Opinião

Onde a dignidade já não importa!

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Refiro-me, especificamente, à nossa terra. Nos anos 90, período de grande entusiasmo político, seria impensável imaginar que chegaria um momento em que uma boa parte dos protagonistas já não se importa com a dignidade, ou seja, em que a dignidade humana se tornou descartável.

No prelúdio da abertura política na Guiné -Bissau, que instituiu a liberdade de expressão e de imprensa como fundamentais para potenciar a democracia, na altura, a dignidade importava tanto que era, aliás, o motivo da nossa existência, enquanto “seres humanos”. É que, a vida só faz sentido quando há dignidade; só há dignidade quando há liberdade racional.

Nesse período, antes do virar do milénio, anos 90, constatava‑se na sociedade guineense em geral, e entre os atores políticos em particular, uma elevada preocupação patriótica. Embora não fosse totalmente perfeita, como é natural, a percentagem de quem agia com dignidade ultrapassava os 90%.

Tínhamos a dignidade em alta, a dignidade fazia eco na Guiné‑Bissau. As pessoas sentiam vergonha de ostentar riquezas e bens ilícitos. Atores políticos, jornalistas, juízes, advogados, empresários eram patriotas e assim se mantiveram até ao fim, não obstante outros convertidos à indignidade.

Aqui, destaco a elite política guineense que esteve nos anos 90: digna, inteligente, sobretudo dona de uma audácia incrível. Não obstante estivessem, mais vezes do que não, em lados opostos, as divergências eram leais e nunca diminuíram o respeito e a admiração mútua.

Aquela geração, que me seduzia a ponto de eu sonhar um dia ingressar na política ativa, era livre, incorruptível, muito inteligente, sem medos. Uma geração que faz falta à democracia e à Guiné‑Bissau.

Hoje, esta geração atual se envergonha: sem inteligência, corrupta, sem dignidade, cobarde, obcecada apenas em ostentar bens ilícitos e em exercer funções mal adquiridas, sem mérito e de forma ilícita.

Isto dá nojo!

Jamais sinto inveja de quem ostenta bens adquiridos ilicitamente, pelo contrário, vejo‑os como quem descarta a própria dignidade, ou como se esta já não importasse. Invejo e admiro, sim, aqueles que ainda vivem honestamente, do resultado do seu trabalho e dos seus rendimentos. Esses são pessoas da minha admiração.

Vejo muita ostentação ilícita na Guiné‑Bissau: casas, viaturas, entre outras exibições feitas sem vergonha, quando toda a gente sabe que são frutos de roubo e corrupção.

O único entendimento que tenho é que, não obstante serem portadores de diplomas, esses indivíduos são o lixo das universidades, com nível cultural e social baixos. Aliás, muitos deles carecem de uma educação multicultural.

Pergunto agora: por que não se importam com a dignidade?

Repito: sem dignidade, a nossa vida não faz sentido. Devemo‑la ter, no mínimo, para honrar a nossa família, os nossos filhos e as gerações vindouras. Esta vergonhosa situação de indignidade está presente em todos os setores da nossa vida, sobretudo na política, na imprensa e na justiça. Esta última, incumbida de moralizar a sociedade, infelizmente está à frente de toda a delinquência e da indignidade que se vive na Guiné‑Bissau.

A utilização da justiça para resolver problemas económicos, disputas políticas ou para aniquilar adversários foi dos piores males que a nossa democracia já experienciou. Pois, mesmo no regime estabelecido no período incipiente da democracia multipartidária na Guiné-Bissau, não se via tanta indignidade como agora, ainda que na altura a pobreza fosse extrema.

A geração que marcou a abertura política nos anos 90 tinha convicção, lutava por uma causa!

Agora tudo vale: os ladrões são respeitados e venerados na Guiné‑Bissau, enquanto aqueles que servem a pátria com dignidade e honestidade são caluniados, insultados e humilhados.

De onde vem tanta riqueza que podia construir escolas, hospitais no berço da nossa independência (Madina de Boé), ou na vila de Bercolon, onde as crianças têm o futuro roubado?

De onde vem tantas casas adquiridas momentaneamente no estrangeiro, mas que podiam construir hospitais na ilha de Canhabaque?

Afinal, por cá não se importam com a dignidade! Aliás, a dignidade é algo desconfortável agora no “chão da Guiné”!

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Por: Bacar CAMARÁ, Jornalista& Docente

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