Opinião

3 de Fevereiro e a Pandemia de Covid-19

A celebração da data de 3 de Fevereiro que simboliza o Massacre de Batepá em S. Tomé e Príncipe este ano ocorre  num contexto totalmente diferente em relação aos anos anteriores desde a proclamação da independência em 12 Julho de 1975.

Com efeito, o surto do Coronavírus (Covid-19) na cidade de Wuhan, República Popular da China, há cerca de um ano e que se alastrou pelo resto do mundo, inclusivé S. Tomé e Príncipe, constitui não só uma preocupação de natureza sanitária mas também um tema que merece uma profunda reflexão.

Centenas e mesmo milhares de santomenses, na sua maioria jovens, que anualmente participam nessa espécie de romaria que começa de manhã cedo de 3 de Fevereiro na Praça da Independência em direcção à Praia de Fernão Dias onde está o memorial com os nomes de muitas das vítimas desse triste acontecimento não poderão observar esse formato este ano.

A marcha deverá ser substituída por uma profunda meditação por parte de cada santomense (inclusivé na diáspora) tanto sobre o significado e o alcance da data (ou do mês se quisermos) quanto as realizações que testemunham a reivindicação do direito à autodeterminação e independência (ou a insuficiência dessas realizações). Atendendo as condições em que vive a maioria dos nossos concidadãos, quero acreditar que após a meditação cada um de nós terá muitas questões a colocar a quem de direito.

Aqueles que habitualmente só pensam em si e nos seus talvez concluam que está tudo bem! Todavia, muitos de nós preocupados não só connosco mas também com os nossos vizinhos teremos uma opinião diferente. Não se trata apenas do sistema nacional de saúde que está deficiente e consequentemente não responde de forma adequada as necessidades das populações. É toda a organização social, económica  e política prevalecente que carece de reforma urgente se quisermos evitar o pior.

São as políticas públicas do sector de saúde bem como de outros sectores que devem ser revistas. A cooperação internacional vem apoiando na medida do possível a luta contra o Covid-19. Aliás, graças a essa cooperação as Autoridades têm conseguido gerir a situação criada pela pandemia cujos resultados em termos de óbitos poderiam ser mais alarmantes.  Mas, o esforço maior terá de ser a nível endógeno quanto a formação de pessoal especializado, criação de infraestruturas sanitárias, produção de consumíveis, etc.

Por outro lado, é legítimo perguntar se mais de dois terços da população estariam a viver abaixo do limiar da pobreza caso os sobreviventes do Massacre de Batepá tivessem sido chamados a participar nas grandes decisões que foram tomadas ao longo desses quase 46 anos de independência. A maioria não tinha um elevado conhecimento académico, mas muitos eram funcionários públicos que constituíam a “espinha dorsal” da Administração colonial.

Além do mais, a tradição oral em África é uma fonte importante para a manutenção da história. Logo, aqueles que tinham menos conhecimentos formais poderiam de alguma forma dar a sua contribuição. Em todo caso, segundo o velho ditado: “nunca é tarde e mais vale tarde do que nunca”. O que importa é começar.

Neste dia 3 de Fevereiro de 2021, faço votos que a celebração de 3 de Fevereiro de 2022 e dos anos seguintes tenha lugar em contextos mais promissores e portadores de mais esperança para as famílias santomenses.

Bem haja.

    6 comentários

6 comentários

  1. Lucas

    3 de Fevereiro de 2021 as 14:39

    Mais de 40 anos perdidos

  2. Victorino Andre

    3 de Fevereiro de 2021 as 17:39

    Ppis 3 de Fevereoro é uma data impar para nós os Santomenses relembraremos desta data de geração em geração
    Foi o massacre de Baptepâ onde muitos foram mortos na opressão colonial
    Temos hérois que muito lutou para que sao tomé e Principe fosse livre
    Devemos aprender a ser unidos pois só assim a vitoria vivá
    Viva sao tomé e Principe
    Nossa patria Querida
    Deus abençoa nossa terra

  3. SEMPRE AMIGO

    4 de Fevereiro de 2021 as 10:30

    Que salada, meu Deus! O que é que o dr. Helder pretende trazer á ribalta? Só me fez lembrar a letra de uma canção brasileira, que diz:”EU TAMBÉM SOU DA FAMÍLIA,TAMBÉM QUERO REBOLÁ “.O TÉLA NÓN tem que começar a cobrar algum valor pelo espaço ocupado.

    • Leonel Barros

      25 de Fevereiro de 2021 as 4:16

      O meu amigo é um ignorante o mesmo ou seja o artigo trata se de reflexão dado a data e também pelo contexto. Tenho pena que muitos que dirigem hoje o país não conheça a sua história. Tenho dito.

  4. Guilherme

    4 de Fevereiro de 2021 as 11:04

    Obrigado Dr. Helder pelo artigo. Contudo, gostaria apenas de acrescentar que já é tempo dos nossos historiadores, sociólogos ou especialistas afins, com bases cientificas, investigarem mais os factos, argumentar e publicar. Para o efeito, felizmente, ainda estão vivos alguns heróis do massacre de 1953, e estes devem ser aproximados, acarinhados e inseridos na historia de libertação do pais. Como sabemos, iminentes intelectuais de STP, questionam o feriado de 3 de Fevereiro, como também questionam, se foi um massacre ou uma guerra. Enfim, apenas buscando mais e melhor conhecimento dos peritos na matéria.

  5. Zé de Neves

    9 de Fevereiro de 2021 as 11:41

    Isto sim é que galgar à força toda os factos históricos.

    Entretanto chega mais um carregamento de ajuda humanitária do Japão, sim Ajuda Humanitária, que se mais não fosse uma confirmação do falhanço colectivo não sei que nome se lhe poderia dar!!

    Começa a ser insultuosa a referência a Batepá pelas bocas das elites nacionais. Não houve, não há nem nunca houve, projecto nacional. Betepá foi tão só uma oportunidade aproveitada por oportunistas se instalarem. Assim é desde 1975, tempo demais para um povo que ousou sonhar e que continua de estômagos vazios e brutinhos de conhecimento e ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo