem HAJA.VIVA sÃO tOMÉ

  9. Carlos Ceita

    12 de Junho de 2012 as 17:56

    Tudo o que este senhor articulista diz faz todo sentido e seria excelente que houvesse um consenso interpartidário a volta da questão ambiental e ordenamento do território. Um plano e estratégia ao médio e longo prazo.
    O contínuo atentado ao ambiente pode ter consequências no futuro muito próximo. O que aconteceu na Madeira e no Haiti devia ser indicador de alerta.
    Infelizmente quando olhamos para o panorama interpartidário ficamos
    sem saber que ideias e estratégias têm para o país a curto médio e longo prazo. Foi eleito um senhor para o histórico e grande partido nacional (MLSTP) e que fiquei a saber que o eleito é Engenheiro Agrónomo.
    E mais uma vez se fosse jornalista ocorria-me perguntar a este senhor já que é formado em agronomia, que planos tem ou pretende ter para um sector como agricultura caso venha a ser primeiro Ministro de São Tomé e Príncipe.
    É ou não viável a agricultura saotomense?
    Porque razão este sector não constitui uma das prioridades para criar riqueza para o país e gerar postos de trabalho e fixar pessoas no campo.
    Porque falharam as politicas viradas para este sector durante muito tempo e qual a garantia que nos possa dar que desta vez algo de concreto vai ser feito?
    Teremos um país a produzir mais e a depender menos de importação de bens alimentares?
    Por exemplo será desta vez que o país terá uma indústria de lacticínios e outras industrias agro-alimentares? Ou vamos apostar em projectos megalómanos e elefantes brancos como supermercados e outros investimentos de sustentabilidade duvidosa?

  10. Zeme SOOO

    13 de Junho de 2012 as 9:35

    Viva democracia
    Viva Pinto da Costa
    Viva Osvaldo Vaz futuro Primeiro-Ministro
    Viva STP

  11. carlitos

    13 de Junho de 2012 as 13:32

    Falsa boa ideia tiny

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