Num daqueles jantares em que se juntam amigos de infância e de uma juventude que se esvanece, que serve o único propósito de enaltecer estórias heroicas em que somos protagonistas, por entre uma vintena de amigos e amigos de amigos, coube-me a sorte de ter à frente e, do meu lado direito, primos, e à minha esquerda um amigo de infância com quem me cruzo muito esparsamente.
O Solano, raro, um homem com nome de flor, alfacinha, nado e criado nas Ilhas, e um exímio contador de histórias; nessas, o sotaque resvala-lhe para “a moda da terra” que mais alma lhe traz à comunicação.
Vinha de memória enxuta das férias de Verão passadas em São Tomé. Lembrou-nos que o ativismo nas redes sociais lhe teria valido que tivessem retirado o parque de socatas (atrelados de camiões e outros monos) abandonados no antigo Bairro do SNECIA e suas ruas adjacentes: Goa, Damão e Diu.
Mas o melhor ainda estava por vir. Estamos a chegar à idade em que já não voltamos às Ilhas pelo prazer do que lá vive, mas em memória dos ancestrais deixados para trás. Carregado de baldes, vassouras, escovas, machim e toda uma parafernália de ferramentas — sem esquecer a água, pois no destino (o cemitério) deixou de correr água, porque os mortos dela não precisam.
Na carrinha carregou também o Geraldo, uma espécie de “faz-tudo” da família, que o ajudaria na limpeza das campas da mãe, do pai, dos irmãos e demais entes queridos que se passaram e hoje são estrelas do firmamento.
A marginal está em obras, já todos sabemos. Esquecido como os mortos deixados num cemitério tomado de mato, os dois únicos acessos ao cemitério do Alto de São João — onde se enterra gente com cunha — não têm buracos: o asfalto já não se reconhece, as crateras tomaram conta das antigas ruas.
Por entre os solavancos, diz o Geraldo para o meu amigo Solano:
— Doutor, nessa estrada, a bater de um lado e doutro da caixa, os mortos chegam ao cemitério com dor no corpo.
Cumprida a tarefa e de regresso a casa, o meu amigo, que não levou consigo a chave, resolve chamar a empregada* para lhe abrir a porta. Ela, do fundo do quintal, assoma e esconde-se por diversas vezes; impaciente, volta-se para o pobre Geraldo, que responde:
— Sabe, doutor, ela tem “pouca mentalidade”.
Querendo com isso o Geraldo dizer que a empregada, física e mentalmente diminuída, se encontrava incapacitada de vir abrir o portão.
É caso de se equacionar sobre a saúde mental de todos os ilhéus, em que me autoincluo.
“Cola Manga-Bassu”
@lisboa12outubro2025
A lembrar que no cemitério vivem memórias do povo que somos.
Genito Pereira