Opinião

Fake News

Começo por pedir desculpas pelo emprego do anglicismo fake news. Ao longo do texto compreenderão o motivo deste título.

Quando escrevo não gosto muito de utilizar essas expressões, sobretudo quando encontro palavras em português para caracterizar o que pretendo dizer.
Compreendo que por vezes temos a necessidade de utilizar uma ou outra palavra a inglês ou uma outra língua estrangeira, devido a evolução da ciência e da tecnologia. Não sendo português uma língua muito utilizada nos relatórios e trabalhos de investigação científica, as vezes, temos mesmo que nos socorrer à palavras estrangeiras para nos explicar melhor.

Mas não é o caso do fake news, porque há uma designação em português para substituir perfeitamente esse anglicismo desnecessário que é NOTÍCIAS FALSAS. Para além de fake news existem muitas outras palavras estrangeiras que invadem a nossa escrita em português, mas que podem perfeitamente serem substituídas. São muitas e para não ser muito exaustivo, permitam-me mencionar apenas algumas frequentemente utilizadas ou mesmo adotadas no português: enter=entrar; fast-food=comida rápida; home page=pagina inicial; know-how= saber, conhecimento; link=ligação; shopping center=Centro comercial.

Existem outros tantos casos de palavras estrangeiras que foram aportuguesadas ao longo do tempo devido a própria dinâmica da evolução da língua, baseada em forte influência do estrangeirismo no português. São elas: basket=basquete; beef=bife; clip=clipe; cocktail=coquetel; detective=detetive; film=filme; football=fotebol; New York=Nova Iorque; stress=estresse; whisky=uísque, para referir apenas alguns exemplos.

Encontra-se anglicismo por todo lado, sobretudo nos jornais, nas redes sociais, em documentos oficiais, nos discursos e mesmo em alguns livros publicados. Alguns casos porque não há palavras a português, como referi, para designar o que se pretende, outros, pelo prazer ou exibição dos dotes de inglês de quem as utiliza.
Portanto, sempre que podermos devemos evitar os anglicismos porque desta forma estaremos a valorizar mais o nosso português.

Sobre esse tema, haverá ainda muito mais para dizer, mas ficamos hoje por aqui. Talvez voltemos numa próxima oportunidade.

Mas esse tema foi apenas o mote para entrar no assunto que pretendo abordar, mas que aproveitei a oportunidade para me referir a esse facto muito marcante na nossa escrita em português.

Quero falar sobre notícias falsas que tem invadido as redes sociais duma maneira geral, mas gostaria de realçar essa realidade em São Tomé e Príncipe.

Muitas dessas notícias são tão bem orquestradas que as vezes passam por notícias verdadeiras ao ponto de, mesmo pessoas lucidas e de boa-fé, por vezes acreditam e ajudam a dissemina-las de forma inconsciente. Há criadores de blogues [não conheço a tradução a português], especialistas em notícias falsas e são procurados para o efeito.

É um assunto que tem vindo a acontecer há muitos anos a essa parte aqui em São Tomé e Príncipe mas com o recrudescimento nesses últimos tempos, pois, notícias falsas têm servido de arma politica para denegrir, insultar, como método de assassinato de caracter, manchar a reputação das pessoas ou mesmo a tentativa de derrubar governos.

Não se trata de boatos que é uma característica social próprias dos meios pequenos como São Tomé e Príncipe. Sempre se lançou boatos aqui no Pais. Diria mesmo que faz parte de ser e estar do São-tomense.

Entretanto, há uma ligeira diferença entre boatos e notícias falsas. Enquanto os boatos são rumores que passam de boca a boca no seio da população, sem se conhecer a proveniência, baseados em “disse-que-disse-que” com objetivo de divertir, amedrontar, criar pânico, zombar, tentar adivinhar acontecimentos etc, noticias falsas que se tem usado nesses últimos tempos sobretudo nas redes sociais, são textos publicados que contem manipulações, mentiras elaboradas de forma premeditada com objetivo de destabilizar, geralmente para tirar dividendos políticos.

Para não serem responsabilizados pelas suas falsidades, e por que estão esvaziados de argumentos políticos ou outros, esses malfeitores escondem-se por detrás de perfis falsos para atingirem os seus objetivos maléficos.

Considero os perfis falsos uma forma mais ignóbil de se posicionar na política. Num Estado de direito democrático em que existe liberdade de expressão e pensamento, acho uma atitude irresponsável e não se justifica esses comportamentos. Sendo a política uma atividade nobre, a sua utilização para fins maldosos e inconfessos é inadmissível. Para mim, essa gente pode ser tudo menos político, pois em vez de serem covardes deviam contribuir para uma atividade política responsável com vista a animar e melhorar o nosso processo democrático, para atingirmos facilmente o desenvolvimento harmoniosos do Pais. Uma conclusão que podemos chegar facilmente é a seguinte: Se o que escrevem não é mentira, por que razão não dar a cara?

É claro que numa sociedade como a nossa em que ainda existe grande parte de nossa população com baixa formação para interpretar determinados fenómenos políticos, essas notícias falsas encontram facilmente o acolhimento de algumas pessoas. É verdade que esse método está cada vez mais a perder credibilidade porque muitas pessoas estão a despertar para a verdadeira realidade em São Tomé e Príncipe e porque as mentiras desses indivíduos tem sido de tal maneira rotineira e inqualificável nesses últimos tempos que muita gente já não acredita neles.

Muitos internautas dão-se ao trabalho de interagir com essa gente. Eu não o faço por uma questão de princípio. Acho que é criar palco para continuarem a alimentar as suas mentiras.

A oposição tem um quadro próprio de atuação estabelecia por Lei. Assim, não se compreende por que razão, umas coisas são ditas abertamente por pessoas devidamente identificadas e outras ditas sem rostos.

Os assuntos abordados nessas notícias falsas, os métodos de escrita, a maldade que as mesmas carregam, facilmente se poderão saber a proveniência das mesmas. Daí que, as autoridades competentes devem tomar todas as medidas com vista a banir esse cancro da nossa sociedade. Não devemos mais continuar a conviver com essa situação.

Discordo com algumas pessoas que dizem que notícias falsas e os perfis falsos também fazem parte duma sociedade livre. Pergunto, para ser livre temos necessariamente de espalhar notícias falsas como arma política para atingir objetivos inconfessados? Por que não usamos a nossa liberdade de forma racional, correta e responsável? Agindo dessa forma estaremos mesmo a merecer liberdade que temos?

Já vimos noutras paragens que noticias falsas publicadas ou não, têm contribuído para derrube de governos ou assassinato de caracter de personalidades políticas. Aqui em São Tomé e Príncipe, esses indivíduos maldosos não são inocentes e têm esse facto bem presente na sua estratégia política. Por isso é que acho que não se deve permitir esse tipo de comportamentos na nossa sociedade, para o bem dessa liberdade que muito nos custou.

São Tomé, 20/02/2020

Fernando Simão

    6 comentários

6 comentários

  1. Brobama uguntanga

    26 de Fevereiro de 2020 as 23:33

    Eu me sinto traído

  2. Arménio Camblé

    27 de Fevereiro de 2020 as 9:59

    Muito bem dito, muito bem escrito. A advertência também esta ai presente.
    Mas já agora, uma questão se levanta. Quando os autores dessas falsas noticias são conhecidos, porque não agir como forma de os punir? A titulo de exemplo os chamados Anda Pligo, são uns mentirosos da primeira categoria, maltratam as pessoas, chamam nomes, enxovalham, mas ainda assim andam por ai soltos parecendo ser santinhos e limpos, quando todos sabem que por cá, andam recebendo semanadas e mesadas que lhes são regularmente enviados pelo Coronavirus.
    A autoridade de Estado tem que funcionar neste matéria também.
    E mais uma vez felicito o autor do texto.

    • WXYZ

      28 de Fevereiro de 2020 as 10:54

      Oh rapaz! Isso ee complicado. Nao sei se vc ainda se lembra daquela tremenda acusacao que tinham feito contra o Sr. Patrice Trouvoada dizendo que ele chamou povo bebedado. O autor do texto fala de fake news. Mas ha ainda algo bem pior que ee distorcao daquilo que sai da tua boca, depois fazem montagens e finalmente lancam como noticias que sao repitidas infinitissimas vezes nos ouvidos e nas cabecas das pessoas e que acaba sortindo efeito que ja vc sabe. Ha um ditado que diz “Uma mentira quando repetida varias vezes acaba transformando numa verdade” Tas te lembrando da musica “Eh ssama povo bebedado”?

  3. Fuba cu bixo

    27 de Fevereiro de 2020 as 15:11

    É so hipocrisia enquanto este fenômeno serviu para assassinato de caráter do Patrice Trovoada ou o derrube do governo do ADI este senhor não veio ca escrever nada a repudiar ou condenar este fenômeno de fake News porque lhe dava jeito e ao seu partido MLSTP.

    Os políticos do nosso país fazem eles próprios os seus assassinatos de carácter quando mentem na campanha eleitoral para ganhar eleições como é o caso do atual primeiro ministro Jorge bom Jesus. Eu condeno este fenômeno mas temos que ser coerentes e despir a camisola do partido.

  4. WXYZ

    28 de Fevereiro de 2020 as 11:02

    Felicito o autor por trazer um tema tremendamente interessante e complexo, para suscitar debates. Isso mexe muito com liberdade de expressao. Me alertou mais ee a pergunta que ele faz “Por que não usamos a nossa liberdade de forma racional, correta e responsável?” Ha um ditado que diz “A minha liberdade termina la onde comeca a do outro”. Mas… O grande problema ee como conhecer esse balisamento.

  5. Maria Carmona

    28 de Fevereiro de 2020 as 16:28

    …excepto quando dá jeito classificar como fake news escândalos e informação verdadeira.

    As fake news servem para os dois lados, lamento que queira apenas ver por um dos lados da barricada. O senhor sempre foi um homem comprometido com a mania de que é mais importante do que os outros e isso, lamento, classifica-o.

    vá diga lá que me escondo atrás de nome falso e que o que escrevo acima é fake news para não ter que justificar o que escrevo acima.

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