O discurso de Ano Novo do Presidente da República foi mais longo, mais denso e mais abrangente do que as versões resumidas inicialmente difundidas faziam supor. Ao longo de cerca de vinte minutos, o Chefe de Estado percorreu temas centrais da vida nacional: unidade e coesão, responsabilidade partilhada, educação, saúde, transparência da gestão pública, negociações com o Fundo Monetário Internacional, crescimento económico, inflação, preços dos combustíveis, ajustamentos salariais, o caso de 25 de Novembro, a Reserva Mundial da Biosfera, o reconhecimento do Tchiloli como património cultural imaterial da UNESCO, conquistas no desporto, imigração entendida como mobilidade e projecção internacional do país.
No conjunto, o discurso apresentou-se como um balanço globalmente positivo, sublinhando ganhos, esforços e bases lançadas para a prosperidade futura, com energia e saúde apontadas como áreas-chave do próximo ciclo.
A questão central, contudo, não é a relevância dos temas abordados — essa é indiscutível. A questão é como são lidos, seleccionados e hierarquizados num momento político concreto.
Um balanço que soa a governativo
Um primeiro ponto merece ser assinalado com clareza: grande parte do discurso assumiu um tom que tradicionalmente se associa à avaliação da acção governativa, mais do que à função arbitral, moderadora e de vigilância institucional própria da Presidência da República.
Crescimento do PIB em 2,5%, inflação de 10,9%, reduções sucessivas dos preços dos combustíveis, ajustamentos salariais na função pública, êxitos sectoriais — tudo isto é apresentado como sinal de trajectória positiva, ainda que vários destes indicadores não coincidam com a percepção quotidiana dos cidadãos, nem com projecções inscritas no próprio Orçamento do Estado, nem com os questionamentos legítimos que cada um deles suscita.
Não se trata de negar os dados enunciados. Trata-se de notar que o discurso opta por uma leitura linear e favorável, sem problematizar a distância entre números macroeconómicos e a experiência concreta das famílias.
Imigração: quando o capital moral não é usado
No tema da imigração, o Presidente escolheu uma linguagem tecnocrática e suavizada, falando sobretudo em “mobilidade”.
Aqui impõe-se uma distinção essencial por honestidade intelectual — e que o FVV não evita:
o Presidente da República não é alheio a este problema. Pelo contrário, há cerca de dois anos (corrijam-nos) foi uma das poucas figuras institucionais a alertar publicamente para os riscos do êxodo migratório, em especial entre os jovens, tendo sido então contrariado pelo anterior Primeiro-Ministro.
Esse historial conferia-lhe hoje capital moral e político para abordar o tema com firmeza, sublinhando aquilo que muitos sentem: a saída massiva de jovens e quadros qualificados, a erosão do futuro demográfico e a fragilização do tecido social. Fala-se, hoje, de acima de 50 mil pessoas em poucos mais de 3 anos.
Precisamente por isso, a opção por um argumento diluído não pode ser lida como distração. É uma escolha política consciente — e essa escolha empobrece o alcance do discurso.
O momento de autoridade que não foi assumido
Há também uma omissão relevante. Um dos actos politicamente mais firmes da actual Presidência foi a demissão do anterior Governo, justificada por deslealdade institucional, excesso de viagens, decisões arbitrárias e quebra de confiança. Esse gesto foi amplamente aplaudido por sectores diversos da sociedade, por representar um raro momento de autoridade com fundamento institucional.
Reconhecer este ponto não é elogio barato: é constatação factual.
Houve, naquele momento, uma Presidência com nervo político.
O problema é que o discurso não o assume. Ao não reivindicar esse acto, o Presidente prefere uma narrativa de continuidade e consenso, diluindo a ruptura que ele próprio protagonizou. E não foi de somenos importância.
Continuidade de práticas e memória curta
Mais delicado ainda é o facto de algumas das práticas criticadas no Governo anterior persistirem no actual: excesso de viagens, decisões pouco dialogadas, sensação de arbitrariedade. O discurso não reconhece essa continuidade, sugerindo implicitamente que os problemas se resolveram com a mudança de actores e não com a transformação das práticas.
Aqui, a narrativa entra em choque com a memória recente.
O caso de 25 de Novembro: incoerência e silêncio jurídico
O tratamento do caso de 25 de Novembro é, talvez, o ponto mais frágil do discurso. No FVV, mesmo contrariando leituras mais emotivas, fomos chamando atenção para os riscos formais e institucionais de algumas diligências presidenciais, sobretudo no último trimestre do ano passado. Assinalá-las não é acusar; é registar.
Há, contudo, factos objectivos que não podem ser contornados:
– O Ministério Público constituiu como arguidos altos quadros do sector da Defesa há já bastante tempo;
– o Presidente da República e o Conselho Superior de Defesa foram céleres em demitir o Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas após o desaparecimento do processo, imputando-lhe responsabilidade material;
– posteriormente, esse mesmo Conselho optou por suspender chefias indiciadas pelo Ministério Público, mantendo-lhes, porém, todas as regalias e privilégios.
Na prática, trata-se de uma suspensão com vencimento, sem explicação jurídica clara. Num caso há exoneração, permitindo a continuidade regular da instituição; no outro, há suspensão e fica pouco claro como se preserva a cadeia de comando militar com lideranças suspensas.
Não se compreende o fundamento legal, nem que interesse público é protegido.
A leitura política impõe-se: receio de confrontar o núcleo duro do poder armado.
O discurso evita este ponto — quando era precisamente aqui que se exigia clarificação.
Um mandato reescrito no discurso
Há ainda um elemento subtil, mas revelador. O discurso sugere, de forma implícita, que a acção presidencial efectiva começa apenas em Janeiro de 2025, apesar de o mandato ter iniciado em 2021. Os anos anteriores parecem dissolver-se: erros, impasses e responsabilidades desaparecem do enquadramento.
É uma reescrita confortável da cronologia, mas pouco convincente.
O silêncio sobre os 50 anos da Independência
Por fim, um silêncio impossível de ignorar: nem uma palavra sobre o fiasco institucional dos festejos dos 50 anos da Independência. Conflitos entre órgãos de soberania, improvisação, desorganização e vaidade marcaram um momento simbólico maior.
Num discurso que insiste na união e na coesão, esta omissão soa menos a esquecimento e mais a evasão.
Entre a esperança e a evasão
O discurso do Presidente apresenta uma visão optimista, coerente e pacificadora. Mas fá-lo à custa de silêncios estratégicos, de uma leitura selectiva da realidade e da diluição de responsabilidades.
Um discurso presidencial não é apenas o que afirma. É também o que escolhe não destacar, não assumir e não corrigir.
Quando existe capital moral para falar com firmeza e se opta pela suavização;
quando actos de registo político no passado que não são reivindicados;
quando problemas persistem, mas são tratados como superados;
O problema deixa de ser retórico. Passa a ser político e institucional.
É nesse ponto que a análise se impõe — não para desautorizar a figura do Presidente, mas para exigir que a palavra presidencial esteja à altura das responsabilidades que invoca.