É, no mínimo, paradoxal defender que as pessoas com mais de 60 anos devam ser afastadas de cargos de decisão apenas para dar lugar aos mais jovens. A renovação geracional é importante. O etarismo, porém, nunca o será.
Num país onde a sistematização do conhecimento continua a ser uma das nossas maiores fragilidades — em que a definição de funções, a descrição de postos de trabalho, os termos de referência e os mecanismos de transmissão do conhecimento são frequentemente insuficientes ou inexistentes —, as pessoas acabam por ser verdadeiros repositórios de experiência, memória institucional e conhecimento histórico.
São, em muitos casos, as bibliotecas vivas das organizações.
Perante esta realidade, faz sentido estabelecer um limite etário para o exercício de determinadas funções?
Só faria sentido se fosse possível demonstrar, de forma objetiva, que a idade, por si só, determina a perda das capacidades necessárias ao desempenho dessas funções. Essa demonstração simplesmente não existe.
Pelo contrário. A experiência mostra-nos precisamente o oposto. Recordo-me de uma experiência levada a cabo, há alguns anos, na Administração Pública, em que diversos profissionais experientes foram afastados. Pouco tempo depois, muitos tiveram de ser chamados novamente para apoiar aqueles que os haviam substituído, porque o conhecimento que possuíam não tinha sido transmitido nem podia ser rapidamente reconstruído.
Defender a valorização da experiência não significa opor-se ao rejuvenescimento. Seria um falso dilema. O país precisa de renovar quadros, criar oportunidades para os mais jovens e preparar novas lideranças. Mas também precisa de preservar o conhecimento acumulado e garantir uma transição inteligente entre gerações. O verdadeiro progresso faz-se pela complementaridade, não pela substituição cega.
Há responsabilidades que não se improvisam.
Liderar exige muito mais do que energia, ambição ou boas intenções. Exige discernimento, capacidade de decisão, maturidade, visão estratégica e experiência adquirida ao longo de um percurso profissional e humano. Essas qualidades não surgem automaticamente com a idade, mas dificilmente se constroem sem ela.
Vale, por isso, a pena colocar uma questão simples: a história recente do nosso país demonstra que o facto de muitos dirigentes terem iniciado a sua vida política ainda jovens se traduziu, por si só, em melhores resultados para o país? E, inversamente, existe alguma evidência de que dirigentes mais experientes teriam conduzido o país por um caminho necessariamente pior? A resposta parece evidente.
Existem, aliás, exemplos em África de países que, desde a independência, puderam contar com dirigentes altamente qualificados, cultos e com sólida experiência profissional e de gestão antes de assumirem funções de topo. A existência desses quadros contribuiu para criar instituições mais robustas e para acelerar o desenvolvimento nacional. A competência nunca foi um obstáculo ao progresso; antes pelo contrário.
Em democracia, o critério para o exercício de funções públicas não deve ser a idade, mas a competência, a integridade, o mérito, a experiência demonstrada e a capacidade efetiva de servir o interesse coletivo.
Transformar a idade num critério de exclusão não é promover a renovação. É substituir a avaliação pelo preconceito. E um país que desperdiça a experiência dos seus melhores quadros apenas porque atingiram determinada idade está, na realidade, a empobrecer-se a si próprio.
O desafio nunca foi escolher entre juventude e experiência. O verdadeiro desafio é saber reconhecer o mérito, independentemente da idade. Quando deixarmos de confundir renovação com descarte, estaremos, finalmente, a dar um passo em frente.

Jorge Torres”