Opinião

Meus Arrepios:  as presidenciais 2021 e a nossa saúde

  • Presidenciais

Dentro de alguns meses, o país deverá voltar ao frenesim habitual das eleições. Teremos as eleições presidenciais de 2021. O guião já é sobejamente conhecido. Já vão sendo percetíveis algumas movimentações no terreno, as avaliações preliminares de putativos candidatos, o marketing de sloganscom carga de afinidade com o “Povo”, os rumores barulhentos sobre que candidato já reuniu maior capital, e por aí fora…

Todos os actos eleitorais são importantes. Ao fim e ao cabo, obedecem à lógica da democracia, que na sua essência fundamental, permite que periodicamente se renovem os mandatos daqueles que se propõem a dirigir os destinos da Nação.

Entretanto, quando se trata de eleições presidenciais, há dois aspectos que gosto particularmente de ver formulados: o primeiro tem a ver com a ideia de que é atribuído ao/à Presidente da República importantes prerrogativas constitucionais, que desejavelmente, deve usar para garantir o regular funcionamento das instituições. O segundo aspecto – é o meu preferido muito por força do nosso contexto histórico desde 1990-, sugere que o/a Presidente da República deve assumir um papel suprapartidário que harmonize a sociedade em todas as suas manifestações. Suponho que seja uma combinação destes dois aspectos que encerra o significado de uma das expressões mais corriqueiras no nosso léxico político: “magistratura de influência”.

Estas eleições decorrerão ainda no contexto de pandemia do COVID19. Ao contrário do que seria de esperar, a singularidade destas eleições, não está relacionada com a perturbação que pandemia sujeitou as nossas vidas. A título pessoal, o trago de singularidade está no facto de após longos anos a viver na diáspora, vá pela primeira vez exercer o meu direito de cidadania numa urna algures “aqui” no país. No balanço do baloiço que as mudanças as vezes geram, assumi com os meus botões, serão aquelas em que procurarei ter uma posição mais activa. Começando por não me coibir ou acanhar de emitir a minha opinião sempre que me sentir impelido em fazê-lo.

Então aqui vai.

Durante a última semana houve alguns desenvolvimentos na esfera política nacional que frustraram a minha expectativa e me deixaram muito preocupado. Do que se tratou?

Comecemos pela frustração de expectativa.

Soube que o partido MLSTP, reunido em Conselho Nacional recentemente, elegeu e indigitou o seu candidato para concorrer às presidenciais. As minhas felicitações ao candidato, que por sinal, é um amigo por quem nutro admiração e familiaridade “não consanguínea”.

Na verdade, eu estava muito expectante que o MLSTP pudesse inaugurar a prática de primárias, como processo de escolha e indigitação do seu candidato às eleições presidenciais. A julgar experiência política dos concorrentes oriundos das suas fileiras, pareciam estar reunidas todas as condições para o fazer: tudo gente com peso político dentro do partido: dois antigos presidentes (um dos quais também foi primeiro-ministro), uma antiga primeira-ministra, e uma antiga ministra e actual vice-presidente (estas duas últimas com experiência de presidências no passado com muita relevância).

Num país onde não tem sido habitual os eleitores a possibilidade de ver e ouvir os candidatos às eleições presidenciais, confrontarem as suas ideias e posições sobre o que pretendem para o país, teria sido uma oportunidade extraordinária permitir, não só a base eleitoral do MLSTP, mas também todo o país, fazer um pré-escrutínio sobre os candidatos.

Este exercício, a meu ver, seria muito benéfico para a nossa democracia e resultaria seguramente na tomada de decisões com melhor informação, e portando, mais acertadas.

Ao que parece, a liderança do MLSTP assim não entendeu. Penso ter sido uma oportunidade extraordinária que foi perdida. Terá vencido, mais uma vez, um tal conservadorismo resistente que apregoa grandes reformas, mas que depois fraqueja logo no primeiro confronto com o que está enraizado. Uma pena .É o sentimento com que fico.

Até aqui, tudo mais ou menos tranquilo. Não me parece razoável que não sendo militante do MLSTP – como aliás não sou de qualquer outro partido-, pretenda reclamar mudanças nas regras internas ou do modo como o jogo é “jogado”.  Resigno-me a emitir a opinião e a ficar no meu canto.

Mas o que veio a seguir já me intranquilizou. Como aliás penso ter intranquilizado uma boa parte do país que tomou conhecimento do que veio a seguir. Aconteceu – ao que parece, que o conclave reunido, além da indigitação do candidato, terá também aprovado uma resolução que obriga os membros do partido que sejam titulares de cargos de alta responsabilidade na Administração do Estado -portanto de nomeação por confiança política-, a cumprirem a disciplina partidária, ou seja apoiando e votando no candidato indigitado pelo partido. Caso não o façam serão exonerados.

Ainda não ouvi os doutos juristas do país sobre esta iniciativa. Em todo o caso, mesmo para muitos de nós que não tem domínio sobre o “jurisdiquês” destas coisas, uma medida destas soa a qualquer coisa de errado. Não tenho a certeza que seja inédita na cronologia política desde o advento da democracia (1990), mas estou seguro de que é profundamente indesejável e infeliz.

Tenho para mim que para além de ser muito difícil de pôr em prática do ponto de vista administrativo – a não ser que para o efeito criassem uma unidade dos serviços secretos para vigiar e monitorar estas pessoas-, é inaceitável e inacreditável que o maior partido da governação adopte uma tal medida nos termos em que foi apresentada: num documento oficial vinculativo.

Não me parece, sinceramente, que o MLSTP pretenda recriar em 2021 coisas do nosso passado colonial de muito má memória, e que ao mesmo tempo, representa um contrassenso em relação aos discursos de renovação e modernização que se vão ouvindo por aí.

Como cidadão atento, gostaria muito que a liderança do MLSTP, fizesse uma pausa e com calma reflectisse melhor sobre o precedente criado, pois ainda vão a tempo de corrigir a mão.

Mesmo o argumento de que os estatutos do partido permitem ou recomendam medidas desta natureza em situações de disputa interna, estou esperançoso que os estatutos de nenhuma organização do nosso país possam ferir os princípios da Constituição da República. Se optámos por um Estado de Direito e querendo mantê-lo, a liberdade de opinião e, por maioria de razão, o voto, deve ser livre e respeitado. Isto só reforça a força das instituições e não as diminui.

Parece-me óbvio que, em primeira instância, os titulares de poder público devem obediência à defesa dos superiores interesses do país e não aos seus partidos ou qualquer outra congregação da qual possam fazer parte. Doutro modo, estaremos simplesmente em presença da “folclorização” da democracia.

O MLSTP, como partido histórico e co-fundador político da nação, tem uma responsabilidade acrescida de seriedade que não deve malbaratar, criando um precedente inquietante e desnecessário.

Estou convencido que serão capazes de corrigir a mão. Nunca é tarde de mais para fazer a coisa certa. Queremos ter uma disputa aberta, livre e transparente que permita ao eleitorado conhecer as propostas de todos os que desejam ir a concurso e tomar as suas posições com base na sua vontade própria. Esta coisa de decidir pela nossa própria cabeça é fundamentalíssima para o progresso e bem-estar.

2-Saúde

Durante toda a pandemia e, em particular nas últimas semanas, têm circulado na praça pública uma série de questões (ou talvez mesmo, polémicas) envolvendo os profissionais de saúde do nosso país. Eu sou defensor da lógica que promove formas de escrutínio por parte da sociedade civil sobre tudo quanto afecta comunidade como um todo. Sobre o tema em presença, sou solidário com as muitas das vozes que vêm reclamando sobre várias situações indesejáveis que ainda persistem ao nível do nosso sistema de saúde, não obstante estar muito consciente de se tratar de tema de enorme complexidade

Todavia, julgo ser igualmente é imperioso reconhecer, o papel fundamental que os nossos profissionais do sector têm prestado ao país e às suas gentes, não obstante as imensas dificuldades que todos conhecemos. É mesmo uma questão de humanidade.

Eu fui infectado com o COVID-19 e garanto-vos que não fui assintomático. Longe disso. Durante a recuperação, fui testemunha orgulhoso do profissionalismo e carinho com que fui assistido pela equipa COVID-19 do Distrito de Mé-Zóchi. Ao que soube mais tarde, muitos doentes com sintomas mais ou menos prevalentes, tiveram igual tratamento.

Muito habituados que vamos estando em apontar o dedo só as coisas que não funcionam, eu quero aqui agradecer e saudar o pessoal da saúde do nosso país, pela dedicação e esforço que têm posto ao serviço da nossa saúde colectiva durante estes tempos de sofrimento, angústia e dificuldades para muitas famílias

Um particular abraço à equipa do Posto de Saúde da Trindade, na pessoa da sua delegada, a médica Gesiry Mascarenhas, ao médico Afílisio Espírito Santo (qual invasor marciano que durante semanas a fio, foi irrompendo pelo quarto onde me encontrava isolado, sempre carregado de boa disposição, esperança e o seu kit de dá nguê flossa), ao enfermeiro Henrique Frota e demais equipa.

Partilho aqui a foto das flores entregues pessoalmente ao Dr. Afílisio em forma de agradecimento logo a seguir a ter recebido os resultados do teste PCR que confirmava que eu já não teria COVID-19. Na verdade, a simbologia do agradecimento é extensiva a todos aqueles que têm com a sua dedicaçãoe sentido de humanidade feito o que podem para garantir melhor saúde aos santomenses.

Houve mais flores. Aos meus pais (Didi e Camblé) e outros amigos que me acompanharam naqueles dias. Então a minha mãe, nem dá para falar aqui porque não consigo. Desculpem-me.

Um bem-haja.

Um abraço

Luiselio Salvaterra Pinto

 

    4 comentários

4 comentários

  1. Povinho

    30 de Março de 2021 as 9:06

    Que eleições o shr Luiselio está a falar? O shr acha que com estas alarmantes situações de crises institucionais com a falta de competências, e ninguém faz nada venham agora chamar o povo as eleições? O país está mergulhado num caos nas mãos de uns senhores paralisados assistindo crimes bárbaros como o que aconteceu na PJ em que o África passa por cima da lei e da Justiça tirando a vida a um jovem. Casos de pedofilia até envolvendo os mais altos níveis. Quem a final é dirigente deste país? A lei e a constituição não funcionam e só sabem chamar o povo as eleições? Vejam bem quem são os candidatos se não são os mesmos. Até parece uma anedota e palhaçada.

  2. SEMPRE AMIGO

    30 de Março de 2021 as 11:42

    É! Também eu, senhor Luisélio Pinto,até hoje estava convencido que nenhum partido político santomense havia utilizado as primárias para escolher o seu candidato preferido.ás presidenciais.Após a leitura do seu texto de opinião e debatendo com um dirigente do MLSTP|PSD,o mesmo manifestou o seu espanto.Segundo ele o MLSTP\PSD, já em 2001 havia inaugurado(pela primeira vez em Africa)as primárias, com vista a decidir sobre o candidato que iria merecer o apoio do partido.Os pré-candidatos deveriam apresentar-se ás Assembleias Distritais e Regional organizadas para o efeito.O mais original em tudo isso é que as referidas Assembleias estavam abertas por um lado á população em geral e também aos candidatos não-militantes do MLSTP|PSD.Os dois pré-candidatos mais votados nas DISTRITAIS e REGIONAIS deveriam ser submetidos á votação num congresso extraordinário organizado para o efeito.A última etapa do processo seria por conseguinte,a ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA.

  3. Sem assunto

    30 de Março de 2021 as 18:54

    Diga lá o que tu queres Luiselio, e deixa de verborreias inúteis. Tacho? Fica difícil, primeiro porque o PCD da tua família anda de arrastões e está prestes a desaparecer, segundo porque nunca mostraste as tuas reais valências, desconhece se o que realmente sabes fazer de concreto, terceiro porque este povo embora ignorante e viciado, em álcool e gorgetas, não suportam narcisistas.
    Traga um projeto estruturante para empoderar os jovens mézo-chianos, talvez assim terás o meio caminho andado para as tuas ignóbeis ambições.
    Credo, nenhum joven desta nação quer desenvolver se e evoluir fora da política, que cenário caótico.

  4. Feliciano Santos

    31 de Março de 2021 as 14:05

    Ao sr.”Sem Assunto”, ou melhor sr. Bota Abaixo. Não sou advogado de defesa do sr. Luiselio mas permita-me lhe dizer uma coisa, o sr. está há anos luz das capacidades do jovem em causa. Basta ver como o sr. ataca o jovem em vez de criticar o assunto ou o tema e mais ainda sob capa do anonimato. Vai se ver ao espelho homem antes de fazer essa figura parva. E tenha um bom dia.

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