Opinião

Sobre a revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal

SOBRE A REVOLUÇÃO DE 25 DE ABRIL DE 1974 EM PORTUGAL

(Extrato de um dos capítulos de uma longa história)

“…naquela altura o Nando já possuía um radio a pilha e seguia o exemplo do seu pai, professor João. Ligou o rádio na madrugada do dia 25 de abril de 1974, como era habitual para ouvir as emissões de Voz de América, Angola Combatente, Voz de Alemanha e outras mais. Apercebeu-se que as emissões eram diferentes relativamente aos outros dias. Mais músicas e poucas palavras. Algumas estações interrompiam a música durante a programação para dizer que se passava algo de grave em Portugal, outra enfatizavam que estava a decorrer um golpe de estado e outra uma revolução comunista. Não se sabia em concreto o que se passava.

Ele sintonizou a Rádio Difusão Portuguesa para obter informação concretas mas sem sucesso porque a onda curta que se usava muito naquela altura, estava com muito ruido, quase que não se ouvia nada. O Nando teve que se preparar para se deslocar a Firma Pereira Duarte, seu novo emprego.

Importa referir que o Nando teve que deixar a Companhia Shell em finais de 1970, no quadro do despedimento ocorrido no fim da guerra de Biafra. Estando o Nando em condição de empregado não efetivo, devido a diminuição das atividades da Shell, ele teve que deixar a empresa por decisão da sede em Luanda.

Essa situação comoveu tanto o Administrador da Empresas, senhor Rodrigues devido o bom comportamento do Nando, e prometeu tudo fazer para lhe ajudar a encontrar um novo emprego.

O Nando ainda ficou desempregado quase três meses até que numa diligência do Administrador da Shell junto ao Gerente da Firma Pereira Duarte conseguiu o novo emprego.

A guerra de Biafra foi um acontecimento que teve reflexos, de certa medida positivo nas Ilhas de São Tomé e Príncipe, tendo em conta a utilização do aeroporto de São Tome para fazer a ponte aérea com esse território nigeriano para transporte de ajuda humanitária que consistia em bens alimentares e outros materiais. O território São-Tomense serviu também para acolher deslocados de guerra feridos, sobretudo crianças vítimas das hostilidades e as suas consequências, que ceifaram muitas vidas.

Esta movimentação criou uma certa dinâmica na economia do território o que refletiu em algumas melhorias socioeconómicas da população.

Biafra é um território situado no sudoeste de Nigéria, constituído pela etnia ibo. Contando com a riqueza das jazidas petrolíferas que haviam sido descobertas no delta do rio Níger, os lideres ibos chefiados pelo general Chukwuemeka Odumegwu Ojukwu decidiram em maio de 1967, por separar seu território da Nigéria declarando a Republica de Biafra.

A reação do governo Nigeriano não se fez esperar e decidiu pegar em armas para reprimir os rebeldes dando início a chamada Guerra de Biafra. As hostilidades terminaram em 1970 com a derrota dos separatistas e a reincorporação do território biafrense a Nigéria.

A Firma Pereira Duarte era a maior casa comercial de São Tomé e Príncipe na era colonial. Abarcava todas as áreas comerciais como secção de mercearia, secção de moda, secção de louças, secção de ferragem, secção de compra de produtos agrícolas de exportação e um grande escritório. Possuía também algumas propriedades agrícolas.

Os seus empregados mais bem remunerados eram brancos vindos de Portugal para cumprirem o serviço militar obrigatório e que acabavam por ficar no arquipélago apos o cumprimento da tropa. Muitos tinham grau de escolaridade muito baixa.

Os poucos negros que trabalhavam na loja ocupavam os lugares subalternos, geralmente numa secção de atendimento de vales e enchimento e plastificação de arroz, feijão, açúcar e outros produtos, apesar do seu nível de escolaridade normalmente superior em relação aos seus colegas brancos. O Nando fazia parte deste grupo. Os restantes eram trabalhadores braçais e de limpeza. Até 1973, não havia nenhum empregado negro a trabalhar no balcão da Firma.

Nos anos 70 vinha para São Tomé muitos franceses que trabalhavam nas companhias petrolíferas no Gabão passar uns dias de férias. De regresso, aproveitavam para fazer algumas compras, de produtos portugueses e locais. Azeite, vinhos, café, artesanatos eram alguns dos produtos mais adquiridos pelos turistas franceses. Havia dificuldades de comunicação com os mesmos porque os empregados de balcão, brancos, não sabiam falar francês. Como o gerente da Firma sabia que o Nando estudava no Liceu a noite, era solicitado com frequência para comunicar com os turistas e resolvia sempre o problema, apesar do seu francês na altura ser muito rudimentar. Isto aconteceu várias vezes até que em Dezembro de 1973 o Nando foi transferido para o balcão. Essa decisão surpreendeu muita gente, porque era a primeira vez que um negro tinha sido colocado a trabalhar no balcão da Firma Pereira Duarte.

Mas o francês não era a única competência do Nando, pois, fazia melhor as contas, conhecia bem os produtos, lidava melhor com as balanças automáticas, manuseava com mais mestria os outros instrumentos de trabalho em relação aos seus pares brancos e tratava os clientes com muita simpatia.

A transferência do Nando para o balcão valeu-lhe aumento de salario, tendo passado de 2.000 para 2.700 Escudos, com direito a ser inscrito no SNECIA[1], pois naquela altura, a inscrição no Sindicato era um privilégio atribuído pelo patronato. Apesar de tudo isto, o salário do Nando ainda era 3 vezes inferior ao do seu colega branco menos remunerado. Permaneceu nesse posto durante 3 anos e foi transferido para o escritório depois de ter concluído um curso de Contabilidade Geral, por correspondência.

Quando chegou ao trabalho naquela manhã de 25 de abril de 1974, o Nando constatou que os seus colegas brancos estavam todos com ar muito triste. Conversavam entre eles de forma discreta e quando o Nando se aproximasse, interrompiam logo a conversa.

Trabalhar ao balcão duma Firma Comercial era o local privilegiado para obter informações sobre diversos acontecimentos. Naquele dia não se falava doutra coisa. Mas pairava muita incerteza porque havia muito pouca informação disponível sobre a situação. Alguns dos amigos do Nando de maior confiança passaram na loja expressamente para comentar com ele os acontecimentos em Portugal de forma muito reservada.

A medida que as horas iam passando a situação tornava-se mais esclarecedora. Começou-se a aperceber que houve realmente um golpe de estado executado pelos capitães das Forças Armadas Portuguesas contra o regime ditatorial de Marcelo Caetano.

Na hora do almoço daquele dia, o pai do Nando veio ao seu encontro na cidade, depois de ter recebido o seu recado deixado ao senhor Sequeira, telefonista dos CTT de Guadalupe. Naquela altura era tudo difícil em termos de comunicação. A massificação dos telefones fixos no domicílio aconteceu mais tarde. As pessoas que não possuíam telefone em casa tinham que se deslocar as instalações dos CTT para fazer telefonemas. Em Guadalupe, o telefonista recebia as mensagens e mandava o recado com alguém que estivesse a passar perto da casa do destinatário do recado, neste caso, o domicílio ou o trabalho do professor João.

Como o professor imaginava que o Nando quisesse comentar a situação com ele e, como o mesmo tinha a necessidade de se deslocar a cidade para tratar de uns assuntos, aproveitou para almoçar com o Nando e trocar informações sobre a situação. Havia entre os dois um otimismo moderado, pois, a situação ainda não estava definitivamente clara àquela hora.

No dia seguinte 26, sexta-feira, a situação já estava mais esclarecida. Já se podia acompanhar melhor a evolução dos acontecimentos, pois, a Radio Clube de São Tomé entrava permanentemente em cadeia com a Radio Difusão Portuguesas. Estava quase todo mundo colado a rádio. Nos dias subsequentes ao 25 de abril, começaram a surgir algumas aglomerações públicas e a conversa era só sobre o acontecimento.

Em São Tomé e Príncipe surgiram as primeiras movimentações em apoio ao Movimento das Forças Armadas, que culminou com um grandioso comício no dia 1 de Maio de 1974. Foi a primeira vez que se comemorou o Dia Internacional dos Trabalhadores.

A luta política interna para exigir a independência de São Tomé e Príncipe começou com o surgimento da Associação Cívica pró-MLSTP, formada na maioria por jovens estudantes que suspenderam os estudos em Portugal e regressaram ao arquipélago expressamente para participarem na organização e mobilização da população.

No programa do Movimento das Forças Armadas referia apenas a vontade de se proceder a descolonização dos territórios portugueses em Africa sem contudo precisar de que forma a mesma seria feita. Por isso é que, os nacionalistas São-Tomenses agrupados no MLSTP, intensificaram as ações de luta em coordenação com movimentos das outras colonias portuguesas com vista a exigir as independências para os seus territórios.

O professor João estava a viver um dos maiores momentos da sua vida. O 25 de abril trouxe a possibilidade de se poder exprimir livremente o pensamento, sem o risco de represálias como acontecia anteriormente e que ele foi vítima por diversas vezes. Naquele tempo, um dos maiores desígnios do professor e dos nacionalistas são-tomenses era a intensificação da luta para a conquista da independência nacional. Por isso é que o professor João participou intensamente nos Comités de Zonas de Guadalupe, formado pela Associação Cívica pró -MLSTP.

No âmbito da luta que se desenvolveu nesse período, foi constituído também Comités nas diferentes firmas comerciais e Pereira Duarte não foi exceção. Havia muitas injustiças e desigualdades naquele estabelecimento comercial, porque o objetivo era obter maiores lucros baseados em baixo salários praticados no seio da maioria negra que ali labutava. O Comité em que o Nando também fazia parte e participou ativamente, desenvolveu uma luta intensa reivindicando melhores salários e melhores condições de trabalho. Queriam, simplesmente que houvesse maior justiça salarial, melhores condições de trabalho e a eliminação de trabalho precário. Como em todas as lutas, também esta não foi fácil.

O Nando lembra-se de um episódio em que quando questionado a razão da grande diferença de salários entre os empregados brancos e negros, o Gerente da Firma respondeu que os brancos tinham a necessidade de comer produtos importados como batata, bacalhau e outros, enquanto que os negros podiam acomodar-se comendo produtos locais que eram mais baratos.

Houve tentativas de dividir o grupo por parte dos patrões, nalguns casos conseguidos devido a traição de alguns colegas. Para além de luta reivindicativa, o contexto obrigava-os a participar também na luta política com vista a atingir o grande objetivo que era a independência nacional, que veio a ser conquistada a 12 de julho de 1975, depois de muita luta e muito sacrifício.”

Fernando Simão

São Tomé, 25 de Abril de 2021

[1] Sindicato Nacional de Comercio, Industria e Agricultura

    3 comentários

3 comentários

  1. SEMPRE AMIGO

    26 de Abril de 2021 as 10:14

    Obrigado Fernando Simão.Recordar é viverNão será possível um futuro radioso sem a consolidação do presente com a memória do passado.Uma boa parte dos autores activos do nosso passado recentete são hoje os principais ostracisados cidadãos da RDSTP.

  2. SEMPRE AMIGO

    26 de Abril de 2021 as 10:17

    Obrigado Fernando Simão.Recordar é viver.Não será possível um futuro radioso sem a consolidação do presente com a memória do passado Infelizmente uma boa parte dos autores activos do nosso passado recentete são hoje os principais ostracisados cidadãos da RDSTP.

  3. Mepoçom

    26 de Abril de 2021 as 17:09

    Meu caro Simão, pesquisar e transmitir a realidade, e não por ficção, é importantíssimo. Na sua narrativa falou da guerra de Nigeria/Biafra, alguém chorou outro vendeu lenços. Germano Castela foi agente de gestão financeiro do fundo para refugiados de guerra que concentraram na Quinta de Santo António. Todos os saldos dessa gestão pós guerra ele investiu na sua empresa de transporte marítimo e terrestre que mais tarde por um bando de saqueadores transformaram em Transcolmar, onde estão os resultados? A população do príncipe clamam por um transporte marítimo que era assegurado por lanchas Anabela e Elisabete com eficiência… Os justos estão a pagar pelo pecadores. Deça puta passá mixidaje pê tê homé cetu.!!

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