Opinião

Quando a Pátria é traída pela ignorância ou pelo ressentimento

Um olhar crítico sobre o silêncio cúmplice e a inversão de valores

Por Gilson Araújo

Recentemente, circulou nas redes sociais um vídeo do deputado do partido Chega, que também é vereador na Câmara Municipal de Loures, em que se ataca de forma desonesta a imagem de São Tomé e Príncipe. Para sustentar a sua tese xenófoba, o deputado foi buscar uma reportagem da DW, da autoria do jornalista são-tomense Óscar Medeiros, e dela fez um uso manipulador, distorcido, com o claro objetivo de denegrir o nosso Estado, os nossos cidadãos e a nossa soberania.

O mais lamentável? Não foi o gesto previsível do deputado — já se conhece o seu alinhamento político e a sua agenda populista. O mais grave foi ver cidadãos são-tomenses, por ressentimento, ignorância ou má-fé, aderirem ao discurso daquele que claramente visa humilhar-nos, partilhando e dando eco a uma narrativa que não serve nem a verdade nem o interesse nacional.

Pior ainda, colaram deliberadamente a imagem do nosso Embaixador em Portugal a esse conteúdo tóxico. Fizeram-no sem qualquer fundamento. O Embaixador limitou-se a defender, com dignidade e firmeza, a sua comunidade — como lhe compete. O que disse foi em nome dos são-tomenses, apelando ao respeito e à cooperação institucional.

Para agravar ainda mais a desonestidade do momento, após a publicação do vídeo pelo deputado, o cidadão são-tomense “WK” — a mando do seu novo “patrão”, o autointitulado ativista social Pindó — lançou-se numa campanha de partilha e amplificação do conteúdo nas redes sociais. Tudo indica que o verdadeiro objetivo era atingir pessoalmente o Embaixador e, ao mesmo tempo, desviar a atenção pública dos escândalos ocorridos em Camarate durante a festa que o próprio Pindó organizou. Uma cortina de fumo, feita à custa da dignidade nacional.

É claro que cada jornalista tem a liberdade — e o dever — de informar. Mas importa refletir sobre o tipo de reportagem que se faz quando se trata de um país frágil como o nosso. Há uma linha tênue entre o jornalismo crítico e o sensacionalismo que expõe feridas sem qualquer responsabilidade social. Reportagens como a em causa, quando retiradas do seu contexto e usadas por forças políticas extremistas, tornam-se instrumentos de desinformação e humilhação. Mais grave ainda é que, quando o deputado do Chega instrumentalizou esse conteúdo para atacar o povo são-tomense, nenhuma voz nacional se levantou para o contradizer. Nenhuma instituição, nenhuma figura pública ousou responder-lhe. Deixaram o Embaixador — que apenas cumpria o seu dever de defender os seus — literalmente sozinho.

Resta perguntar ao senhor deputado: sabe Vossa Excelência que em São Tomé e Príncipe vivem portugueses? Sabe que ali não há registo de qualquer movimento hostil contra cidadãos portugueses? Nem campanhas, nem vídeos, nem acusações públicas — pelo contrário, há acolhimento, integração e respeito. E esses portugueses, vivem por acaso na lixeira da Penha? São tratados como uma ameaça ao país? Não. São respeitados como parte da nossa comunidade. E, ironia do destino, o próprio partido Chega foi buscar um desses portugueses que vivem em São Tomé e Príncipe para ser candidato à presidência de uma câmara municipal em Portugal. Que grande contradição! Afinal, quando convém, o são-tomense é bom o suficiente para fazer parte de uma candidatura política, mas quando precisa de habitação e dignidade, é reduzido a estereótipos e discursos de exclusão?

É aqui que nos devemos interrogar:

Que tipo de cidadão defende, sem vergonha, quem ofende o seu próprio país?

Como é possível que se confunda patriotismo com oportunismo, e dignidade com provocação?

Quando um filho defende a sua casa, é por isso que deve ser atacado?

José Saramago disse um dia: “O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”

Vivemos, de facto, numa era em que a mentira tem palco e a verdade, silêncio.

E infelizmente, muitos dos nossos contribuem ativamente para essa inversão de valores. Preferem expor as feridas do país a quem delas se aproveita, em vez de ajudar a curá-las com responsabilidade.

Não é falta de crítica que está em causa — é falta de amor à Pátria.

Amor que se manifesta não no aplauso cego, mas na defesa justa, no respeito pelo que é nosso, e na coragem de não dar palco aos que nos querem ver divididos, diminuídos e calados.

São Tomé e Príncipe não precisa de bajuladores — precisa de filhos comprometidos.

Que saibam criticar com verdade, sim. Mas que jamais sirvam de instrumento aos que, de fora, querem descredibilizar o que é nosso.

5 Comments

5 Comments

  1. Fernando

    25 de Julho de 2025 at 8:53

    Quando se diz que santomense é “cruel”, não é brincadeira. Parabéns pelo artigo, está claro como água.

  2. Zito

    25 de Julho de 2025 at 9:08

    Pindó que diz ser ativista social, que está neste momento em Portugal, não se pronunciou sobre despejo, porque não lhe interessa, não lhe convém, mas é capaz de pagar pessoas para denigrir a imagem do país. Um judas, que consegue receber dinheiro de todos os políticos e partidos conforme interesse. O que eu nunca esperava é que ele fosse capaz de receber dinheiro do partido Chega contra os seus próprios cidadãos

  3. Daniel Convenência

    25 de Julho de 2025 at 17:49

    PINDÓ, quem é este delinquente ? Será o tal do APOLINÁRIO conhecido como o “são-tomense” no seio dos ladrões/os larápios,que era assaltante em LOURES antes de ter sido expulso, ou seja rapatriado para STP? Será esse vadio?
    Soubemos últimamente que estava a fazer política, que era o militante bufo do ADI e serviçal do ex 1o ministro Patrice Trovoada. Ele nunca teve uma boa reputação, é um falso, um medíocre, muito nulo em tudo,só pode mesmo é ganhar a vida como o chulo de serviço dos bufos. É cara de má índole, sem palavra,sem postura. Pobre é aquela mulher,Arlete, que ainda está com ele, a coitada.
    O PINDÕ é um marmanjo que deve ser interrogado e ouvido pela justiça sobre os seus feitos e gestos.

  4. SEMPRE AMIGO

    26 de Julho de 2025 at 12:24

    Em busca da VERDADE.Obrigado pela contribuição.

  5. Ilídio Nobre

    26 de Julho de 2025 at 13:59

    Como é que alguém podia se pronunciar se o Pindó tinha o patrocínio do Presidente da República para organizar a festa? Vocês que ainda acreditam nesse país é que devem ter cuidado com a vossa saúde. Pindó apenas deu a cara, muitos malandros estão por detrás dessa brincadeira, só não entenderam que o país saiu mais uma vez humilhado nessa brincadeira toda.

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