Produto do assédio da inteligência artificial, ninguém mais fica indiferente, com um pingo de motivação, podemos escrever, oferecer as costas ao praguejo, resistir e explorar as várias perspetivas da vida, em comunidade, mas com o foco no essencial, por princípio e ética, não ficaria mal a fotografia de abertura do Novo Ano, eu com alguém, amor à primeira vista.
Na zona de conforto, seria missão aqui, cabisbaixo, com o empurrão de alguns amigos pessoais, próximos à governação de São Tomé e Príncipe, pedir as sinceras desculpas à senhora ministra de Saúde são-tomense, Ângela Costa, e aos médicos que, segundo ela, contribuíram com todo o saber e esforço da deontologia profissional para salvar Elisabete Bom Jesus, a menina de 15 anos, violada sexualmente e maltratada pelos criminosos, até então, sem deixarem rasto à Polícia Judiciária e que esteve, para mal dos espíritos do bem, os longos seis meses, ou seja, desde junho, aprisionada e em estado vegetativo numa cama de Ayres de Menezes, o hospital sem saúde.
Todavia, a rotina profissional obriga-me a cruzar com uma árvore que se tornou na mais linda que todas as outras com que o encanto da natureza, comigo serviçal, cria os nobres momentos de inspiração, em que os humanos, por esta altura, cobrem o corpo do inverno, com duas, três a quatro peças de roupa, em simultâneo: camisola, camisa, casaco e sobretudo para se protegerem do frio; o vento pelo seu espírito, com os assobios, deixa-lhe toda descascada e a dançar as amareladas folhas, uma a uma, a espalharem-se pelo chão.
A ótica espiritual, incrível, embebeda-se por completo com a magia das folhas, mesmo no asfalto gelado, já que há dias, em que a ventania lhes rodopia no salão como que na extraordinária escuta do Pipoquinha, na moda, – “Toda parada, é minha!” – elas levantarem voos dançantes e fascinantes acima dos tetos de prédios.
A perícia da natureza, por cá, é contrariada pelo meu colega institucional que bastam os primeiros indícios da dança das folhas amarelas, no outono, solidariza-se com a equipa de manutenção, diariamente, revoltada com a máquina, vassoura e pá, a ter de varrer e encher os sacos dos dejetos da árvore que vai ficando em esqueleto e, óbvio, são unânimes. “Já é tempo da direção abater a árvore!”
Antes dos primeiros sinos da primavera com os raios solares que voltarão a engravidar a planta para nascer folhas, flores de serem vacinadas pelas abelhas que aproveitam do suco para a fabricação do mel, e os frutos de encher a barriga de verão aos pássaros, lá estou a esticar a nossa conversa… Parabéns professor Alberto Camblé Pinto, por mais um dia aniversariante!
A vítima da violação sexual, a Elisabete, finalmente, foi devolvida à humilde realidade da mãe, a “palaiê”, isto é, uma vendedora, para contar os últimos dias, meses ou anos, pelas palavras da senhora ministra, claro, em países onde o cuidado paliativo, é habilidade social de manter a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, nada a condizer com o salve-se quem puder do injuriado Sistema de Saúde das ilhas.
A Sara, quiçá, anjo de guarda, esteve no hospital prisioneira às dores e ao silêncio da Elisabete, a substituir as ausências da mãe como que pressentisse que o virar de costas da progenitora, perante a vulnerabilidade do hospital e a incapacidade da Polícia Judiciária, os bandidos surgissem para o último golpe à vítima. As meninas, apesar de mesma idade, afirmava o post, algures, até à tragédia, elas não se conheciam, nem no cheiro.
A Sara fez a higiene diária, trançou cabelo, cortou as unhas, cantou, contou histórias e dormiu na cama hospitalar, dia e noite, em tertúlia silenciosa com a fé na salvação da Elisabete, a quem prosseguiu no mesmo sorriso e voluntarismo, a servir na cubata da mãe da paciente, na fronteira da capital.
Uma curiosidade, não menos interessante. Nas últimas semanas que permaneceu em casa-hospital, em Pantufo, quantas vezes a Elisabete, foi visitada por equipa médica, de enfermagem ou de assistência domiciliar que lhe deveria tratar até ao último fôlego?
A memória não deve ser tão curta, a não recordarmos do corredor de morte, em que esteve a jovem mãe, Diamila Salvaterra, de 34 anos, beneficiada de junta médica, a clamar pela vida, até a saída do último ar no hospital Ayres de Menezes, em agosto passado, por incapacidade do Estado evacuar a doente de fibrose pulmonar, hospitalizada durante cinco meses.
Caso a sociedade civil que deve ser vista como uma mão valiosa aos Estados e não inimiga, conseguisse um jato, similar ao das paródias do 1º ministro pelo mundo, recordadas no balanço final do ano pelo presidente da República, com que procedesse a evacuação, em segurança, daquela mãe eternamente ausente das quatro crianças entregues à Deus dará, e lhe salvasse vida, em que ficaríamos?
A ausência de comunicação dos governos no Estado de Direito democrático, a deixar livre a auto-estrada às especulações partilhadas por familiares, intervenientes nas reuniões com o Estado e outras fontes, não deveria nesta altura do lamentável, colidir com o sorteio e a compaixão governativa de, tardiamente, após a humilhação e condenação, vir oferecer a santa cara da ministra à opinião pública. Deveria ser o boi, a empurrar a carroça.
Mais de seis meses, em silêncio e sem solução, – o chefe do executivo afirmou desconhecer o caso da Elisabete – é que a ministra da Saúde, similar aos porta-vozes do governo, nas redes sociais, vêm ao público detalhar as pertinentes informações, incluindo a junta médica, reprovada pelas autoridades de Saúde portuguesa, inclusive o hospital pediátrico de Dona Estefânia, em Lisboa, pelo facto da degradação ser irreversível!? Quando é que decorreu todo esse processo? Seria de utilidade pública, os jornalistas socorrem os são-tomenses, com uma entrevista aos decisores portugueses.
É triste e deplorável – há uma vida humana em jogo – na curta declaração da ministra da Saúde, divorciada emocionalmente da circunstância, na última quinta-feira, ter ido mais longe. Lavou completamente as mãos do XVIII Governo, quando pessoalmente, eu augurava perante todo o imbróglio, ouvir as últimas diligências da titular da pasta e da embaixada, em Portugal, que já teriam aberto a linha de comunicação com o hospital de Coimbra para se inteirarem das novas dinâmicas protocolares e, sobretudo, partilharem as informações, embora intermitentes, mas que pudessem manter iluminadas as velas de esperança.
Confundiram-me alguns comícios da semana, nas redes sociais, com a motivação de praguejo contra a Campanha de Solidariedade à Elisabete – arrecadou de corações de boa-vontade, mais de treze mil euros, em tempo recorde – a ponto dos manifestantes disponibilizarem apoio à intervenção do Ministério Público para investigar, urgente, todos os envolvidos e, em especial, para sacar as responsabilidades criminais de figuras com contratos públicos que pretendem retirar proveitos políticos e pessoais, através da desgraça alheia e, óbvio, o ricochete das balas cruzadas por conflitos de interesses da taxa aeroportuária para os bolsos turcos, de todo, ferirem o maior financeiro na evacuação da paciente.
Quem anda a fazer política com o sofrimento da Elisabete e as lágrimas da mãe que, graças à solidariedade da cidadania, lhe faz companhia, em Portugal? Misericórdia, en!
Confiantes, alguns adivinham conflito diplomático eminente entre Portugal e São Tomé e Príncipe, derivado da busca desesperada de saúde à Elisabete, mas quando eu gemia de que já não existem médicos são-tomenses, a exercer em Portugal, surgiu um jovem da terra, Wilson Pereira, o cirurgião, quem deu peito às balas direcionadas contra a Elisabete, ameaçou levar o hospital Universitário de Coimbra às barras do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, por recusar ciência à paciente e foi, segundo um post seu, algemado pela PSP, por envolvimento num eventual esquema de mobilidade internacional irregular. Certa comunicação social portuguesa, noticiou e duvidou das competências científicas do cirurgião e humanista, eventualmente, do hospital de Coimbra que por delito cometido na salvação humana, preserva a sua carteira profissional para o momento oportuno à curiosidade pública.
Inconsistência demais, na medida em que os ativistas desse cordão humanitário (no dever óbvio de prestar contas financeiras) que comoveu o país inteiro, a sua diáspora e os cidadãos estrangeiros, até recente, salvo exceções, compunham a mesma orquestra com que os do praguejo, fizeram, fazem campanhas e continuam a cantar, o que à vista da nação, ninguém consegue enxergar, ou seja, os sucessos da gestão política, económica e social do XVIII Governo.
É deselegante, colocarmos as mãos na consciência e sentirmos o luto e a dor pelas vidas perdidas, por ausência de meios especializados de diagnósticos no país? Antes do fecho do ano, duas notícias enlutaram os ouvidos familiares. Uma jovem, depois de medicada, meses e meses, a mãe de tudo fez, conseguindo por meios próprios retirar a estudante do país. Chegou tarde e partiu desta a outra vida por ter sido destratada em São Tomé e Príncipe. Um jovem-pai, de Obolongo, diagnosticado e medicado, conseguiu por meios familiares sair do país, chegou Portugal e foi-lhe detetado um caso também de nada a ver com a medicação que, longamente, foi submetido nas idas hospitalares ao velhinho Ayres de Menezes. Após o início de tratamento da doença de verdade, em Portugal, tarde demais, recentemente, não resistiu e partiu à vida eterna, deixando os filhos menores.
Estar em coma, não é estar morta, apesar de longa ausência de oxigenação do cérebro da Elisabete, possa não servir de perfeita “carona” à uma experiência pessoal. Um amigo, na casa de quarenta anos, esteve meses em coma hospitalar, ao extremo da médica responsável, questionada num dos dias desesperantes da mãe, a lidar diariamente com o filho, cada dia esquelético e em sono profundo, ter sido perentória: “Minha senhora, o seu filho está morto! Mais dia, menos dia, vamos desligar-lhe as máquinas!”
Mais dia, menos dia, meses e meses de angústia dos visitantes mais próximos, o jovem regressou ao mundo, recuperou o necessário, foi transferido ao hospital de reabilitação para endurecer os músculos e renovar a genica física e emocional. Três meses contados na reabilitação, o meu amigo com a alta hospitalar e um dos lados, superior e inferior, quase preso ao corpo, contra tudo e todos, pegou na sua viatura – pediu que anteriormente, lá deixassem no pátio – e atravessou a ponte Vasco da Gama para o aconchego familiar que com a continuada fisioterapia, retomou a forma física, emocional e profissional, sem a mínima sequela visível.
Deus deve confiar aos cientistas do Hospital Universitário de Coimbra, o poder milagroso, porque ao contrário da visão do meu colega laboral, mantenho a crença brilhante naquela árvore segura no chão que o vento dança e deixa cair as folhas no inverno, se engravida na primavera e cobre de flores e frutos, o resto da sua vida natural.
Até ao último fôlego, mantenhamos viva, a esperança na Elisabete.
Bonzuanu!
José Maria Cardoso
04.01.2025
