Estudos

São Tomé e Príncipe nos textos de apoio de história (1470-1595)

A REPRESENTAÇÃO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE NOS TEXTOS DE APOIO DE HISTÓRIA (1470-1595): ANÁLISES E PROPOSTAS DIDÁTICAS

No âmbito da escrita da minha monografia, para obtenção do título de licenciado em História pela Universidade da Integração Internacional Afro-Brasileira (UNILAB) no Campus dos Malês, na Bahia, coube um debate teórico referente às análises dos textos de apoio de História de São Tomé e Príncipe, por meio de propostas didáticas que podem e precisam ser, pedagogicamente, pensadas e colocadas em prática nas salas de aula do Ensino de História no arquipélago, numa perspectiva de formação de professores, crianças, adolescentes e jovens são-tomenses.

De forma resumida, este trabalho monográfico tem como abordagem metodológica o uso de um levantamento bibliográfico, revisão da literatura, pesquisas e discussões sobre os textos de apoio em termos de análises dessas fontes históricas, assim como, a aplicação e análise de entrevistas, que nesse caso foi efetuada com os demais alunos e alunas são-tomenses estudantes da UNILAB e residentes no Brasil, com o intuito de perceber como eles e elas percebem o Ensino de História de São Tomé e Príncipe, enquanto antigos estudantes das escolas secundárias nas ilhas.

A pergunta de pesquisa sustenta-se da seguinte maneira: como é que a História de STP está representada nesses textos de apoio? Através deste questionamento, fiz uma busca por esses textos no sentido de obtê-los, digitalmente, para depois lê-los e ter uma noção mais ampla sobre os conteúdos que se encontram nos mesmos. Uma vez adquiridos, especificamente os textos de apoio de História da 7ª, 8ª, 9ª, 10ª, 11ª e 12ª Classes, procurei fazer numa primeira fase, o recorte temporal de pesquisa, nesse caso, como diz o título deste artigo e da monografia, esta investigação deu prioridade para os textos que abordam contextos históricos relacionados à STP, a partir dos finais do século XV até os finais do século XVI (1470-1595). Ou seja, mediante uma reflexão sobre o processo histórico e historiográfico do arquipélago, desde a chegada dos portugueses, passando pela primeira colonização das ilhas, até a revolta do Rei Amador.

Assim sendo, esta monografia está dividida em três partes ou capítulos: no primeiro, foi realizada uma discussão teórica e conceitual sobre a representação enquanto uma categoria válida, científica e histórica de pensamento, no que diz respeito a um estudo sobre o potencial imagético, oral e escrito desses textos quanto à representatividade do protagonismo e ações históricas preconizadas, sobretudo, por são-tomenses; na segunda parte, fiz uma conceitualização dos textos de apoio, enquanto um material didático importante para ser implementado em sala de aula, e paralelamente, também foi feito um debate bibliográfico sobre as carências de confecções dos manuais escolares de História no país, produzidos pelos próprios são-tomenses e o recurso aos mesmos nas aulas desta disciplina ou componente curricular; já no terceiro e último capítulo, buscou-se uma sistematização de análises de inúmeras fontes históricas presentes em determinados trechos dos textos analisados, especificamente, nos da 7ª, 8ª, 10ª e 11ª Classe, que são os que possuem, quanto às temáticas e os índices apresentados nessas obras, uma conexão direta com a história de STP nos séculos XV e XVI, juntamente, com sugestões de outras epistemologias pedagógicas, fontes históricas dialógicas e complementares aos conteúdos apresentados nesses textos de apoio.

Trata-se de um tema importante, que ainda carece de debates e problematizações no contexto educacional, histórico, político, social e cultural no sistema de ensino formal são-tomense, tanto na esfera pública como privada. Na medida em que, esta questão possui uma relevância para o enquadramento e utilidade dos textos de apoio, materiais didáticos e manuais escolares de História nas salas de aulas, levando em consideração o fato desta ser uma das disciplinas letivas cruciais para a formação identitária da população e futura geração são-tomense no mundo. Sem perder de vista que, existe também uma necessidade urgente de pensarmos este Ensino de História numa perspectiva crítica ao eurocentrismo, diante de uma priorização das correntes de pensamento descolonizadoras, afrocêntricas e que, acima de tudo, valoriza a diversidade cultural e historicidade protagonizada por sujeitos históricos de STP no continente africano.

Nesta senda, torna-se necessário dizer que: não foi levantada uma bandeira no sentido de rejeição total das contribuições e parcerias com as instituições ou governos europeus. Até porque esses textos de apoio de História existem devido a colaboração com organizações e o próprio governo português, sem esquecer que, de uma forma geral os conteúdos e fontes ali apresentados, permitem uma abordagem de ensino e aprendizagem com potencial historiográfico, a exemplo, da temática sobre a existência dos reinos e impérios na chamada Idade de Ferro no continente africano. Mas nem tudo são flores e bons sabores. Na medida em que, há lacunas, nomeadamente, em determinadas abordagens didáticas nesses textos, que ainda colocam os sujeitos europeus como o centro ontológico do saber e do conhecimento. Isto sim precisa ser identificado, problematizado, analisado e discutido, não só por políticos e pessoas com formação na área, como também, se possível, com os habitantes das duas ilhas e as diásporas são-tomenses.

Com base neste trabalho, foram feitas também, propostas de fontes e conteúdos históricos, a exemplo de gravuras, literaturas e filmes, para esses materiais didáticos, que sejam capazes de abordar, criticamente, assuntos como a escravidão, colonização e racismo. Assim como, problematizar a escassez de fontes históricas sobre o papel preponderante desempenhado pelas mulheres no decorrer do jugo colonial e uma abordagem crítica à ideia de que fomos apenas “descobertos” por determinados portugueses, com o intuito de transmitir o pensamento de que tais processos e narrativas foram agressivas e estruturais, causando efeitos problemáticos de desigualdade ao nível identitário, gênero, social e cultural no país até o presente momento. Desta forma, recomenda-se um Ensino de História que enalteça a resistência e o protagonismo da população são-tomense e africana em relação às lutas e revoltas contra o sistema escravista de outrora. Esta não é uma tarefa fácil, porque envolve várias estruturas e interesses sociais, culturais, internacionais e econômicos no país, mas não é impossível, partindo do princípio que os primeiros passos para a mudança, construção descolonizadora ou virada epistemológica, passa pelo reconhecimento do problema e a preponderância de debates como este para STP.

Portanto, apesar desta monografia estar finalizada, no sentido académico da palavra, ainda existem margens para pensar, re-pensar e questionar este assunto, e um deles é a forma como esses textos de apoio e materiais didáticos de História estão sendo aplicados ou não pelos professores em sala de aula. Embora esse questionamento não seja a principal tarefa deste trabalho e do artigo em voga, julgo que ele também é necessário e complementar para o que foi transmitido e debatido até o momento. Posteriormente, pode ser realizada uma pesquisa de campo ou trabalho etnográfico no «nosso solo sagrado», sobre a aplicação desses textos de apoio e materiais didáticos de História aos alunos e alunas são-tomenses. Por outras palavras, os desafios são colossais e é provável, pelo menos assim espero, que já apareçam ideias, motivações, críticas e sugestões nas cabeças dos caros leitores e leitoras, diante da representação deste artigo de opinião. Deixo como sugestão de leitura a minha monografia, disponível num link presente nesta matéria informativa.

Escrito por Lauro José Cardoso, bacharel em Humanidades, licenciado em História e mestrando em Arqueologia e Património Cultural no Brasil

 

    4 comentários

4 comentários

  1. Tomas Mendonça

    21 de Outubro de 2020 as 16:21

    Muito obrigado por partilhar este artigo.
    As questões colocadas são muito pertinentes porque infelizmente temos muitas interrogações sobre a nossa história e cultura devido falta de dados para as justificar.
    E o povo que não conhece a sua real história e cultura, não consegue defender a sua Pátria.
    Um bem haja

  2. José Cardoso

    21 de Outubro de 2020 as 22:21

    Uma interessante e necessária abordagem e um grande contributo para o início da compreensão da nossa existência enquanto nação. Excelente Lauro!

  3. Nuno Loureiro

    21 de Outubro de 2020 as 22:37

    Pode ser um estudo muito interessante!

    Mas o link que refere Lauro Cardoso não está, infelizmente, activo.
    Não é, então, possível aprofundar a leitura…

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