Opinião

Natal: Deus que vem

Falar de um Deus próximo num mundo em “naufrágio” soa como algo estranho e até pode parecer contraditório. Esta sensação agudiza-se ainda mais quando pretendemos associar estes dois eventos e queremos fazer com que eles se tornem compatíveis. Na verdade, perante o drama do sofrimento humano a incursão pela culpabilidade de Deus é na maior parte atribuída a Ele.

No entanto, o sofrimento não é uma objeção contra Deus porque não é uma afeição passiva, mas um deixar-se afetar ativo. Se Deus olha com compaixão, isso não significa a desdivinização de Deus nem a divinização do sofrimento. Ora, Deus não diviniza o sofrimento, antes pelo contrário, redime-o. Na verdade, a omnipotência do amor de Deus ultrapassa a impotência do sofrimento.

Esse amor revela-se impassível porque não se altera. Deus impassível, que parece não dizer coisa alguma, silencioso, é o Deus cujo amor não se altera e não é indiferente, mesmo quando por amar Se compadece dos desvalidos no caminho.

Esta presença de Deus somente pode ser entendida com um excesso de um “Deus-que-não-é-senão-Amor”. O puro ato de Amor revelado no seu fazer-se próximo, que se torna realidade com gestos de misericórdia e humildade. E o Natal é isto: “a festa da humildade de Deus” (card. Cantalamessa), do Deus que se despe da sua manta divina, saindo do seu lugar de conforto, aliás rebaixando, decide montar a sua tenda entre os homens, para acampar entre nós. Ou seja: o Deus da História é um Deus que, além do Divino, é Humano-Próximo, que não nos espreita somente a partir das janelinhas do Céu, mas que, vendo-nos na estrada meio mortos, aproxima-se de nós para nos socorrer.

Biblicamente, sobretudo pela tradição apostólica, torna-se evidente os gestos concretos desse Deus, que nunca passou a margem da miséria humana: olhou com misericórdia, sarou os corações dilacerados, ligou as feridas, lavou os pés aos discípulos, sentou-se à mesa para comer com os pecadores e os desvalidos da sociedade de então e, sobretudo, aceitou o sofrimento no seu próprio corpo e quis também saborear a morte. Há amor maior do que isso?

Portanto, o Deus-próximo é Aquele que vem ao nosso encontro, numas palhinhas, e quis revelar o Seu rosto, com simplicidade e humildade. Que nós sejamos o lugar da revelação desse Deus para outros! Um Natal santo e feliz a todos e a cada um.

Francisco Salvador

    4 comentários

4 comentários

  1. Leonild Cassandre

    28 de Dezembro de 2020 as 10:10

    Um excelente artigo e que chega na hora oportuna, mas que sinceramente eu devo dizer que está um pouco confuso relativamente ao “Deus” que o artigo refere varias vezes. Quem foi enviado? Quem enviou quem? Onde podemos encontrar na Bíblia que Jesus Cristo é Deus?

    • Leandro Lavres da Costa

      5 de Janeiro de 2021 as 15:58

      João 1:1, 14
      Isaías 9:6

  2. Leonild Cassandre

    28 de Dezembro de 2020 as 10:30

    Todo o ato quer de caracter político, judicial, religioso e mais deve ter um fundamento. O Cristianismo não foge a regra, se funda na sagrada Escritura, a Bíblia, eu acho indiscutível. Por isso pergunto onde está o fundamento do ” Natal de Jesus Cristo em 25 de Dezembro”
    Eu deixo um silogismo ” Se a palavra de Deus é verdade. O 25 de Dezembro não consta. Então é falso essa data.” Não quero com isso dizer que não respeito. Eu respeito o ponto de vista do outro. Se alguém souber onde está este facto registado, que me informe, por favor.

  3. Adilson

    28 de Dezembro de 2020 as 11:31

    Que seja sempre Emanuel: Deus connosco

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