Opinião

Talude de Loures, a cara chapada de “bidonville” de Paris

As meninas nascidas ou criadas nos bairros de lata, nem eram poucas, tinham o horizonte escrito nas testas. Senhoras de limpeza e mulheres a dia, ou seja, empresas de limpeza e casas dos patrões, eram as únicas alternativas nas futuras profissões. Aos rapazes, nas respetivas palmas das mãos, aguardava-lhes a pior das sortes.

Os bebés logo que nasciam num ambiente dividido com lixo, ratazana, barata, pulga, piolho, lama invernal e imundice, sem água, nem eletricidade, eram submetidos a testes inimagináveis. Eram lançados às paredes que decidiam pelo futuro de cada um.

Desse jeito, os sobreviventes que colavam às paredes miseráveis, espalhando o sangue, não tinham volta a dar, senão serem futuros pedreiros. Os que batiam e escorriam ao chão, riscando de sangue a barreira, seriam pintores, completando nesse teatro migratório, as duas profissões das promissoras criaturas das obras de construção civil francesa.

Qualquer docente perante a realidade que desafiasse a turma de que nível fosse, deveria arriscar os seus ministrados a acertarem no povo americano, europeu, asiático ou africano que se enquadrasse ao retrato dos nascidos naqueles bairros de lata.

Ao certo, para tranquilizar a turma que quanto mais abrisse a boca, mais disparatava disparates, o mestre optaria em dar uma mão, informando de que o contexto de indignidade humana, tentado a apagar pelo esquecimento coletivo, simboliza a emigração dos anos 60 e 70, isto é, a segunda metade do século XX, com a fuga em êxodo da miséria, opressão e ditadura de um povo europeu. Não era o antigamente dos manuais de História. Não era o povo africano. Não eram os são-tomenses!

Na sua maioria, mulheres e homens analfabetos ou sem a quarta classe, carregando na fuga, crianças e bugigangas que sem alternativa e apanhados na difícil guerra de sobrevivência do campo e das zonas urbanas do seu país, em desespero completo, os viajantes ergueram os bairros de lata no país de acolhimento, a França. 

Há razões suficientes para amnésia, tendo em conta que essas crianças, aqui é de destacar um autarca francês da região de Paris, que mobilizou esforços e energia, a favor da infância sair diariamente das barracas e frequentar a escola, como dinamizou fundos e meios que, contrariamente de demolição e humilhação, levou energia e água ao “bidonville” parisiense para a iluminação e o surgimento de casas de banho.

Assim, o tempo e as oportunidades, não lhes viraram as costas.  Algumas das nascidas, tornaram-se cozinheiras, donas de restaurantes e empresas de limpeza e, mais negócios. Alguns homens, de mãos de obras de construção civil, pedreiros e pintores, elevaram-se a empresários e senhorios. Alguns filhos dos filhos de “bidonville” parisiense, foram mais longe, elevando os níveis dos conhecimentos.

O cardápio das meninas e dos meninos rasgados, descalços e maltratados dos bairros de lata, em França, que serviu de abertura, ainda é exibido na comédia dos franceses sempre que quiserem abrir o museu dos imigrantes portugueses, hoje, muitos licenciados, empresários, políticos de sucesso, isto é, enquadrados na economia do país que lhes acolheu e deu dignidade, a ponto de construirem diversos e luxuosos palacetes de férias ou residências, em Portugal. 

Nunca é demais, a revista da história de mobilidade humana, sempre a busca de uma vida melhor, para chapar na cara do radicalismo da direita portuguesa, apesar do mesquinho interesse dos populistas e porta-vozes de xenofobia de tudo fazerem para apagar a memória do país e povo português, por natureza voluntário migratório por este mundo afora, incluindo na África.

Hoje, a terceira geração ou os luso-descendentes, são empresários, altos funcionários e autarcas de câmaras francesas, mas com o défice de uns não falarem o português que se associa, para mal dos pecados, ao complexo de superioridade ou inferioridade, de engrossarem os partidos radicais da direita francesa.

Apagando por completo, a origem nos bairros de lata franceses, nas últimas legislativas portuguesas, os luso-descendentes ajudaram ao crescimento do partido da xenofobia, do racismo e da cegueira portuguesa contra os estrangeiros, em Portugal. Notabilizaram o Chega e as suas fábulas intencionalmente descontextualizadas à mobilidade humana, ao luxuoso e conforto assento parlamentar de segundo partido, bastante influente nas decisões governativas como foi a corrida às iniciais leis desumanas de Montenegro, o 1º ministro, indo diretamente contra os estrangeiros e o agrupamento familiar, participantes na economia portuguesa, enviadas pelo presidente Marcelo à verificação constitucional.

O contexto transporta a realidade migratória ao bairro de Talude Militar, em Loures, cuja fotografia de miséria e imundice, o espelho da indignidade humana, se assemelha em muito aos bairros de lata, erguidos em França pelo povo português.

É aconselhável aos políticos oportunistas, ignorantes, mal-educados e engajados pelo radicalismo da direita de André Ventura, o dono da nojenta ideologia do Chega, um partido extremista que usa aqueles que no dia a dia introduzem os dez dedos nos trabalhos precários para desenvolverem a economia portuguesa, para antes de abrirem a boca suja e venenosa, se reverem ao espelho de “bidonville”.

Daí, toda a solidariedade manifestada anteriormente aos concidadãos, apanhados pelo vento da mobilidade humana, se associa à voz de consideração ao embaixador Esterline Género, quem pelos registos, sozinho e em nome do estado são-tomense, envidou os esforços na tentativa de evitar a humilhação das demolições de 64 casas precárias de Talude Militar, há mais de uma centena de famílias e trabalhadores.

Expôs-se a objeto de insultos de um extremista radical do Chega, infelizmente, publicitado de amigo pelo deputado do ciclo da diáspora, em Portugal, Jozino Viegas, o militante de ADI, distraidamente comprometido com a confusão da mão esquerda humanitária pela direita de humilhação contra os são-tomenses.

Contagiante dos palácios de São Tomé e Príncipe, presidencial, parlamentar e executivo, nem uma palavra de solidariedade ao mais alto representante do Estado junto das autoridades portuguesas e europeias, que deveriam enviar a Lisboa uma dura e oportuna nota de condenação ao vergonhoso radicalismo da direita portuguesa.

É consensual que  muitos dos desalojados vulneráveis das barracas de Talude, são apoiantes dos atuais poderes em São Tomé e Príncipe. Em troca, lhes deu o último empurrão à emigração, em êxodo, mas o seu ídolo, o antigo 1º ministro, líder de ADI; passeava nos voos por Lisboa, Paris, Nova Iorque, Dubai e Concochina, sem nunca expressar uma só palavra àquela população, tratada abaixo da penúria pelo autarca socialista de Loures, Ricardo Leão, com o visível apoio do governo português da direita, em clara violação aos Direitos Humanos.

Demitido das suas funções, no dia 6 de janeiro passado, o sucessor também tem Lisboa, atrás de casa -, onde reside a esposa e os filhos, segundo as informações do parlamento das redes sociais, chefiado pelo seu antecessor e presidente do partido,  -,  mas jamais o Américo Ramos, 1º Ministro do XIX Governo, deu sinal algum de engajamento para com aquela comunidade, em apuros. Nem quando apanhado na recente crise política que empurrou os portugueses às legislativas antecipadas de maio passado, em que foi espezinhado e esquartejado pelos governantes do PSD que lhe deixaram na Praça de Vexame, sem agenda oficial, conseguiu visitar Talude ou outro bairro são-tomense, na sede da lusofonia.

No regresso da recente e fracassada XV Conferência da CPLP, de 18 de julho, em Bissau, finalmente, foi recebido pelo homólogo Montenegro, mas não transpirou à imprensa de que o governo português selou qualquer compromisso de dignificar os são-tomenses de Talude e muitos outros trabalhadores de salários miseráveis que enfrentam o altíssimo e insuportável preço de aluguer de casas, em Portugal.

Na verdade, a fórmula dos governantes são-tomenses, distantes da sua diáspora, no mais concreto, na Europa e África, não é de hoje, mas nas últimas três décadas, o partido ADI deveria mudar a história, não só por mais tempo na gestão política, económica e social dos são-tomenses, mas porque o seu líder, nesse período da democracia, quatro vezes 1º ministro, é um viajante e residente na Grande Lisboa.

Não somente de dignidade humana se exige a democracia. Os Direitos Humanos, não convivem também com a ausência de informações, mesmo em cenários de guerra. Depois de no passado recente, os jornalistas Abel Veiga do Téla Nón e Josimar Afonso da RSTP, serem os rostos de pancada do antigo 1º ministro do XVIII Governo, agora, foi a vez do presidente da República Carlos Vila Nova, cair na baixeza de confrontar e humilhar publicamente o mesmo jornalista da Rádio Somos Todos Primos, distraindo-se da missão de informar do jornalismo independente que não se verga aos ditames ditatoriais de corrupção, injustiça e subserviência política.

Daí, uma questão que não cala no momento de atentado físico e moral à imprensa. Como o cidadão comum ou subserviente dos políticos, não agredir aos jornalistas, comentadores e senhores de opinião do quotidiano, alguns trabalhando em realidades difíceis ou de voluntarismo a um país mais equilibrado na justiça, saúde, educação e na distribuição justa da fraca renda económica?

Uma palavra de solidariedade aos jornalistas são-tomenses e também ao jornalista português, Waldir Araújo, delegado da RTP na Guiné, vítima brutal, neste fim de semana, de espancamento e roubo no centro de Bissau, agredido fisicamente, desprovido dos bens pessoais e intimidado por três jovens, pelo facto de noticiar a precisão daquele país de deriva ditatorial de um poder cobarde, cúmplice de violações, fora de prazo e de agenda anti-democrática.

Vem a memória o atentado e a destruição da Rádio Capital FM, na Guiné-Bissau, que dava voz ao cidadão e informava na livre expressão, similar ao jornalista agredido e ameaçado, porque faz parte do grupo que investiga um cadáver suspeito de brutalidade e assassinato por agenda, tudo indicia do poder presidencial caduco.

Renascer São Tomé e Príncipe!

José Maria Cardoso

27.07.2025

2 Comments

2 Comments

  1. Sem assunto

    30 de Julho de 2025 at 15:31

    Objectivamente esclarecedor.
    O mais caricato de tudo isto foi ouvir o ministro do Estado da economia, dizer que a imigração tem sido tão acelerada que não lhes têm dado tempo de prepararem e criar condições para a boa recepção e integração dos nossos imigrantes [em portugal diga se]. Que abusurdo, isto é atirar poeiras aos nossos olhos, qual condição poderá o Estado são tomemse criar para receber seja quem fôr além fronteiras?
    Sabe ele dizer qual é a causa da emigração?
    Por estes dias a queima roupa falam em possíveis trabalhos entre setores afim de elucidar as pessoas sobre a emigração. Só agora? Aonde andavam quando enfermeiros, professores, bons pedreiros, carpinteiros, marceneiros canalizadores , enfim homens de artes, gentes com empregos e bem remunerados, estudantes universitários, muitos até finalistas, abandonaram o país?
    O porquê do silêncio do governo e do disfarce patético do Carlos Vila, a quando da interpelação pela comunicação social, dizendo nada saber sobre a temática, quando o assunto já era manchete, dos nossos em bairro do talude?
    Têm medo de portugal é isto?
    São Tomé e Príncipe é um Estado Soberano, e como tal goza de liberdade questionar e pedir explicações para qualquer outro Estado sobre matérias que põem em causa a nossa existência colectiva. Os nossos irmãos em portugal não deixaram de ser são tomemses, logo um ataque desta natureza a eles põe em causa a coesão nacional.
    Tomem nota!

  2. GANDU@STP

    31 de Julho de 2025 at 10:12

    Bom dia STP!

    Assim é a triste realidade Humana!!! Muito cedo nos esqueçemos de que, ainda à pouco tempo, estavamos do outro lado.
    Vejamos: ISRAEL => PALESTINE

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