Opinião

A próxima década

Estamos a minutos de entrar em no ano 2020. São 4h56 do dia 30 de Dezembro de 2019 em São Tomé e Príncipe.  Ainda faltam umas valentes horas para saltarmos o ano velho e cairmos no ano novo.  Nos tempos que correm, sobretudo subjugados que estamos ao domínio das tecnologias para fazermos quase tudo, tendemos a medir o valor de muitas coisas pelo tempo que elas duram. Não é assim? Tomemos o como exemplo, o meu inseparável telemóvel que já pede para ser carregado, pois a bateria viciada que está, não tarda nada, desliga-se e as ideias perdem-se.

Segundos depois de abrir os olhos, tenho o pensamento subitamente sitiado por um impulso que me põe confusamente a pensar na vida. Nada de extraordinário para a maior parte dos humanos – pelo menos aqueles que habitam o nosso planeta. Entretanto, uma grande parte do país já acordou ou vai acordando para pôr as mãos e o suor ao serviço do sustento das suas famílias.

E eu aqui a divagar sobre a vida. Só di graça!!!! Logo eu que não tenho o hábito de fazer balanços no final do ano. Será este ano diferente?
A resposta é: acho que sim
E explico de imediato (no entretanto já saltei do telemóvel para o portátil)

Em 2009, portanto, há 10 anos atrás, estava eu a iniciar mais uma etapa da minha jornada de vida, desta vez com os olhos fixos em Luanda. Deixava São Tomé e Príncipe (STP), para onde regressara 2 anos antes, trazendo comigo uma mochila e um pequeno trólei com os pertences acumulados nas duas paragens anteriores: Portugal e Reino Unido.

Hoje, 2019, estou na Trindade. Lugar onde nasci e passei toda infância até muito perto de atingir a maioridade. Desta vez tenho comigo, outros pertences além da mochila e o trólei de outrora. Saí no estado “pontadu” e agora estou mais maduro. Mais, conheço um bocadinho melhor o mundo e a vida noutros lugares, trago alguma experiência profissional testada em ambientes culturais diversos. Ah!!, ia-me esquecendo, o meu séquito de ideias e interesses por “quase tudo” cresceu e é a razão do meu excesso de bagagem.

Mantenho sólidas e sentidas ligações aos lugares por onde improvisei o meu quintal de vida (essa parte é para “gabar-me” de ser viajado), mas não quero estar em nenhum outro sítio, que não em São Tomé e Príncipe. E em particular na Trindade. Afinal, nada se compara a sermos felizes na nossa terra “natural” – tendia a dizer materna, mas poderia parecer demasiado sexista/feminista. Não quero abrir discussões que não estou preparado para ter. Estou à vontade, contudo.

Voltando ao pensamento inicial, talvez por 2020 ser um número redondo e apelativo, ponho-me a pensar o que foi a última década (2010-19) e mais importante ainda, o que deverá ser a próxima década (2020-30).

No meu caso, o ano 2019 consolidou a regresso a terra. Desde a última partida, costumava fazer estadias anuais em média de 60 dias em STP – davam para estar com os velhos, sentir o nosso chão e mais umas invenções. A partir de 2016 essas estadias foram sendo mais frequentes e prolongadas. Este ano que quase se despede, acordei mais vezes na Trindade do que em qualquer outro lugar do planeta.

Comigo, definitivamente deu-se a virada. Uma virada tão acalentada por muitos emigrantes na diáspora com vontade de regressar.
E é por isso que a próxima década importa muito mais ainda. É obvio que tenho desafios de foro pessoal. Acreditem, hoje, a coisa mais pessoal para mim, é colectiva.
Parece absurdo ou mesmo paradoxal. É como sinto. Não sei dizê-lo doutra forma. Talvez devesse recorrer a apoio filosófico. Alguem que se voluntarie?

A pergunta definitiva que se me coloca é: QUE PAÍS QUEREMOS TER OU CONSTRUIR PARA TODOS OS SANTOMENSES NA PRÓXIMA DECÁDA?
Números e estatísticas à parte, na última década teremos feito saltos qualitativos de progresso e bem-estar colectivo dignos de registo? É evidente que não. Está à vista de todos que não.

O diagnóstico da nossa situação está mais do que feito. É actualizado todos os dias. Chego a pensar que poderemos já estar a viver o dia a dia a diagnosticar o país.
O país que se vive no fim de 2019, nas questões fundamentais do seu funcionamento, será assim tão diferente de 2010?
Sob o barómetro do bem-estar e progresso colectivo, estou seguro de que não. Somos mais, temos menos recursos, e o país não uma direcção coerente (para mais ver qui)

A nossa posição em rakings internacionais de indicadores de desenvolvimento, com raríssimas excepções, continuam anémicos e a alternar entre os últimos ou os seus vizinhos próximos.

Esta última década, como em muito da anterior, STP parece estagnado num clima de crises políticas endémicas, sem rumo e pior ainda, com os santomenses de costas voltas como nunca antes de se vira. Como é que se constrói um país nestas condições?

Vou transcrever uma análise de 1 minuto que o economista guineense Carlos Lopes fez há dias sobre a situação na Guiné Bissau:
(“…o que está em jogo é exactamente a definição se vamos passar de um regime novo de transformação ou vamos continuar a ser um país rentista.

Essa característica rentista que é de sugar o Estado..de se aproveitar do Estado para não fazer nenhuma transformação tangível para as populações, foi protagonizada sobretudo pela forma como nós gerimos a nossa exportação principal (castanha de cajú), a forma como não gerimos a nossa riqueza principal (as pescas) e forma como lidamos com a estrutura do estado que é dependente da ajuda externa.

Esta equação de três problemas que não se resolvem..que são responsáveis por criar uma elite politica completamente oportunista, que suga o Estado e que se pretende defensora dos interesses privados, e de um certo empresariado, mas na realidade completamente diferente daquilo que o empresariado deveria ser, porque está completamente dependente dos recursos estatais…”) fonte.

Estas palavras, com uma marginal substituição do cajú pelo cacau, encaixaria perfeitamente também em STP. Como alguém pode dizer tanto em tão pouco tempo. Ouçam o áudio.

O que espero então da próxima década para o nosso país?

Em palestras que vou fazendo por aí, sobretudo para uma audiência jovem, tendo como pano de fundo o resgate dos nossos valores, perguntam-me qual o objectivo de uma boa sociedade. E a pergunta subsequente normalmente é saber como se chega a esse lugar mágico. Usando os argumentos de um amigo, costumo dizer-lhes que o objetivo de uma boa sociedade é o desenvolvimento e o progresso. E para se chegar lá, aponto algumas ferramentas de apoio a uma tal empreitada.

E aí sugiro:
Liderança: esclarecida, credível e tolerante
Organização: uma eficaz e eficiente organização do Estado
Políticas públicas: procedimentos/processos, informados, coerentes, inclusivos e transparentes para tomada de decisão.
Valores: cultivar os padrões inspirados na cultura que orientam o bom comportamento social (ver mais aqui e aqui)

Esta checklist de 4 ferramentas chave não estão hoje satisfeitas. Talvez pudéssemos assumi-las como sendo os principais indicadores que nos permitiriam medir tudo o que pretendemos fazer na próxima década. O que me dizem sobre isso?

Mas se me perguntam “aonde ficam então as questões mais concretas?”, “aonde está os vários problemas que temos por resolver?”, eu tendo a responder tal como como sugeriu uma amiga há dias: devíamos estabelecer um modelo de governação que assumisse um único grande desafio a cada ano. Não sei se funcionaria. A governação é como o nosso organismo: complexo, exigente, metódico, mas multi-tarefas. Como conciliar um único foco com o funcionalismo da máquina gigante e agitada.

Atrevo-me, contudo, a elencar aquilo que seriam os meus 10 desafios para a próxima década. A ordem é arbitraria. Qualidade da democracia: introduzir critérios competência, moralidade e a ética aos agentes políticos e públicos. O que chamo de Compromisso STP;

Reforma do Estado: executar uma reorganização fundacional das estruturas e serviços da administração do Estado com os olhos pontos na eficiência, simplificação e modernização tecnológica;

Economia: construir finalmente uma Agenda de Transformação 2030 para o futuro envolvendo toda a sociedade. As tentativas anteriores não foram inclusivas e falharam. Penso que o turismo, o mar, a agricultura de valor acrescentado, e as indústrias criativas devem ter assento nas filas da frente.

Educação: A Agenda de Transformação 2030 deve inspirar um programa de educação que se adeque à nova lógica de desenvolvimento, não descurando o investimento no reforço da qualidade do actual sistema educativo nacional, fomento da ciência e inovação, plano de formação de quadros, e o reforço da articulação entre as escolas, as universidades e os contextos profissionais presentes e futuros;

Juventude: um olhar atento, articulado e versátil sobre a temática da juventude como força motriz de transformação para a modernidade. Explorar o conceito “dividendo demográfico”.

Cultura: promover uma agenda de renascimento cultural projectado para o Sec 21, que articule o intercâmbio com os países da região e a revalorização da identidade nacional. Deve ser parte integrante da Agenda de Transformaçao 2030;

Empoderamento da mulher: vamos definitivamente assumi-lo como desígnio estratégico do novo projecto sociedade de STP;

A emergência ambiental e climática: assumir que não se trata de uma prioridade de circunstância, mas que já exige uma estratégia nacional. Os sinais vao sendo inquietantes;

Diáspora: Qual o seu papel? Têm peso demográfico significativo, experiência e recursos que devem ser cortejados para estarem ao serviço da Agenda de Transformação 2030.

Parceiros de desenvolvimento: este é um ponto fundamental e estruturante. 97% do que é o nosso Orçamento de Estado vem da ajuda ao desenvolvimento. Temos de pensar num outro paradigma. O actual, com algum exagero meu, pode ser descrito em bonecos: “uma mão está estendida ao parceiro, e a outra passa os recursos para os bolsos dos afortunados do sistema. O poucochinho que sobra chega em mínguas aos beneficiários”.

Portanto, o modelo assistencialista à conta gotas não é resposta ao desenvolvimento. Não tem sido. Mas mais do que alterar o modelo de cooperação, é definirmos como sociedade aquilo que queremos.

Com a Agenda de Transformação 2030 uma vez consumada, deveríamos então discutir um novo modelo que respeite a autoridade das estruturas públicas vocacionadas para pensar os projectos que pretendemos desenvolver à luz da agenda, garantir mecanismos de prestação de contas mais simplificados, melhorar a eficácia desembolso de fundos e os seus ciclos, melhorar a gestão de recursos, dar especial atenção à gestão de implementação de projectos, e promover o know-how das estruturas públicas e privadas nacionais.

Por fim executar um mecanismo de avaliação global da eficácia dos projectos.

O veículo que nos vai guiar durante a próxima década teria 3 rodas. As três são motrizes. Estamos a falar dum triciclo, não é. Quem não andou num triciclo? Dantes só havia para crianças. Agora já vai havendo versões para adultos. São baratos, práticos, e não poluem. Voltando as rodas, uma roda seria a nossa Constituição da República – se é preciso ou não fazer alguma manutenção a esta roda, é questão para ver noutro fórum-, a segunda seria o Compromisso STP e a terceira seria a nossa Carta dos Valores.

Ou então se preferirem um esquema menos mecânico, talvez fosse inscrever na nossa Constituição, articulados com i) os aspetos amplamente consensuais da Agenda de Transformação 2030, ii) o código de conduta dos agentes públicos, e por último iii) o articulado sobre a carta dos valores da santomensidade.
Tudo isso parece confuso porque não os consigo articular melhor. Por isso, aqui os proponho para que possamos debatê-los e peneirar se fazem sentido ou não.
Portanto é sobre o futuro que residem as minhas inquietações e força para avançar. Não me parece que seja diferente para os meus concidadãos.

Voltando à contagem do tempo, entretanto já estamos no dia 31 e os segundos correm de forma vertiginosa para o novo ano. Estou ansioso. Vou continuar com o meu compromisso com a cidadania activa em todas as esferas da vida do país (um cuidado especial com as crianças, jovens e idosos), mas também desafios de desenvolvimento de soluções e projectos empresarias ao nível do sector privado por forma a ir resolvendo problemas comuns, gerar emprego e com isso criar valor nacional.

Vou também voltar a ser aprendiz de agricultor com o meu pai. O Camblé não larga a sua horta. Sempre foi assim desde que me conheço. A minha mãe diz-me que todos os dias ele traz qualquer coisa da terra para a nossa mesa. Ela voltou a dizer-me isso há dias e fiquei tocado: é valor do TRABALHO…
É em tudo isto que vou estar apostado na próxima década. Vamos ver o que conseguimos fazer juntos..

Sejam todos abençoados por Deus e pela terra que nos carrega para que façamos florescer juntos um novo amanhã. Um amanhã que nos sirva a todos e não deixe ninguém para trás.

Boas entradas e “bon zuano”.

Abreijos

Luiselio Salvaterra Pinto

    5 comentários

5 comentários

  1. STP sempre

    1 de Janeiro de 2020 as 11:33

    Hum… é sempre bom exercitar com artigos. Mas ando a observar que este senhor anda procurar alguma coisa por cá. O que será? É legítimo como mano da terra. Quando esmola é demais pobre desconfia. Mas faz xixi largado mano. Aqui gostamos de quem fala claro. Só uma dica

    • Bom ano

      1 de Janeiro de 2020 as 11:34

      Também acho. Boa dica. Seja claro

  2. Bomba

    2 de Janeiro de 2020 as 21:33

    Olhá, aqui está. É disto que eu não gosto deste meu país e desta nova maioria. Comportam-se como coisa que são donos disto tudo. Como é possível que este senhor, Luiselio Salvaterra Pinto, pelo facto de ter feito um artigo de opinião, que eu considero muito bom, é atacado desta forma, pelo “STP sempre” e “Bom ano” , provavelmente a mesma pessoa, como coisa que o país é deles e mais ninguém pode dar a sua opinião neste país num artigo de opinião. Já estão a dizer que o referido articulista está “procurar alguma coisa”, que ele é isto, que ele é aquilo. Mas o país é destes senhores? Não se pode escrever um artigo de opinião para um jornal? Não vivemos em democracia? Mas que raio de coisa? Deixem o senhor em paz. Que mal ele fez pelo facto de ter escrito um artigo de opinião?. Sinceramente!!!!!!! Nunca vi tanta escumalha junta que só faz o país regredir. É para isto que queriam ir para o poder?

  3. Moisés Viegas

    4 de Janeiro de 2020 as 20:05

    Somos São Tomé e Príncipe! Parabéns mano. Vamos avançar.

  4. Nanana

    5 de Janeiro de 2020 as 14:52

    É sempre assim, Bomba.
    Atacam tudo que é novo e quer ajudar a desenvolver.

    Estão a fazer o mesmo com a Isabel de Santiago, por causa de um artigo que ainda nem foi publicado, e que pelos vistos, o governo já o tem.

    Todos que tentam ajudar de boa fé, com verdade e nível, é atacado.

    A ignorância é a pior das pobrezas!

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