Opinião

Soldado pode ser anão, representa a lei com o bastão – Covid-19

“No início da epidemia, a África tinha quatro laboratórios capacitados para diagnosticar a praga. Neste momento da pandemia, já há dezenas de laboratórios. Própria, as Nações Unidas, nesta luta global e devido a especificidade das ilhas, deveria desenvolver o “namoro financeiro” e até disponibilizar os especialistas internacionais para “laboratorizar” a ilha de São Tomé e a ilha do Príncipe.”

O texto de abertura integra a dissertação editada neste jornal no dia 17.04.2020 e sob o título “Conta bancária de solidariedade – Covid 19/STP”. A livre expressão quando devidamente diagnosticada tem um contributo, sem custo, à democracia e de passos bastante adiantados aos dos políticos e governantes, ao ponto do liceu nacional e certas escolas distritais e regional, servirem de apostas oportunas para hospitais de emergência e posterior descontaminação.

O presidente Evaristo Carvalho não tomou a nota do alerta vindo da diáspora que no solo europeu se comovia das milhares de vidas humanas perdidas diariamente e com as baixas nacionais em Portugal (Ortins David e uma defunta de nome não publicitado) e França (Paulina, a enfermeira) nem tão pouco os seus assessores anunciaram-lhe da hesitação do governo e da comunidade internacional para com os avanços de Covid-19 que só uns comediantes não admitiam a ramificação comunitária nas ilhas.

Apenas no dia 6 de Maio, três semanas passadas da edição e com o bombardeamento vindo de Gana, 213 testes resultaram em 162 casos positivos, o que nas estatísticas e para a desgraça coletiva garantia mais de metade da população territorial já infetada e assintomática, o mais alto magistrado convocou finalmente os gabinetes das Nações Unidas e a autoridade caseira para o alarme fora de prazo. Valeu mais que nunca.

Por seu turno as embaixadas dos EUA com a nota diplomática “Juntos Somos Mais Fortes : STP e os EUA e a Batalha Global Contra o Covid-19” e depois a China no mesmo diapasão “12 rumores e realidades sobre a China durante a epidemia de Covid-19”, as duas mais avançadas economias e potências do mundo em conflito comercial e pandémico, à surdina dos são-tomenses em terapia de pânico, vieram aqui no Tela Non “puxar brasas às suas sardinhas” sacudindo as poeiras de um pé de “rumba” tropical proveniente de um dos mais insignificantes territórios do mundo. Não são todos os dias.

Boa-nova. Após a chegada de um médico cubano, a Saúde são-tomense altamente atribulada com os combatentes da primeira linha infetados e em refúgio medical, o país vai receber uma equipa do INEM de Portugal com médicos e enfermeiros que deverá abastecer as ilhas, não só de logística contra a pandemia, mas também, ao certo, reabastecer o stock de medicamentos e outras necessidades sanitárias, devido o rombo ocasionado pelo longo tempo do fecho do espaço aéreo nacional.

Já para desmobilizar a solidariedade nacional, em que o texto se engajava, eu recebi o carinho de São Tomé em mais de uma mão completa de dedos: “Com os teus filhos para educar e a tua mãe acamada, você está preocupado com a saúde deste povo vingativo e execrável que não merece um tostão!? Rapaz, apanha juízo!

O governo tem dinheiro para adquirir a logística de Covid-19. Basta aceitar de volta os contentores de hospital de campanha, ventiladores e reagentes levados pelo anterior primeiro-ministro, emagrecer os salários chorudos da classe política e desfazer-se do parque automóvel milionário de que dispõe aos olhos da pobreza do povo e da imundice sanitária.” Uma das amizades foi mais longe no desabafo da matemática governativa que não via os meios de alimentar o povo na quarentena.

Mas antes. Não só na educação, o africano iluminou os são-tomenses em mais de quatro décadas de solidariedade Sul-Sul. No desporto, foi um pivô e o Futebol Clube de São Tomé, a equipa dos jovens professores da época revolucionária, Bano, Martins Pereira e Dominguinho apresentam-se na lembrança daquele chuto esquerdino de Congo Brazaville e animador do futebol de setenta e oitenta.
Não encerra aqui o casamento fantástico do congolês perecido na passada sexta-feira, dia 8 de Maio, vítima do maldito AVC, para com as ilhas de São Tomé e a do Príncipe com direito ao muro público no meio do mundo.

No contributo musical, a “kuassakuassa” ao vivo e cadenciada do reino para a aprendizagem dos ilhotas, foi introduzida no nosso leve-leve e de forma contagiante do gingar de cabeça, braços, anca e pés do Lopanza e da sua equipa congolesa.

Aos familiares do professor François Lopanza e o país, Congo, que lhe viu nascer, à esposa, a professora Maria Mandinga e aos filhos, recebam mais uma assinatura de pesar no Livro de Condolências endereçada de um antigo aluno de dois dos outros mestres congoleses, salvo Dieudonné e Jean.

Prossigamos no desabafo provindo da orquestra Trindadense. “O governo comprou ao novo presidente do Tribunal de Contas, Bernardino Araújo, o último grito de um jeep no valor de setenta mil euros. O governo não tem dinheiro!?”

O presidente do governo regional, Tozé Cassandra, com todos os palavreados de angústia e desespero contabilístico para bombardear à república descompassada pela maldição dos números positivos de Covid-19 que, após a recusa prepotente do fecho atempado do aeroporto da região, viu Bom Jesus – entre “soltar ou manter preso o cão” – despejar-lhe de uma só descarga com vinte e seis infetados dos trinta e sete viajantes, ainda assim, o governante elevou a altivez da Maria Preta, a antiga rainha da “dêcha” do Príncipe.

Arquitetou o cerco psíquico e prontificou as pensões residenciais para aquartelar, vigiar e alimentar os regressados de São Tomé ao longo do período profilático do inimigo invisível e fatal. Não praguejou a crise humanitária ao governo central que dispunha de itinerários alternativos para evitar a cadeia de transmissão à ilha do papagaio nem debandou-se da cruz de Santo António. Atuou como um comandante de exército com as letras grandes. Palmas Senhor Presidente Tozé Cassandra!

Não haveria de deixar a montra sem recordar aqui e especialmente à diáspora os números disponíveis das contas bancárias de solidariedade “Covid-19 STP”. Bastam os dez euros individuais e combinados na rubrica anterior.

1 – BANCO TOTTA (Embaixada de São Tomé e Príncipe)
Swift: TOTAPTPL, IBAN: PT50 0018 0000 1067 66 85 0013 4
e-mail (funcional) – edgartorres@emb-saotomeprincipe.pt

2 – CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS (Associação Men Non)
NIB: 0035 0097 0000 8170 530 48
IBAN: PT50 0035 0097 0000 8170 530 48
e-mail (não funcional) – ajudastp2020@ gmail.com

Ainda temos dois minutos. Ofereceram-me na rede pública uma interessante disputa de dividendos financeiros da pneumonia viral, entre dois conterrâneos. Um na terra sagrada e o outro na diáspora que por razão de preservação de identidade, não vou partilhar os nomes. Com as mãos limpas e o dinamite no fuzil, o da diáspora esclarecida reclamava da transparência e gestão rigorosa da coesa pública, embora a verba viesse das multinacionais e afeta diretamente aos alfaiates envolvidos em máscaras contra o surto viral.

O outro, um antigo governante e de currículo político respeitável, também de mãos limpas, defendeu-se das garras. Via a justeza de um alfaiate mais a sua equipa de emergência receberem no contexto de coronavírus uns 1.500 euros, mais coesa menos coesa, para a distribuição pela confeção das máscaras, o que daria em termos aritméticos cerca de trezentos euros por cada artista em semana de trabalho duro, dia e noite, sem ler a cara clubística nem com quem dormiam os profissionais.

Bati as palmas aos intervenientes até embater num país a duas velocidades. “Porquê, eu receber dez mil euros por uma consultoria de umas páginas e um alfaiate não beneficiar, uma vez na vida, de mil e quinhentos euros para distribuir à sua equipa das máscaras? En!?” Dobrou as sobrancelhas o antigo governante.

A incompreensão do Estado de Emergência emanado da contingência sanitária e o eventual deficit dos agentes policiais e militares, os garantes do acantonamento físico e que não se acautelaram do papel inicial de sensibilização, muito mais exigente que o da repreensão nesta guerra biológica, fez enraivar as redes sociais incomodadas com o mando policial africano.

Ninguém no bom juízo deverá aplaudir “borracha ao povo” nem tão pouco o engarrafamento humano nas celas, propiciando mais um foco desnecessário para a disseminação do vírus, algo evitável, apesar da desobediência civil de sobrevivência diária na difícil opção entre a morte por “corona” ou pela fome.

Os políticos atrofiaram a democracia edificada por uma geração, na época ovacionada internacionalmente e este, todavia, é o momento ímpar de voltar-se a impor, dentre a gestão eficaz dos recursos disponíveis, a consciencialização nacional, a mobilização internacional e a efetivação de rumo, a reclamada autoridade do Estado.

Sem a pretensão de adaptação nua e crua, enquanto um soldado de segunda linha de combate da pandemia no “plé-mundu”, já fui por duas vezes barrado pelas forças de segurança durante a quarentena anti-vírus de sessenta dias terminada no domingo, dia 10. Na segunda interpelação, o colega que me acompanhava e instalado no banco traseiro – devido a barreira sanitária nem a esposa devia sentar-se ao lado do motorista, sob pena de multa – tinha a autorização profissional de circulação, sem a carteira de documentação, esquecida na sua viatura devido a urgência da missão.

Foi-lhe registado o número telefónico, o endereço e concedido vinte e quatro horas para a apresentação do documento de identificação numa esquadra mais próxima da sua residência, sob a pena de multa ou prisão. Como é possível o jovem segurança, numa esquadra de Santa Rosa, recusar pelo seu próprio testemunho e por duas vezes a sua identificação aos agentes de autoridade?

Custa-me conviver com a banalização e a politiquice na minha terra que desceram a advocacia ao nível da selva e com o contributo de intelectuais e políticos. Para a conveniência humana, eu sou do tempo em que se ensinava na esteira: “soldado pode ser anão, representa a lei com o bastão”.

Ainda longe do pico da pandemia continental, curvo ao Criador que disponibilize a inteligência medical e de sobrevivência suficientes aos são-tomenses. Deus proteja ao mundo, à África e ao meu São Tomé e Príncipe!

12.05.2020
José Maria Cardoso

    2 comentários

2 comentários

  1. estefània

    12 de Maio de 2020 as 23:13

    Deus é maior e capaz de mudar tudo e todos em segundo, basta fé. Seria bom se essas marchas militares acima fossem suficiente para travar o contágio de coronavirus em São tomé e Príncipe. Saúde e paz para nossas ilhas

  2. Rodrigo Cassandra

    13 de Maio de 2020 as 11:48

    Meu caro primo e muito amigo José Maria.
    A muito que não lia teus artigos confesso que já estava a sentir não só saudades como falta deles para completar a minha vida as vezes bastante solitária.
    Neste artigo extenso mas bastante esclarecedor, seria de bom grado se uma parte de políticos pudessem o ler e sobretudo a actual classe política dirigente.
    Nunca fui ministro mas confesso nunca vi um governo de forma tão descoordenado perante uma Pandemia com repercussões gravosas para as populações no ponto de vista sanitário ,social económico e financeiro. mas enfim só nos restaa rezar que Deus vai nos proteger a espera daa vinda de dias melhores,
    Aquele Abraço
    Rodrigo Cardoso Cassandra

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