Talvez esta frase traduza, de forma quase irónica, uma parte preocupante do momento que vivemos. Não porque devamos procurar um único culpado para todos os problemas de São Tomé e Príncipe, mas porque revela uma tendência cada vez mais perigosa: a necessidade permanente de encontrar alguém a quem atribuir a culpa, em vez de procurarmos compreender as causas dos problemas e, sobretudo, encontrar soluções. Vejo isso, inclusive, na área em que trabalho.
Quando um aluno obtém uma classificação negativa, rapidamente surge a explicação de que “os alunos não estudam”. Do outro lado, ouvimos que “os professores não ensinam bem”. E, enquanto professores e alunos apontam o dedo uns aos outros, a questão verdadeiramente importante fica, muitas vezes, esquecida: o que podemos fazer, em conjunto, para melhorar o processo de ensino e aprendizagem?
Este pequeno exemplo do quotidiano talvez seja muito mais profundo do que parece. Revela um comportamento que se pode reproduzir à escala de toda a sociedade: quando algo corre mal, procuramos imediatamente um culpado; quando algo corre bem, raramente perguntamos que responsabilidade colectiva tornou isso possível.
E talvez seja precisamente aqui que começa a nossa reflexão sobre o bem comum. A responsabilidade pode estar no governo, na oposição, nos governos anteriores, nas instituições, nos cidadãos ou, em diferentes graus, em todos nós.
Mas, quando transformamos os problemas nacionais numa disputa permanente sobre quem é o culpado, deixamos de procurar soluções e passamos a alimentar um ciclo de acusações que pouco ou nada contribui para o desenvolvimento do país. São Tomé e Príncipe atravessa um período particularmente delicado.
As dificuldades económicas, os problemas no sector energético, a crescente pressão sobre as famílias, as limitações dos serviços públicos e a falta de oportunidades para muitos jovens alimentam um sentimento crescente de frustração, desencanto e descrença.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma sociedade cada vez mais polarizada, onde as diferenças políticas e sociais começam, perigosamente, a transformar-se em divisões entre cidadãos.
É precisamente neste contexto que deveríamos exigir mais responsabilidade, mais serenidade, mais diálogo e maior capacidade para pensar para além dos interesses imediatos.
Não precisamos de discursos que coloquem santomenses contra santomenses.
Não precisamos de uma política baseada permanentemente na procura de culpados.
Precisamos de reconhecer os nossos erros, assumir responsabilidades e, sobretudo, construir soluções. Quando o problema deixa de ser de alguém e passa a ser de todos É neste ponto que o conceito de “tragédia dos comuns”, desenvolvido pelo ecólogo Garrett Hardin, nos pode ajudar a compreender melhor aquilo que está a acontecer.
A ideia é relativamente simples: quando um recurso é partilhado por todos, mas cada indivíduo ou grupo procura maximizar o seu próprio benefício sem considerar as consequências para o conjunto, esse recurso acaba por ser progressivamente degradado e, em última instância, pode ser destruído.
Mas os “comuns” não são apenas os recursos naturais. Uma sociedade também possui bens comuns. A confiança, a educação, a saúde, a segurança, as instituições, a democracia, a estabilidade social, o ambiente, os recursos naturais, a cultura e até a esperança colectiva num futuro melhor são bens que pertencem a todos. E é aqui que o conceito ganha uma dimensão particularmente importante para São Tomé e Príncipe.
Quando cada grupo procura apenas defender o seu próprio interesse; quando cada partido pensa sobretudo na próxima eleição; quando cada governo procura responsabilizar o anterior; quando cada oposição procura explorar todas as fragilidades do governo; quando cada sector da sociedade olha apenas para os seus próprios problemas; quando a informação é utilizada para manipular em vez de esclarecer; e quando os cidadãos são incentivados a hostilizar aqueles que pensam de forma diferente, estamos, colectivamente, a consumir o nosso próprio bem comum.
É a mesma lógica do aluno que culpa o professor e do professor que culpa o aluno. Cada um procura proteger-se. Cada um procura demonstrar que o problema está no outro. E, enquanto isso, o problema permanece.
À escala nacional, o resultado pode ser muito mais grave. Se todos procurarmos saber apenas “quem é o culpado?”, mas ninguém quiser assumir a responsabilidade de perguntar “o que podemos fazer para melhorar?”, acabaremos por degradar aquilo que pertence a todos. Essa é a verdadeira dimensão da tragédia dos comuns.
O nosso maior bem comum é São Tomé e Príncipe O bem comum de São Tomé e Príncipe não pertence a nenhum partido. Não pertence ao governo.
Não pertence à oposição. Não pertence a nenhuma instituição, grupo económico ou sector da sociedade. Pertence a todos nós.
A energia de que precisamos para fazer funcionar o país, a saúde que deve responder às necessidades da população, as escolas e universidades que precisam de qualidade, as estradas e infra-estruturas que necessitam de manutenção, os recursos naturais que temos a obrigação de preservar, os oceanos que sustentam as nossas comunidades, as florestas e os mangais que protegem as nossas ilhas, a agricultura que alimenta as famílias, a cultura que preserva a nossa identidade e a confiança que permite que uma sociedade funcione, tudo isso constitui parte dos nossos bens comuns.
E quando cada um procura retirar o máximo possível desse sistema sem se preocupar com a sua sustentabilidade, o resultado colectivo é inevitavelmente negativo.
É por isso que a tragédia dos comuns não deve ser entendida apenas como uma questão económica ou ambiental.
É também uma questão política, social e moral. Estamos a decidir, todos os dias, que país queremos deixar às próximas gerações. Estamos a perder algo maior do que uma disputa política O que me preocupa não é apenas um episódio, uma declaração ou uma disputa política específica.
É uma tendência que se tem tornado cada vez mais evidente: a transformação das diferenças políticas e sociais numa verdadeira divisão entre cidadãos.
Uma parte da população sente-se esquecida. Outra sente-se igualmente abandonada. Uns culpam o governo. Outros culpam a oposição. Uns culpam os funcionários públicos. Outros culpam os empresários. Uns culpam os mais pobres. Outros culpam os mais ricos.
E, enquanto todos procuram um culpado, a pergunta fundamental permanece: Quem está, verdadeiramente, a cuidar de São Tomé e Príncipe?
Estamos a transformar a pobreza, a frustração, a falta de oportunidades e a insegurança em combustível político. E isso é extremamente perigoso.
Uma população cansada, economicamente fragilizada e sem perspectivas claras para o futuro dos seus filhos torna-se mais vulnerável à manipulação, à desinformação e aos discursos de ódio. É assim que uma sociedade começa a fragmentar-se.
Primeiro, dividimo-nos entre “nós” e “eles”. Depois, deixamos de ouvir. Em seguida, deixamos de respeitar. E, finalmente, começamos a acreditar que o problema do país são sempre os outros.
Mais grave ainda, começa a instalar-se uma percepção particularmente perigosa: a de que o país já tem dono.
Quando esta ideia começa a ganhar espaço, instala-se também o desencanto. Para quê estudar mais? Para quê trabalhar mais? Para quê dedicar-se mais? Para quê investir no conhecimento, na investigação, na inovação ou no serviço público, se as oportunidades parecem estar previamente destinadas a alguns?
Este é talvez um dos efeitos mais perversos da perda de confiança numa sociedade: quando as pessoas deixam de acreditar que o mérito, o trabalho, o conhecimento e a dedicação podem fazer a diferença, deixam também de sentir que vale a pena esforçar-se.
E quando um país começa a perder a confiança no esforço dos seus próprios cidadãos, começa a perder uma das suas maiores riquezas: a vontade colectiva de construir o futuro.
É por isso que esta percepção precisa de ser combatida. São Tomé e Príncipe não pode ser propriedade de ninguém.
O país não tem donos; tem cidadãos, tem uma história e tem uma responsabilidade colectiva perante as gerações que virão.
Se aceitarmos que “o país já tem dono”, estaremos, na verdade, a entregar o nosso futuro antes mesmo de o termos construído.
A política não pode destruir a identidade santomense São Tomé e Príncipe é muito maior do que as suas disputas políticas.
Somos um povo pequeno em número, mas extraordinariamente rico em história, cultura, biodiversidade e identidade.
Somos herdeiros de uma história construída por gerações de santomenses que enfrentaram enormes dificuldades para construir este país.
Não podemos permitir que as nossas diferenças políticas destruam essa herança.
Não podemos transformar o nosso vizinho, colega, familiar ou amigo num inimigo simplesmente porque pensa ou vota de maneira diferente.
A democracia não significa que todos pensemos da mesma forma.
Democracia significa podermos pensar de maneira diferente sem deixarmos de nos reconhecer como parte da mesma Nação.
Precisamos de acender a vela.
É neste ponto que me recordo de Carl Sagan e da sua extraordinária obra O Mundo Assombrado pelos Demónios: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro.
Sagan alerta-nos para os perigos de uma sociedade em que a desinformação, as pseudociências, o pensamento mágico e as afirmações sem fundamento ocupam o espaço que deveria pertencer ao conhecimento e ao pensamento crítico.
A metáfora da vela é poderosa. Uma pequena vela não elimina toda a escuridão, mas permite-nos ver o caminho.
São Tomé e Príncipe precisa dessa vela.
Precisa de ciência, educação, pensamento crítico, instituições fortes, comunicação social responsável e cidadãos capazes de questionar aquilo que lhes é apresentado como verdade.
Precisamos de aprender a distinguir informação de propaganda, crítica de ódio, divergência de intolerância e patriotismo de partidarismo.
Precisamos, sobretudo, de recuperar a capacidade de conversar uns com os outros sem transformar toda a divergência numa guerra.
Não podemos consumir o nosso próprio futuro.
A verdadeira tragédia dos comuns seria chegarmos ao ponto em que todos, procurando proteger os nossos interesses individuais, acabássemos por destruir aquilo que pertence a todos.
Se cada um retirar o máximo possível do Estado sem se preocupar com a sustentabilidade das instituições, enfraquecemos o próprio Estado.
Se cada governo pensar apenas no seu mandato, comprometemos o futuro.
Se cada partido pensar apenas na próxima eleição, sacrificamos políticas de longo prazo.
Se cada sector da sociedade defender apenas os seus interesses imediatos, sem olhar para o conjunto, enfraquecemos a sociedade.
Se destruirmos as nossas florestas, mangais, rios e recursos marinhos em nome de benefícios imediatos, estaremos a hipotecar o futuro das próximas gerações.
E se continuarmos a alimentar o ódio entre santomenses, destruiremos a confiança que mantém uma sociedade unida.
Essa é a verdadeira tragédia dos comuns: cada um pode pensar que está a proteger o seu próprio interesse, enquanto todos, colectivamente, destruímos aquilo de que dependemos.
Por isso, talvez seja necessário inverter a pergunta. Em vez de perguntarmos constantemente:
“De quem é a culpa?” Deveríamos começar a perguntar: “Qual é a nossa responsabilidade?” E, sobretudo: “O que podemos fazer juntos para melhorar aquilo que pertence a todos?”
São Tomé e Príncipe não precisa de mais inimigos internos.
Precisa de cidadãos.
Precisa de instituições fortes.
Precisa de responsabilidade.
Precisa de conhecimento.
Precisa de diálogo.
Precisa de visão.
E precisa, acima de tudo, de esperança.
Precisamos de recuperar a consciência de que, apesar das nossas diferenças, continuamos a ser um só povo e uma só Nação.
A política passa. Os governos passam. Os partidos passam. As disputas passam.
Mas São Tomé e Príncipe fica.
E é precisamente por isso que não podemos permitir que as disputas do presente destruam o país que recebemos como herança e que temos a responsabilidade de entregar às próximas gerações.
A culpa pode ser minha.
Pode ser tua.
Pode ser nossa.
Mas a responsabilidade pelo futuro também é nossa.
Porque, no fim, o problema não é apenas saber quem tem a culpa.
O verdadeiro desafio é saber se ainda somos capazes de assumir a responsabilidade colectiva pelo país que é de todos nós.
E esse futuro não pode ser colocado nas mãos de quem quiser.
Tem de ser construído por todos nós.
H. Maia. 13 de agosto de 2026.