Opinião

A Avenida Marginal 12 de Julho, é Nossa!

Nasci em Guadalupe e muito cedo vim para a cidade capital para estudar e trabalhar. Por muito tempo vivi na Marginal, mais concretamente no bairro de São João e foi sempre para mim e para muitos colegas do bairro naquela altura, um local publico de laser dedicado as atividades recreativas, relaxamento pós-laboral, convívio social, atividades desportivas, como caminhada, pesca, natação, vela, contemplação das ondas do mar etc. Foi também um local de passeios amorosos sobretudos aos fins de semana. Depois da Independência, ela foi batizada de Avenida Marginal 12 de Julho e, é indiscutivelmente um dos lugares mais aprazível e belo da nossa cidade capital.

Para além da sua beleza e uma Baia espetacular, vista a partir da descida do hospital, ela é apreciada por muitos turistas que nos visitam, e é onde ficam os edifícios e sítios mais emblemáticos da cidade de São Tomé como, Praça da Independência, Palácio Presidencial, o edifício dos Registos Civis e Notariado, Correios e CST, Tribunal de Contas, a imponente Igreja da Sé Catedral, Igreja de Bom Jesus, Igreja Bom Despacho, Banco Central, Museu Nacional e antiga Escola de Artes e Ofícios que noutros tempos formou muitos jovens, alguns deles vieram a ser dirigentes deste Pais.

Há alguns anos a essa parte, devido a erosão costeira que degradou grandemente a Marginal e consequentemente a invasão de água do mar que atingiu os passeios e jardins em quase toda a sua extensão, houve a necessidade de se encontrar financiamento para estancar esse mal que se degradava anos após anos.

Em 2012 os Países Baixos disponibilizaram um financiamento para a requalificação da Marginal e, mais tarde ajuntou-se a ele, o financiamento do Banco Europeu do Desenvolvimento.

Por motivos políticos que os nossos governantes já nos habituaram, um dos grandes cancros que impedem o desenvolvimento deste Pais, o início da obra foi constantemente adiado até que em 2024 teve o seu início, mas de forma muito atabalhoada que descreveremos mais abaixo.

Por tudo o que disse atras, importa chamar a atenção que a nossa Marginal é um espaço de cidadania e não pode ser meia dúzia de técnicos que conceberam o projeto a sua maneira e os seus responsáveis, que acham que podem decidir tudo sem dar satisfação a ninguém.  

Manda o bom senso que o projeto dessa envergadura como o da Nova Marginal, como lhe tem chamado, fosse amplamente publicitado e discutido com a participação dos cidadãos, a fim de se colher subsídios para evitar situações que estamos a viver atualmente e também para apropriação dos próprios citadinos, o que infelizmente não aconteceu. Consequência dessa falha grave, são as diferentes lacunas que se estão a constatar no decorrer da execução do projeto, algumas delas inadmissíveis e incompreensíveis para profissionais de obras públicas.

 O que se tem constatado com muita tristeza é que em vez de se requalificar a Marginal, ela está sendo impiedosamente descaracterizada.  

Quero realçar duas dessas falhas que mereceram forte indignação dos citadinos e da população em geral:

Desde que se iniciou a execução desse projeto eu e muitos através das redes sociais questionávamos como é que iria ser feita a requalificação da Marginal? As estruturas que iam ser alteradas, novas estruturas a serem erguidas, se a reabilitação dos dois pontões da Praça da Independência estava contemplada no projeto, assim como a piscina do Náutico. Cada um especulava a sua maneira porque ninguém conhecia o projeto.

Quando se iniciou a construção do polémico mercado de peixe, agora suspensa, eu até pensava que era um pontão para atracagem de pequenas embarcações de transporte de turistas dos navios cruzeiros que por vezes visitam o Pais, já que o local onde desembarcam atualmente, no espaço das Alfandegas, não oferece condições condignas para esse tipo de atividade. Por isso é que quando oficialmente foi dito que é um mercado de peixe, causou em mim e muitos internautas muita estranheza e uma forte indignação, tendo em conta a nobreza desse local para a implantação desse tipo de infraestrutura. Todos conhecemos o comportamento das nossas palaiês se tivermos em conta a experiência do local de venda de peixe do novo mercado de Bôbô Fôro e a forma como esta sendo vandalizado, perante a indiferença das autoridades camararias.

Por outro lado, até agora continuo com muitas dúvidas sobre esse projeto, porque muito aspeto dele ainda não mereceu esclarecimento de quem de direito. Por exemplo, por que razão em vez daquele muro de betão com esse especto horrível ao longo da Baia, não se preferiu o modelo dos antigos e lindos balaústres que davam brilho e beleza a Marginal? É claro que se tinha que fazer adaptações devido a invasão da água do mar sobretudo quando a maré estivesse cheia. Estive a apreciar a beleza dos balaustres que cercam a parte dianteira do Palácio do Governo junto a Praça Yon Gato e pensei logo que podia eventualmente ser o modelo para a Marginal, claro, com as devidas adaptações devido o efeito prejudicial das ondas do mar.

Outra questão é a arborização e jardinagem da Marginal. Este especto está contemplado? Se está, que tipo de arvores estão previstas em substituição das que existiam e que foram derrubadas? Já agora, sugeria as nossas acácias rubras que nos outros tempo embelezavam as ruas da nossa cidade com as suas lindas flores avermelhadas, como uma das plantas a serem reintroduzidas.

Um dos grandes problemas dos governantes são-tomenses é o secretismo que injustificadamente conferem aos assuntos de domínio públicos. Por que razão? Querem esconder ao publico alguma coisa?

Aconselho aos decisores deste Pais para acabarem com esse tipo de procedimento e comportamento porque passa uma má imagem aos nossos financiadores e investidores e provocam constantemente suspeição no seio da população. Os nossos técnicos devem ser mais profissionais e competentes para evitar essas situações que prejudica a nossa débil economia. A questão do mercado de peixe naquele local é um dos muitos casos que acontecem com a execução de alguns projetos aqui em São Tomé e Príncipe. Há que se por termo a isso e começar a fazer as coisas corretamente, com bom gosto, profissionalismo e transparência.

Agora resta saber o destino que se vai dar ao esqueleto da obra do mercado de peixe. Desde início dessa polémica que culminou com a suspensão da obra, sempre disse que a demolição seria uma má opção devido o custo que acarretaria. Em vez disso deve-se proceder a devida alteração arquitetónica e adapta-lo a outras funcionalidades com maior utilidade em harmonia com o local. Que tal umas instalações multiuso de laser e para albergar uma pequena sala de desembarque de turistas de cruzeiros, loja de venda de artesanato e produtos locais, um bar e restaurante com explanada virada para a Baia? Até porque ao longo da nossa linda Baia ainda não existe nenhum bar restaurante com explanada virada para o mar.

Por isso é que termino chamando a atenção que a Avenida Marginal 12 de julho é nossa, é um local de cidadania.    

São Tomé, 18 de agosto de 2025

Fernando Simão

1 Comment

1 Comment

  1. ONDE MESMO

    19 de Agosto de 2025 at 12:33

    Por mim a suspensão das obras na Marginal 12 de Julho deveria ser total e não somente o dito mercado de peixe. Estão a construir passeios enormes por onde irão passar meia dúzia de pessoas de cada vez e por outro lado diminuíram o tamanho das faixas de rodagem de viaturas que cada vez mais vai crescendo de número em circulação. Parque de estacionamento nem vê-los, se os residentes da marginal entre S. Pedro e a entrada para o CKDO estacionarem as suas viaturas à porta, teremos constrangimentos no trânsito. Resumindo, as obras são uma bosta.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top