Opinião

“As consequências do confinamento no meio familiar”

(A minha experiência)
Somos 3 aqui em casa. Eu, minha mulher e o meu netinho Lucas de 8 anos. Como devem calcular, a nossa rotina mudou completamente com o confinamento domiciliar imposto pelas autoridades, na sequência da instalação do Coronavírus em São Tomé e Príncipe. Não tem sido fácil sobretudo para o Lucas, mas nada que não se possa ultrapassar com ajuda mutua.

Nessas situações há que se reprogramar a vida de modo a adaptá-la a nova realidade. Foi o que fizemos!
Como a situação o exige, tivemos que dispensar temporariamente a empregada, que dava um grande apoio a minha mulher nas lides caseiras. O mesmo aconteceu com o nosso jardineiro, ou seja, o faz-tudo da casa, porque para além de tratar do jardim, de uma pequena horta, apoia também em muitas outras situações.

O Lucas deixou de ir à escola, nem poder brincar com os seus amigos do bairro. Não tem sido nada fácil para ele, se bem que o mesmo tem a consciência da situação que se vive, aqui e em toda a parte do mundo, pois, ele segue com muita atenção os noticiários na televisão.

Quase sempre acompanhamos juntos os noticiários e eu ou a minha mulher vamos-lhe explicando as situações que ele não entende bem.

Tivemos que criar uma nova rotina especialmente para o Lucas. Chegou em boa hora a Tele Aulas, na TVS, na RDP- Africa e também na nossa Radio Nacional. Foi uma excelente ideia das autoridades para dar ocupação e manter a aprendizagem dos miúdos. Apesar disso, tornava-se necessário o nosso acompanhamento para esclarecer as dúvidas que surgem das aulas administradas. A seguir as aulas, seguem-se os trabalhos de casa recomendados e que juntamos também a cópia dum texto do livro e a sua leitura em voz alta.

Antes do almoço, o Lucas sabe que tem que por a mesa e dar uma ajudinha a avó na cozinha.

No período da tarde e depois da sesta, é a vez de o Lucas brincar. Temos a vantagem de ter um grande quintal que lhe permita saltar correr como ele muito gosta. Não deixa de ser uma situação desagradável para ele por estar a brincar sozinho, mas aos poucos ele está habituando. Quando não é brincadeira no quintal, o Lucas assiste a televisão sobretudo dos programas que ele mais gosta. Tem sido mais o menos assim a nova rotina do Lucas em tempo de pandemia.

Eu e a minha mulher, tivemos que partilhar as tarefas já referidas tendo em conta a ausência dos nossos empregados domésticos. Confesso que nessa partilha de obrigação caseira a minha mulher esta em desvantagem. Há tarefas de casa que tenho horror de fazer hoje, porque fiz muito na minha infância, como por exemplo, lavar pratos.

Lavei muito prato na minha vida, porque eramos muitos lá em casa dos meus pais, sem contar os dias de visitas ou festas familiares. Tudo porque naquela altura era o único rapaz. Como não cozinhava, não lavava roupa, não tratava da casa, porque essas estavam reservadas às minhas irmãs, coube a mim então a tarefa de lavar pratos. Mas não era só lavar pratos, pois, tratava também do jardim, da horta, enfim, todas as atividades ligadas ao quintal.

Voltando a minha participação em casa em tempo de quarentena. As compras no mercado e nas lojas me eram reservadas. O mais difícil para mim é a compra no mercado porque nunca gostei e com o Covid 19 muito menos devido o risco de contaminação. Em todo caso, só me desloco ao mercado, devidamente protegido conforme as recomendações e apenas em caso de necessidade extrema.

Agora mais do que nunca apercebemos lá em casa a importância de uma pequena horta no quintal. Dá muito jeito, porque os produtos naturais e frescos estão ali a mão e fazem muita falta sobretudo para os nossos pratos típicos e evita a deslocação ao mercado nessa fase de pandemia que devemos evitar locais com muita aglomeração.
Neste momento em que não há quem trata do quintal, tenho feito o que posso para cuidar do horta e do jardim e também para exercitar o físico.

Todavia, a circunstância do Covid 19 e a necessidade da quarentena, ensinou-me algumas coisas. Uma delas é cortar cabelo. Passei a cortar o meu próprio cabelo e o do Lucas, para evitar a deslocação ao barbeiro e minimizar o risco de contaminação. Dei conta que, afinal, tenho também habilidade para ser barbeiro.

Tenho feito quase tudo e até experimentei algumas receitas de petiscos para o pequeno-almoço extraídas da internet, sempre com ajuda do Lucas. Alguns saiam bem mas a maior parte nem tanto. Fazia questão de não contar com a expertise da minha mulher para verificar até onde ia a minha performance culinária. Devo dizer que duma maneira geral foi um desastre… A culinária nunca foi o meu forte. O que vale é que ninguém teve desarranjo intestinal aqui em casa.

Tenho passado alguma parte do tempo a ler. Como a minha pequena biblioteca esta um pouco velha, pois, esses últimos tempos não tenho adquirido novos livros, estou a reler alguns que já tinha lido há muito tempo.

Mas, o que me tem consumido a grande parte do tempo, é mesmo as redes sociais. Esse bichinho que chegou e já não consigo me libertar dele. . Mas afinal, o que ando a fazer nas redes sociais? Como sabem, as redes sociais é uma diversidade de ferramentas e atividades ao nosso alcance em que utilizando um computador, uma tablet ou um smartphone, podemos consultar uma serie de assuntos, ler artigos, livros que nos agradam, ouvir notícias, debates, pesquisar temas de nosso interesse e muitas outras coisas. É o que tenho feito. Decididamente os textos e leituras virtuais estão a ganhar a corrida em relação aos livros na sua forma de papel. Sobretudo nesta fase em que estamos confinados, tem dado ‘muito jeito.

Também a música tem feito parte do nosso passatempo, mas sempre através de pesquisa feita na internet ou canais de músicas na TV, porque confesso que não compro um disco há muito tempo.

Dentro das redes sociais temos o Facebook muito utilizado aqui no Pais. Já utilizei mais essa plataforma, participando nos debates sobretudo, mas devido a má qualidade de discussões que se tem proporcionado ultimamente, muitas vezes com insultos, difamações, mentiras, calúnias, linguagens improprias, que no meu entender devíamos dispensar nesta fase pandémica em que a abordagem deve ser outra no sentido de estarmos mais unidos, com vista a debelarmos essa terrível doença o mais rápido possível.

Por tudo isso, decidi suspender a minha participação nesses debates, para não contribuir mais para ruídos que se tem verificado. Enquanto isso, vou publicando sempre que puder alguns artigos e vou-me interagindo com os meus amigos em privado. Já agora, quero aproveitar a oportunidade para agradecer alguns deles que me contactaram por telefone ou mensagens privadas, preocupados com a minha ausência nos debates.

Graças a possibilidade que as novas tecnologias de comunicação como Messenger, WhatsApp, Viber, Twitter, Instagram etc., nos oferecem hoje, temos a oportunidade de estarmos permanentemente em contacto com os familiares fora do Pais que também tem vivido o mesmo drama. Há dias estive a falar com o meu filho e a mulher que vivem em Inglaterra ele dizia-me que nós aqui em São Tomé temos a vantagem de ter um amplo quintal em que podemos movimentar mais. É verdade! Não é o caso deles que estão irremediavelmente confinados num apartamento exíguo no andar de um prédio.

Como é óbvio, nessas conversas não faltam conselhos de cuidados redobrados e cumprimento das normas de proteção determinadas pelas autoridades. Mas não pensem que são apenas conselhos dos mais velhos para os mais novos. Não! Os conselhos são recíprocos, cada um exemplificando experiencias vividas nos Países onde se encontram. Alias, um dos meus filhos, nora e netos estão justamente no Pais onde iniciou o Covid 19.

Portanto, a nossa preocupação e receio em relação a doença, começou muito antes de ter chegado a São Tomé e Príncipe. Por isso é que de certo modo beneficiamos das experiencias deles. Denota-se maior preocupação dos nossos filhos em relação a nós, talvez por saberem que temos a idade mais vulnerável a doença.

Eu tenho assistido pouco a televisão sobretudo os noticiários porque acho que fala-se exageradamente do Covid 19 e as suas repercussões. Causa-me algum pavor e não contribui para a minha estabilidade psíquica nesta fase. A minha opção tem sido para os programas de entretenimento, musicas e rever algumas partidas de futebol.

É assim que temos tentado aqui em casa driblar o peso do confinamento. Devo dizer que não tem sido fácil embora tenhamos a consciência de que é um mal necessário. É uma das formas de quebrar a cadeia de contaminação para além das regras higiénicas sobejamente conhecidas.

Mas a grande dúvida é mesmo de saber para quanto tempo mais vamos viver essa situação?…
Nessas circunstâncias é que damos a importância da nossa liberdade. A liberdade de visitar e estarmos juntos dos nossos familiares, dos nossos amigos, de estarmos num restaurante ou café a tomarmos uma bebida qualquer, de deslocarmos a uma mata para contemplar a natureza, de irmos as praias dar uns mergulhos e escutar o som das ondas do mar.

Já tenho saudades da concentração da rua Padre Martinho Pinto da Rocha, mais concretamente o passeio em frente da loja Kizomba, local onde todas as tardes a partir das 5 horas um grupo de amigos em que faço parte, se concentravam para tomar uma cerveja fresca ou um copo do tinto ou um sumo qualquer.

O objetivo é proporcionar uma conversa sã, sem agenda nem ordem do dia, para quebrar o gelo das vicissitudes do dia-a-dia. Cada um vai chegando a hora que quiser e quando dermos conta já somos muitos. O Bate-papo continua até que cada um começa a dispersar-se, normalmente, um pouco antes da hora do jantar.

Caros companheiros, acreditem que já tenho saudades Vossas e de esse convívio saudável, que nenhum telefonema nem mensagens substitui. Havemos de voltar em breve!

Perdoem-me este desabafo, mas senti a necessidade de partilhar essa minha experiência de confinamento domiciliar como forma de exteriorizar e libertar os meus sentimentos, as minhas emoções, as minhas preocupações, as minhas incertezas e os meus medos, vividos nesses dias tenebrosos que espero não demorar muito mais tempo. Até lá, por favor, cuidem-se!

São Tome, 23 de Maio de 2020
Fernando Simão

    5 comentários

5 comentários

  1. Hilario B

    26 de Maio de 2020 as 12:30

    Excelente crónica, fossem todos os são tomenses assim…

    • Lima

      27 de Maio de 2020 as 8:49

      Com todo o respeito,senhor Hilário B. Se todos os São tomenses fossem assim o país seria uma grande maçada. As pessoas não têm que pensar e agir todas da mesma forma. É assim que tentaram fazer na primeira república com os resultados e consequências que se conhece até hoje. Todos estamos a pagar um preço caro desta mania das pessoas serem obrigadas a pensar todos da mesma forma como se queria fazer na primeira república. Por isso é que não se vê pessoas hoje em dia, com criatividade, espírito crítico, responsabilidade, etc. Toda a gente foi obrigada a pensar a agir da mesma forma durante muito tempo, o que criou dependência excessiva, pouca responsabilidade, pouco espírito crítico.

  2. Nita

    26 de Maio de 2020 as 13:29

    O Lucas tem um grande avô! Continue tomando as medidas que tudo vai correr bem. As compras pode algum familiar fazê-las por si. Quando receber, lave tudo muito bem, com água e sabão, alimentos crus pode ser com água e vinagre. Lave bem as mãos e o saco plástico. O que der para deixar de quarentena pelo menos 5dias,deixe num cantinho. Força amigo! Já sou sua fã…

  3. Inconformado

    26 de Maio de 2020 as 15:20

    Quem é esse santomense tão humilde e espectacular que eu não conheço?!

  4. flavio costa

    26 de Maio de 2020 as 17:26

    A boa educacao vem do berco. Parabens por esta modesta contribuicao .
    O meu amigo fez a diferença

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