Opinião

Devemos entender e aceitar que as Línguas variam

A Língua Portuguesa é falada em praticamente todos os Continentes

Na Europa, é falada em Portugal; Nas Américas, no Brasil; Na África, em São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau; Na Ásia, no Timor Leste, em uma região da China – Macau, em uma região da Índia – Goa. Ou seja, oficialmente, está em quatro, , mas mostra sua cara em todos os continentes, uma vez que há comunidades de falantes – portugueses, brasileiros, africanos – na maioria dos países do mundo, totalizando mais de 250 milhões de pessoas falantes da língua de Camões e Machado de Assis.

O Português é o quinto idioma mais falado no mundo, ficando atrás apenas do mandarim, do hindi, do inglês e do espanhol.

Falamos a mesma língua, mas a falamos igualmente? O português que se ouve da boca de um português é o mesmo que sai da boca de um santomense? Um brasileiro fala igualzinho a um angolano? A resposta é não. E qual a justificativa? Encurtando bem o assunto, as interferências de outros povos justificam as diferenças. Ou seja, temos o mesmo colonizador, mas as coisas decorreram diferentemente.

No Brasil, chegaram os portugueses e encontraram os índios que já por lá viviam. Tinham sua cultura e sua língua. Para comunicarem-se, criaram uma “língua geral”. Depois chegaram os africanos, especialmente de Angola e do Congo – escravizados, mas cada um trazendo sua cultura e sua língua. E a mistura aconteceu. Nasceu uma “irmã” do Português de Portugal, muito próxima, filha dos mesmos pais, mas com características próprias. Depois da abolição dos escravos, chegaram os europeus, especialmente os italianos, e a “irmã” foi de distanciando em aparência da parenta europeia.

O que aconteceu em São Tomé?

Também falando bem por alto, os portugueses chegaram aqui, não havia ninguém – há controvérsias, mas isso é assunto para outro ensaio – e trouxeram com eles os angolanos, os madeirenses. Mais tarde, os cabo-verdianos e moçambicanos também chegaram. Todos esses povos falavam suas línguas, e isso foi se misturando, gerando o português característico de São Tomé e Príncipe, língua irmã do português de Portugal tanto quanto o português do Brasil e, com isso, irmã também do português tupininquim.

Essa nova variedade falada pelos santomenses em geral – as classes menos favorecidas socialmente – no dia a dia, na sua conversa diária, apresenta traços do português arcaico, ou seja, antigo, o que era falado pela população culta, pela classe média e pelos donos de propriedades de antigamente. Já a camada privilegiada da população utiliza o português europeu padrão, muitas vezes aprendido durante os estudos feitos em Portugal. Mas, ainda assim, há marcas que são identitárias e não “desgrudam”, estabelecendo a nacionalidade por meio de um som, de uma construção sintática, de uma palavra. Aposto, com confiança, que mesmo um  santomense da alta sociedade, ao se admirar, tomar um susto, se indignar, solta o sonoro e lindo “Che”!!!

Dessa maneira, podemos perceber que falamos a mesma língua, sim, já que a gramática é a mesma. Todas as variedades têm sujeito, verbo e complemento. Todas têm acentuação, classes de palavras, sintaxe.  Ou seja, a estrutura é mesma. Mas elas são diferentes porque estão em lugares diferentes e isso pode afetar uma língua. A questão regional é definitiva para a variação e a mudança linguística. Palavras novas que chegam a Portugal podem não vir até aqui. Palavras novas que chegam ao Brasil podem não chegar a Angola.

Além de variar no espaço, ou seja, de lugar para lugar, a língua também varia conforme a idade, o sexo, condição social, escolaridade e também de acordo com  a situação vivida no momento do discurso.

Não falamos como falam nossos avós. Mulheres e homens se expressam de maneiras diferentes. Inúmeros estudos sociolinguísticos mostram que, por exemplo, o sexo feminino tende a usar mais diminutivos, a detalhar mais os fatos. Peça para um homem e depois para uma mulher contar uma festa. A diferença é surpreendente!

Pessoas com acesso facilitado a bens culturais diversificados, possuidoras de meios financeiros para a aquisição de livros, discos, contato com filmes, peças de teatro, e indivíduos escolarizados vão se expressar mais proximamente da normal padrão, ao passo quem não tem acesso à cultura diversificada, quem não estudou usará a língua que aprendeu em casa, o padrão popular.

O uso da língua também depende da situação vivida. Ao conversarmos com nosso professor não utilizamos a mesma expressão utilizada ao nos dirigirmos ao um amigo. Não falaremos com nossos pais da mesma maneira que falamos com nossos irmãos. É necessário adequarmos a nossa língua a cada situação e às exigências delas.

Porquanto existir um padrão, importa deixar bem claro, transparente mesmo, é que não existe uma única maneira correta. Não é o Português de Portugal que é certo e a maneira que se fala em São Tomé é errada. Não é o Português do Brasil o correto. Todos estão corretos, todos estão adequados a seus falantes.

O que há,  de fato, são normas ou variedades: a variedade padrão, aprendida na escola – frisando que é papel da escola e proporcionar aos alunos o conhecimento e contato com esta norma padrão – a qual deve ser utilizada em conversas formais, com estranhos, com superiores. E a fala gostosa dos quintais, que usamos para tomar cerveja – bem gelada, de preferência, pois sou brasileira – ou vinho de palma com nossos amigos.

O português é tão rico e formoso quanto são os povos que dele se utilizam para sua comunicação. Cada um com seu estilo, sua marca, sua identidade. Mas sempre o Português, aquele, vindo do Latim, utilizado por Camões e Machado de Assis, mas também pela brasileira Divina, pelo português Manuel, pelo angolano Caetano, pela santomense Admízia, pelo moçambicano Arlindo, pelo guineense Sufrim, pelo timorense Fadário, pelo brasileiro Benedito, pela portuguesa Teresa, pelo…. por todos!

Eliane Oliveira

Eliane Vitorino de Moura Oliveira – LIA

Leitora Brasileira – ISP STP

Doutoranda em Estudos da Linguagem – PPGEL/UEL

Mestre em Estudos da Linguagem – PPGEL/UEL

Especialista em Língua Portuguesa – UEL

Professora de Português para Falantes de Outras Línguas

Professora de Língua Portuguesa

 

    3 comentários

3 comentários

  1. jornalista

    12 de Junho de 2014 as 16:17

    Diferentes povos falarem a mesma língua de modo diferente, é sem dúvida uma das maiores riquezas da língua Portuguesa.

    Já não concordo que se escreva de maneira diferente, cada um á sua maneira. Por vezes certas coisas parecem muito engraçadas á primeira vista, mas na prática não são boas.

    Por exemplo, não faz sentido uma criança Santomense aprender a escrever de uma forma diferente de uma criança Portuguesa. O mesmo para uma criança Brasileira, Angolana, etc.

  2. norberto

    13 de Junho de 2014 as 5:45

    E louvar esta senhora pofessora meus Parabens

  3. Ralph

    13 de Junho de 2014 as 7:05

    Gostei de ler este artigo. Como falante nativo de inglês, sei que há muitas variantes da lingua. Por exemplo, sou Australiano e tenho um sotaque australiano mas frequentemente ouço falantes de inglês com outros sotaques. Algumas vezes, eles podem ser difícil de perceber, tais como os irlandeses e os escocês.

    Se eu for à Irlanda, por exemplo, teria de ouvir com muita atenção para assegurar que eu conseguirei entender um falante nativo. Imagino que alguém que está a aprender o inglês americano teria dificuldade em perceber bem um irlandês, principalmente se aquele irlandês não fale devagar e claramente. Por isso, não é surpreendente que algo semelhante ocorre com outras linguas, incluindo português.

    Estou a aprender o português europeu e algumas vezes tenho dificuldade quando ouço músicas brasileiras. Algum dia, gostaria de ser capaz de comunicar facilmente com falantes de várias variantes de português, como faço em inglês. Como disse a autora, nenhumas das variantes de uma lingua são corretas ou más, só diferentes.

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