Sociedade

Marginal perdeu balaústres e carroceiros centenários, ganhou betão armado e um mercado de peixe

As obras de requalificação de apenas uma parte da marginal da cidade de São Tomé estão avançadas e começam a revelar o novo cenário da varanda da cidade capital.

Os cidadãos começam a perceber que a antiga varanda linda contornada por balaústres, está a desaparecer dando lugar a um espesso betão armado.

Os carroceiros que davam sombra e pintavam a marginal de um verde exuberante foram os primeiros a serem abatidos. Árvores centenárias que guardam a história da capital São Tomé tombaram uma atrás da outra.

Árvores que fizeram parte da vida de milhares de santomenses. Árvores que testemunharam a felicidade de casais de namorados nos assentos à beira-mar. Árvores que deixavam cair caroços maduros, para a delícia das crianças e dos jovens na ida ou no regresso da escola.

Carroceiros que anunciavam para várias gerações de santomenses, a chegada da estação da chuva e o fim da estação seca, a gravana. Período em que os carroceiros lançava para a marginal milhares de folhas secas. O anúncio da vinda da chuva era visível no renovar das folhas, os carroceiros voltavam a pintar a marginal de um verde denso e vivo.

Uma manifestação da natureza, que a requalificação matou. As raízes profundas dos carroceiros protegiam a marginal, seguravam o solo arenoso, e evitavam as erosões.

Betão armado é o novo ornamento da marginal, os balaústres tombaram. A insolação directa domina o “Bairro Yon Gato na Baía de Ana Chaves”, que é o título de uma música reveladora do encanto, da vivacidade da antiga marginal de São Tomé.

Mas os santomenses que cresceram a sombra da linda Marginal, estão atentos e começaram a reagir ao novo cenário que se desponta ao ritmo do avanço das obras de requalificação.

A sociedade civil ficou espantada com as obras de um mercado de peixe, que começou a ser erguido na curva da baía de Ana Chaves, mais concretamente entre a capela de Bom Despacho e a praça da UCCLA.  O protesto da sociedade civil forçou o governo a suspender a obra de construção do mercado de peixe.

A sociedade civil santomense bate a mão na mesa para preservar o que é seu, para proteger as marcas identitárias da sua cidade.

Abel Veiga

5 Comments

5 Comments

  1. Santo António

    14 de Agosto de 2025 at 14:21

    Ok, agora é preciso saber que haverá sistema de drenagem a altura das enchentes/cheias que tem assolado a cidade de São Tomé nos últimos anos;

    Se não houver, o cenário será pior que o que aconteceu na cidade de Mindelo e São Vicente-Cabo Verde. Os balautres serviam de ventilação e favoreciam o escoamento das águas pluviais quanto fossem em grande quantidade;

    Agora com este Betão, e pouco poroso ou melhor com estes furinhos, a cidade de São Tomé, sobretudo a parte central ficará um Lago. Um novo lago, lago de Agua Grande no Distrito do mesmo nome.

  2. Solano Monteiro

    14 de Agosto de 2025 at 17:04

    Arranjar a marginal, perfeitamente de acordo e necessario. A 20 metros desta marginal, temos o caos das ruas entupidas de sucatas, passeios perigosos para os peões, ruas com crateras e quase intransitáveis, passeios transformados em lixeira, etc…

  3. Manuel do Rosário

    14 de Agosto de 2025 at 19:35

    Desconheço o projeto. Mas com o atual problema climático a subida de água do mar não permite que se faça a vedação com balaústres que de facto dava uma beleza a marginal. As arvores teriam que ser cortadas atendendo que as suas raízes poderiam destruir as novas obras dos passeios. O que devem fazer é replantar outras novas.

  4. Jorge Semeado

    15 de Agosto de 2025 at 7:30

    Quanto às árvores, é imprescindível plantar novas plantas para a purificação do ambiente, redução da força/velocidade do vendaval em certas ocasiões, evitar a erosão dos solos e sobretudo para proporcionar sombra aos traunsientes. A escolha de arvores que sazonalmente, menos sujam o pavimento com as suas folhas e/ou frutos é importante.
    Quanto a drenagem adequada das aguas das chuvas e das aguas das ondas do mar, torna-se necessário precaver desde já, desenhar e implementar uma solução apropriada agora, para evitarmos dissabores no futuro. Diz um ditado: quem avisa, amigo é. Os Dirigentes não devem fazer ouvidos de mercador agora, deixando as consequências para os seus sucessores.

  5. Arlindo

    15 de Agosto de 2025 at 16:42

    Tirar os carrosseiros ?
    Que demonstração de inteligência!
    Agradecemos aos arquitetos e aos funcionários que aceitaram isso!

    Esta obra é para quê?
    Renovar, embelezar, atrair mais turistas e termos mais orgulho do nosso país?

    Ou, pelo contrário, será mais uma vez a demonstração de um apetite insaciável por continuar a comer o dinheiro do povo?

    O betão liso custa menos do que balaustres com charme…!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top