Opinião

O Grito da (IN)dependência

12 de Julho de 2021, naturalmente, seria mais um dia de franca celebração para todos os São-tomenses, pois esta data constitui o marco dos 46 anos da independência e da histórica libertação de São Tomé e Príncipe do jugo colonial.

Mas será que realmente temos motivos para celebrar a independência e a liberdade do nosso povo, considerado, no seu todo?

Será que podemos propalar aos quatro ventos que somos todos livres e independentes, enquanto a esmagadora maioria das nossas gentes continua refém da extrema pobreza material e mental que contamina a nossa identidade e existência como povo verdadeiramente soberano, que outrora se propôs tornar-se “a nação mais ditosa da Terra”?

Como sentirmos bem-aventurados e prósperos, como pormos de lado o cepticismo, diante de tantas injustiças, perseguições, desvalorizações, crispações, violações, agressões e muitas outras complicações, num pedaço de terra tão pequeno, onde como já dizia, alguém que bem conheço, “um pedaço de pão chegaria naturalmente para todos”?

Doa a quem doer, e salvo pessoas, organizações e acções dos que lutaram e continuam a lutar por um São Tomé e Príncipe melhor, não posso esconder a minha profunda tristeza e inquietação diante do descalabro em que algumas elites e grupos bem identificados colocaram este país e suas gentes nestes 46 anos. E não me venham acusar de cepticismo, oportunismo, … «“porquê que só está a falar agora?» … de falta de patriotismo, de ser militante do partido A, B ou C, de ser da oposição, de ser apoiante desta ou daquela individualidade ou de qualquer outro «ismo», muitas vezes, inventados ou forjados para sacudir pressões, sempre e quando se coloca o dedo na ferida.

A minha tristeza e indignação é maior quando todos sabemos e conhecemos a raiz dos problemas que nos afligem, mas o cinismo, a demagogia, os interesses particulares, impedem-nos de actuare agir com coerência, justiça, rigor, disciplina e, sobretudo, com a boa fé e o verdadeiro amor para com as causas que nos unem a todos.

Como celebrar verdadeiramente uma independência que apenas implicou benefícios e oportunidades para algumas elites bem posicionadas?

Como celebrar de forma efusiva a independência nacional quando à maioria dos São-tomenses não lhes foi dada a oportunidade de se libertarem da extrema pobreza e das vulnerabilidades?

Como celebrar quando mulheres inocentes continuam a ser brutalmente vítimas da violência cega, machista de homens criminosos e ignorantes, diante da total inércia e impotência das autoridades competentes?

Como celebrar de forma abrangente quando as elites e grupos bem identificados impedem o progresso de cidadãos capazes e competentes, simplesmente por não se encaixarem nos seus ideais de perpetuação da corrupção, dos complôs e das injustiças?

Como celebrar de forma inclusiva uma independência que, em grande medida, apenas permitiu a proliferação da mediocridade e da apropriação abusiva e indevida do que é de todos, particularmente por uma elite que se sentindo “forros”, ou porque acidentalmente nasceram e estão aqui, insistentemente se posicionam como os únicos filhos genuínos de São Tomé e Príncipe?

Precisamos urgentemente de um São Tomé e Príncipe novo, uma nação nova para todos, onde não haja quaisquer fronteiras, complexos ou percepções elitistas, onde o forro o principiano, o angolar, o tonga, o gabão, o cabo-verdiano, o português, o angolano ou quaisquer outros descendentes, se sintam e sejam todos aceites como genuinamente filhos de São Tomé e Príncipe, pelo simples facto de amarem este país.

Precisamos urgentemente de uma nação nova, onde a corrupção, a pedofilia, a mediocridade, a politiquice, a violência contra as mulheres e crianças e todas outras formas de injustiças não tenham lugar…

Ainda está nas nossas mãos o sonho de uma nação nova e de um novo São Tomé e Príncipe para todos os São-tomenses e para todos os que verdadeiramente amam estas Ilhas.

Viva São Tomé e Príncipe

São Tomé 12 de Julho de 2021

Eurídice Semedo Medeiros

    11 comentários

11 comentários

  1. Credimila

    12 de Julho de 2021 as 19:25

    Texto radicalizado em factos reais.
    Felicitações à autora.

  2. Mirian Daio

    12 de Julho de 2021 as 19:33

    Este texto foi para mim transcendental. Consegui sentir todos os sentimentos que a autora nele colocou. Que possamos todos refletir em todo o seu conteúdo. Precisamos sim, urgentemente fazer resurgir um São Tomé e Príncipe Novo. Já começam a faltar forças até para se ter esperança. Cara Euridice, muito obrigada pela partilha deste sentimento que nos é comum a quase todos.

  3. Povinho

    12 de Julho de 2021 as 20:22

    Pois é, a grande questão em causa está ; O que trouxe a independência para STP?
    Trouxe, um grupo de elites corruptos, políticos sem escrúpulos e desonesto, originado dos Pintos e Trovoadas. Há 46 anos, o povo a viver na pobrezae e miséria que até hoje longe de alguma solução. A máscara da pandemia devia ser maior para tapar a vossa cara de sem vergonha. Seria bom celebrar mais um ano da independência num túnel escuro para que ninguém veja a tristeza e vergonha.

  4. Fuba cu bixo

    12 de Julho de 2021 as 23:08

    A política Santomense só atraí piores castas de Santomenses preguiçosos gananciosos ladrões.
    Ainda bem que ha morte, podem comprar casas na Europa comprar bons carros mas quando morrerem não vão levar nada.
    O Jorge bom Jesus andou a mentir na campanha eleitoral entrou largou queixada só estão a roubar todo dinheiro que estão a receber dos parceiros internacionais.

  5. Carlos Teves

    13 de Julho de 2021 as 3:39

    Parabéns pela reflexão.
    Enquanto tivermos homens mediocres a dirigir o nosso país, dificilmente sairemos desse marasmo. Enquanto os senhores poderosos decidirem os resultados dos concursos como se estivessem nas suas casas, não somos verdadeiramente independentes.
    Infelizmente, quem nos governa, são homens pequenos, sem qualquer valor, homens que não se importam de prejudicar o país, desde que fiquem bem. Cada vez há mais incompetentes nos lugares de destaque, deixando os mais preparados para trás.
    Nada é feito com seriedade e ainda por cima, têm prémios.
    O que o país precisa, é que se acabe com os privilégios nos altos cargos da função pública, que se corra com os maus profissionais, que haja gente capaz de tomar decisões com rigor e imparcialidade.
    Senhores, quando assumir um cargo de relevância, significar trabalho e responsabilidade, vai deixar de haver tanta luta pelos lugares.

  6. Carlos Matos

    13 de Julho de 2021 as 3:50

    Felicitações.

    Por favor senhor 1º ministro.
    Acabe com o excesso de privilégios na função pública;
    Encontre forma de imprimir maior seriedade na realização dos concursos públicos;
    Não tome medidas populistas e focadas nas eleições;
    Peça os seus colaboradores para não privilegiarem os incompetentes, só porque são do partido;
    Não permita que entre pessoas reformadas para importantes cargos na função pública – isso é fraude;
    Os serviços públicos, têm que ter regras, cada um não pode fazer o que quer;
    Queira ser lembrado como alguém que fez a diferença – uma vez que, até ao momento, não é o que parece;

    O povo o escolheu para tomar decisões em nome do povo – para assumir uma grande responsabilidade e não está a cumprir.
    Boa sorte sr. 1º ministro

  7. Engenheiro

    13 de Julho de 2021 as 7:23

    A juventude já está toda ela totalmente corrompida, vendida. Olhem só pra esses jovens que andam a apoiar a candidatura, e a trabalhar arduamente para promover esses “indivíduos bem identificados”! E as coisas que esses idiotas tiram da boca é constrangedor e dá pra notar que andam a absorver os ensinamentos. Epah, não há hipóteses pra este povo.

  8. Original

    13 de Julho de 2021 as 8:22

    Isto já está a exceder o limite admissível de um ser humano.Só há um grupo de indivíduos que estão a lixar isto tudo e temos que dizer basta.

  9. Edi Viegas

    13 de Julho de 2021 as 13:30

    Bela reflexão cara Eurídice Medeiros. É um conjunto de situações negativas que constituem a nossa realidade em degradação paulatina e que muitas vezes fingimos que não estamos a enxergar por esse ou aquele motivo.
    É importante pararmos e pensarmos São Tomé e Príncipe enquanto nação, e seu povo enquanto seres humanos que são.
    Cada um de nós deve assumir sua cota-parte de responsabilidade para que de fato possamos sair do atual “faz de contas” e alcançar a construção da verdadeira nação santomense onde os sonhos não sejam dilacerados antes mesmo de serem sonhados.

  10. Tony

    13 de Julho de 2021 as 14:19

    Antes de mais excelente reflexão !!

    Na minha opinião, o resultado que temos das governações e do estado politico do Pais resulta somente das ideologias associadas que nunca sairam , seja da constituição seja da mente dos governantes… O COMUNISMO !!! qualquer pais com este regime o POVO vive na miséria, veja-se o que começa a acontecer em Cuba…

    Enquanto não mudarem ao paradigma STP ira continuar sempre a descer, melhor dito o Povo a caminho da miseria completa, e isto ainda se passa no seculo XXI, incrivel !!

  11. Tony

    13 de Julho de 2021 as 14:25

    Desculpem, aliás já não existe Republica Popular de Angola, existe sim Republica de Angola .

    Isto é mandar o COMUNISMO embora !!

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