“Eu sou poeta. E a poesia ajuda a dar alento, a poesia dá esperança, a poesia concorre para que não nos deixemos subterrar, esmagar pela descrença, pelo não futuro, pela ausência total de perspetivas. Eu acredito que São Tomé e Príncipe necessita de encontrar um caminho. As vias, os métodos, as formas, as estratégias, a visão para lá chegar. Mas acredito que São Tomé e Príncipe é um país viável. Quanto tempo levará, não sei. Provavelmente não estarei cá. Talvez esteja. Gostaria de estar.”
Foi com estas palavras que Conceição Lima encerrou a entrevista que lhe fiz, em julho de 2025, sobre o cinquentenário da independência são-tomense. Não sabia, na altura, que seria a nossa última conversa. Maria da Conceição Costa de Deus Lima, São para os amigos, partiu no dia 15 de maio. Tinha 64 anos. Com a morte da mais importante poeta e escritora são-tomense da sua geração, encerra-se um ciclo na literatura de língua portuguesa.
Conceição Lima nasceu em 1961 na ilha de São Tomé. Tinha 14 anos quando o seu país se tornou independente. Do arquipélago africano, partiu para o mundo. Licenciou-se em Estudos Afro-Portugueses e Brasileiros pelo King’s College de Londres e completou o seu mestrado em Estudos Africanos na SOAS, Universidade de Londres. Ao fim de quinze anos em Inglaterra, onde trabalhou como jornalista nos Serviços de Língua Portuguesa da BBC, regressou a São Tomé. Fundou e dirigiu o semanário O País Hoje. Tornou-se numa presença regular da televisão são-tomense, destacando-se pela sua incessante luta contra os poderes políticos instalados. Criou muitos inimigos – e ainda mais admiradores.
Foi através da poesia que Conceição Lima levou as suas ilhas ao mundo. Com apenas 19 anos, viajou para Angola para participar na VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos. Desde então, publicou vários livros sob a chancela da Editorial Caminho, com o editor Zeferino Coelho – entre eles, O Útero da Casa (2004), A Dolorosa Raiz do Micondó (2006) e O País de Akendenguê (2011). Mais recentemente, publicou um livro de crónicas, O Mundo Visto do Maio (2023), e uma coleção de fábulas intitulada Quando os cães deixaram de falar (2025). É a obra que nos deixa.
As palavras que escreveu partiram do Atlântico e viajaram por todo o mundo, ignorando fronteiras e barreiras. Os seus livros e poemas foram traduzidos para alemão, árabe, espanhol, checo, francês, galego, italiano, inglês, shona, servo-croata e turco. Foi galardoada com inúmeros prémios nacionais e internacionais. Em 2025, foi distinguida pelo Governo são-tomense como embaixadora da Cultura e recebeu o Prémio norte-americano Northern California Book Award pela antologia poética No Gods Live Here. Consagrou-se como uma das mais importantes vozes da língua portuguesa. Conquistou um lugar de proa numa longa genealogia de poetas africanos e são-tomenses. Regularmente comparada a Alda Espírito Santo e a Sophia de Mello Breyner, Conceição Lima tornou-se incomparável. Uma figura que vale por si própria, sem serem necessárias quaisquer comparações.
Escreveu Inocência Mata que “a poesia de Conceição Lima … pretende dar sentido ao caos societário e às injustiças sociais.” Eram estes os temas a que voltaríamos, sempre, nas nossas conversas. A história, a memória, a política. As revoluções falhadas e as que ainda virão. A sua poesia não era um mero subterfúgio para a vida, um conjunto de estrofes estéreis. A escrita de Conceição Lima era a transformação de uma visão política em verso. Era a denúncia das injustiças que via a partir de São Tomé e Príncipe mas que nunca se cingia ao arquipélago. Escrevia sobre o mundo inteiro a partir das ilhas.
Quando a entrevistei pela primeira vez, em meados de 2022, Conceição Lima falou-me sobre o problema da amnésia histórica, do esquecimento voluntário de passados difíceis em sociedades pós-coloniais. Explicava que só poderemos exorcizar os demónios do passado se os encararmos de frente. A vasta obra que nos deixa – os poemas, as crónicas, as intervenções públicas, as fábulas – reflete este gesto de confrontação destemida. Na obra de Conceição Lima, olhar sem medo para o passado permitiu criar uma nova ideia de futuro. Dar esperança. Nas suas palavras, impedir que sejamos esmagados pela descrença.
Com a partida de Conceição Lima, perdi uma amiga que também foi mentora. São Tomé e Príncipe perdeu uma figura que levou as ilhas ao mundo e que as pensou como ninguém. O mundo perdeu uma escritora que encontrava as palavras certas para confrontar todas as suas injustiças e brutalidades. Dizia-me, a dada altura, que imaginava São Tomé como um pássaro ferido. “Um pássaro ainda ferido e teimoso, mas que se recusa a desistir de voar.” Conceição Lima voou e deixou-nos cedo demais. Não nos esqueceremos.
João Moreira da Silva (Cambridge, 15 de Maio de 2026)