Análise

Introdução ao Raciocínio Económico Básico I. Lixos fora do caixote e o caso do “Mano”?

Preciso de perceber onde e como recuperarei o que perdi escrevendo este artigo para o Tela Non, e os leitores precisam de entender o que terá de ser feito para compensarem o tempo dedicado à leitura do mesmo. Perdi o tempo, mas ganharei as críticas ao artigo, é justo.

Então, tenho um incentivo para escrever artigos. “Incentivo” é uma expressão económica e, com ela, demonstrarei que é verdadeiramente fácil fazer maravilhas em São Tomé e Príncipe com tão pouco. Antes de continuar a ler este artigo, pare e pense no seguinte: porquê que o “Mano” abandona a escola e decide vender jaca na praia? Não será certamente porque gosta de ver turistas. No fim, falaremos do “Mano”.

Hoje, brincaremos com o lado curioso das coisas mais sérias que se fazem em São Tomé e Príncipe. Tentaremos descobrir como os incentivos influenciam as coisas que, normalmente e para o senso comum, são um autêntico quebra-cabeças.

Quanto mais programas sobre a educação sexual e reprodutiva a TVS difunde, mais adolescentes engravidam e mais raparigas se prestam a oferecer o “serviço de sexo”; a Câmara Distrital de Água Grande deve estar a questionar-se sobre o facto de colocar caixotes de lixo em pontos estratégicos da cidade e, entretanto, deparar-se com cascas de banana pão e latas de leite no chão; o Comando Policial desdobra-se em notas de imprensa e entrevistas, e a Rádio Nacional bombardeia os ouvintes com spots minuto a minuto, mas o número de acidentes de viação não diminui; a percentagem da produção agrícola mantém-se insistentemente baixa anos depois de vários governos terem distribuído terras aos homens das roças, para além de lhes ter concedido créditos; o juiz condena um indivíduo a uma pena de 20 anos de prisão e o homenzinho sai da instalação prisional para cometer um segundo crime, enfim. A resposta intuitiva das pessoas à última situação seria: “ele está frustrado, o rapaz está dele doido, a cabeça abriu”. Bem, é provável que haja pessoas com problemas psíquicos numa cadeia, mas aplicar imediatamente este raciocínio seria uma atitude muito preconceituosa. A minha resposta seria: ele não tem incentivos para estar cá fora, na liberdade. Ups, quero mesmo falar disso, de incentivos.

É que, em São Tomé e Príncipe, chegamos ao absurdo de ensinar que as pessoas se reduzem às notas e moedas, por isso, valores supremos como a dignidade e a criatividade tornaram-se em “flá von von, clonveçon de bobô”. Está é uma das causas que explicam o facto de as pessoas continuarem a colocar a casca de banana pão no chão, mesmo ao lado dos caixotes. Se o dinheiro explica tudo, então, teremos de começar a pagar as pessoas para colocarem o lixo nos caixotes. Percebamos o absurdo que isto representa.

A magia está nos incentivos. O senhor “Joaquim de Ponta Mina” pensa que não ganha nada aderindo ao apelo da Câmara, pois os caixotes de lixo não são incentivos. Incentivos são o que a instituição oferece se as pessoas colocarem o lixo nos caixotes. Se pensarmos no caso dos doentes, também constataremos que tomar comprimidos não é um incentivo para os doentes. É por isso que as pessoas vão às consultas, ouvem atentamente os médicos, recebem as receitas e colocam-nas nas gavetas.

A redução de preços ou a comparticipação na compra dos medicamentos já o são porque o doente poupa algo. Embora os incentivos sejam algo um pouco complexo, não nos é difícil perceber a reacção dos agricultores de Monte Café ou de Ponta Figo se lhes garantirmos o escoamento dos respectivos produtos para o mercado regional. Já perceberam que dar dinheiro aos homens da terra não é incentivo nenhum? É preciso relembrar que muitos, com este dinheiro, compraram televisores e mobílias? Voltemos aos caixotes. Aqui, temos de jogar com o ganho comunitário, as pessoas podem sentir-se motivadas se souberem que o Governo irá premiar a localidade mais limpa do país.

E o prémio? Nada de complicar, basta organizar um mega Festival do Ambiente nessa localidade (vencedora) com artistas nacionais e internacionais. As pessoas ganhariam dinheiro e ficariam alegres com a festa. Reparem que falei em “poupar” e “ganhar dinheiro”, não em dar dinheiro. Quero apenas que as pessoas coloquem o lixo no caixote da Câmara. E o raciocínio económico pode ajudar, o tal incentivo. Sobre o que farão com o lixo alguém entendido na matéria escreverá um artigo esclarecedor.

Já pensou no caso do “Mano” que abandona a escola? O miúdo não sabe o que é ser piloto, logo, tirar um curso superior de pilotagem não é incentivo nenhum. Ninguém preferiria vender jaca a ser piloto! A educação é um excelente sector para aplicarmos os incentivos. Um bom vendedor de jaca na praia tem de saber essencialmente duas coisas: fazer contas e estimular os compradores. Se decidirmos premiar os melhores alunos de Matemática, seguramente, muitos “Manos” voltarão às escolas. Antes de as crianças pensarem na formação superior, precisam de descobrir a maravilha de fazer o ensino secundário ou um curso profissionalizantes. Aqui, um bom incentivo passaria pela valorização, por parte das autoridades, dos projectos e serviços criados e desenvolvimentos pelos estudantes. Tenho a máxima certeza que, por exemplo, dez jovens ligados às tecnologias de comunicação e informação criariam um sistema de certidões e documentos online. O mérito seria eterno, não pelo preço, mas pelo privilégio de ajudarem cerca de 180 mil pessoas.

Ludmilo Tiny

Julho de 2012

    7 comentários

7 comentários

  1. Fernando Castanheira

    17 de Julho de 2012 as 20:15

    Parabens pelo artigo. Os governantes terao interesse nisso?

    • Resposta

      17 de Julho de 2012 as 21:35

      Não. Os governantes não terão interesse, salvo algumas poucas exceções, porque isso de incentivo lhes fará pensar. Além de pensar, algumas áreas carecendo de incentivos não proporcionará benefícios próprios, que sejam imediato. Escrevo isso com tristeza mas é a imagem que os nossos governantes nos têm passado. Ou será que estou enganado? Ficarei feliz se provarem que estou enganado.

      • beto

        18 de Julho de 2012 as 7:08

        tens razao e essa é uma constatacao acertada.

  2. Ogimaykel

    17 de Julho de 2012 as 20:51

    Bem pensado

  3. Gente

    18 de Julho de 2012 as 14:39

    Muito Bem, uma conclusão trivial, mas vale sempre relembrá-la, parabéns, o povo precisa sempre destes incentivos ” A aeducação é um excelente sector para aplicarmos os incentivos”. Mas a cultura é a mãe de todas as mudanças, e como vai a saúde da cultura em todas as suas dimensões? Repare que, se a cultura for de “vender jaca” e “vender pão com manteiga”, essa força restringe qualquer incentivo ao estudo…estamos certos?

    • Ludmilo Tiny

      18 de Julho de 2012 as 16:53

      Caro (a) leitor (a) Gente,

      Estamos certos que esta cultura de “vender jaca” e “vender pão com manteiga” tem de mudar.

      Com o receio de descordar de si – porque não quero, pois está correcto no que concerne à necessidade de mudança – devo dizer que entendo ser a educação a mãe de todas as mudanças. Repare bem que só um decisivo e estratégico investimento em educação permitir-nos-á mudar a cultura de “jaca” e “pão com manteiga”.

      Ora, não existindo incentivo à educação, a actual cultura fará carreira durante longos anos. Se investimos na educação dos que vendem “jaca” e “pão com manteiga”, talvez, comecem a transformar a “jaca” em produtos mais valiosos. Não é que a jaca não seja valiosa, o que temos, antes, é um subproveitamento desta fruta. Comparemos o preço actual de uma cabeça de “jaca” e o preço de cada garrafa de sumo de jaca.

      Gente, em bom rigor, estamos no mesmo barco de pensamento: educação e cultura = desenvolvimento económico e social.

      Cumprimentos

  4. Gente

    19 de Julho de 2012 as 13:43

    Ótimo Ludmilo Tiny, muito boa reflexão…
    e conclusão a que chegou também, de que educação e cultura = desenvolvimento. Mas me permita, a CULTURA é deveras forte e escoregadia, uma verdadeira armadilha, usada para o bem e o mal, ícone da identidade de um povo que está impregnada em toda a vida social, em que cuja a mudança, a EDUCAÇÃO poderá contribuir substancialmente, mas talvez o desejo em absolver bons hábitos culturais não dependa da educação. Vejamos por exemlo, as práticas de CORRUPÇÃO que se observam no país, não são originárias de pessoas de baixa escolarização ou mesmo no sentido clássico de baixa educação formal, mas fruto de uma cultura que se desenvolve lentamente e que tornará extremamente de se combater. Assim, o trade-off educação e cultura é inegável, mas me parece que o fator cultural é mais amplo neste debate relativamente e educação. Mas concordo consigo, que nosso problema educação ainda é um fator fundamental e sempre será em termos do processo de desenvolvimento do país.

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