Há expressões populares que conseguem dizer, em poucas palavras, aquilo que longos discursos políticos nunca conseguem explicar. A sabedoria do povo forro continua a ser uma das maiores riquezas desta nação. “Non sá gato cu quem cu auwa quentxi, olá non cabê awa fio non ca colê” é uma dessas expressões. Traduzida para português, significa que somos como gatos queimados com água quente e que, depois da dor sofrida, até da água fria fogem por medo.
É exactamente assim que muitos são tomenses olham hoje para as eleições presidenciais. O povo já foi enganado demasiadas vezes. Já ouviu promessas de desenvolvimento, combate à pobreza, criação de empregos, moralização da justiça, melhoria da saúde, valorização da juventude e defesa da soberania nacional. No entanto, eleição após eleição, o país continua atolado na mesma pobreza, no mesmo desemprego e na mesma ausência de perspectivas.
Os candidatos surgem sempre com discursos bonitos, frases emocionantes e promessas cuidadosamente ensaiadas para tocar os corações dos mais desesperados. Uns prometem ser o “Presidente do povo”, outros dizem que vão “unir a nação”, enquanto alguns aparecem como salvadores enviados para resolver todos os problemas do país. Mas quando se analisa o conteúdo real das suas propostas, encontra-se quase nada. Falam muito, mas dizem pouco. Prometem tudo, mas explicam nada.
O povo santomense já não precisa de slogans vazios. Precisa de respostas concretas. Como será criado emprego? Como será combatida a corrupção? Como será financiada a agricultura? Como será resolvido o problema da energia? Como será valorizada a educação? Estas são perguntas fundamentais que raramente recebem respostas sérias.
O mais preocupante é que a função presidencial foi tão degradada ao longo dos anos que hoje qualquer pessoa acredita poder ocupar o mais alto cargo da República sem preparação, sem visão e sem sentido de Estado. A presidência deixou de ser vista como símbolo de responsabilidade nacional para se transformar, muitas vezes, num palco de vaidades pessoais, popularidade barata e ambições sem conteúdo.
Chegámos a um ponto em que o povo comenta, nas ruas e nos mercados, que até “Juvé” quer ser Presidente da República e “Cocolola” poderá ser a primeira-dama. Esta linguagem popular, apesar do tom humorístico, revela uma tragédia política profunda: a banalização completa das instituições da República. Quando a figura presidencial perde dignidade, perde-se também o respeito pelo próprio Estado.
A culpa, porém, não pertence apenas aos políticos. Há uma parte da juventude santomense que também falhou consigo mesma e com o país. Muitos jovens trocaram os livros pelas camisolas de campanha, a formação pelo fanatismo político e o futuro por pequenas migalhas distribuídas durante os períodos eleitorais. Vendem a consciência por cinquenta dobras, por uma cerveja, por uma t-shirt ou por promessas que sabem que nunca serão cumpridas.
É doloroso ver uma juventude que deveria estar nas bibliotecas, nos centros de formação, nas universidades e nos espaços de inovação, mas que prefere viver dependente de favores políticos. Uma juventude que já não sonha em construir empresas, desenvolver projectos ou transformar o país, porque foi ensinada a esperar tudo dos políticos.
Sem uma juventude instruída, crítica e independente, São Tomé e Príncipe continuará refém dos mesmos ciclos de pobreza e manipulação. O futuro de uma nação não pode ser construído por jovens sem ambição intelectual nem consciência cívica.
O povo santomense tem razões para desconfiar. Já sofreu demais com falsas promessas, governos incompetentes e lideranças sem visão. Somos, de facto, gatos queimados pela água quente da mentira política. E hoje, até quando aparece água fria, corremos por medo de voltar a sofrer.
Mas um país não pode viver eternamente dominado pelo medo, pela resignação e pela pobreza mental. É necessário exigir mais dos candidatos, mais das instituições e também mais de nós próprios. As eleições não devem ser uma festa de ilusões, mas sim um momento sério de escolha nacional.
São Tomé e Príncipe precisa urgentemente de líderes preparados, honestos e comprometidos com soluções concretas. Precisa igualmente de cidadãos conscientes, capazes de distinguir discursos vazios de projectos sérios.
Porque enquanto continuarmos a transformar a política num carnaval de promessas, o país continuará parado, e o povo continuará a fugir até da água fria.
Regino Inglês