Opinião

O Doce de Ginguba e a Memória de San Maria

No sábado, almoçava num restaurante crioulo nos arredores de Lisboa. Havia música ao vivo, um excelente naipe de músicos, e o ambiente transportava-nos. À laia de sobremesa, pedi uma fatia de um bolo que chamou por mim. Era um bolo de amendoim, com caramelo e grãos de ginguba por cima.

Vai daí, quando provo o bolo, explode-se-me na memória o crocante — doce de ginguba — da minha infância, as tardes passadas em brincadeira com os meus vizinhos e a iniciação ao trabalho sério, asseado, a que voluntariamente todos nos juntávamos.

Terei recuado ao momento em que era um pirralho de pouco mais de quatro, cinco e não mais do que seis anos. Veio-me à memória o tempo, a criança que era, a proximidade dos quintais, a casa da minha mãe, a casa da minha tia Rosa, arrendada à família Rodrigo, a quitanda à porta de casa, os filhos dela, os dele e os dos dois.

Ai, doce memória.

A San Maria, a mulher do Senhor Rodrigo. Conheci-a desde que nasci. Criava os filhos dele, os dela e os que tiveram juntos.

Ambos driblavam o destino com os ensejos que tinham para tantas bocas alimentar. Eram muitas bocas para alimentar. Por isso, o Sr. Rodrigo e a San Maria inventavam um sem-número de estratégias para acrescentar valor ao que quer que fosse, para que pudessem retirar receita para tantas bocas alimentar.

O Senhor Rodrigo, filho de branco e mulher mestiça, foi deixado para trás pelo pai biológico. Cresceu e fez-se homem, educado pelo padrasto, mestiço, homem de estatura baixa, quase franzino; contudo, detinha, à época, poder: primeiro auxiliar e depois guarda-livros da Roça Água Izé. A mãe, a avó mulata, criou igualmente os filhos dela, os dele e os dos dois.

A San Maria nasceu de uma relação fora do casamento do Senhor João Monarquino, um Aguiar, como muitos dos seus parentes, proeminente funcionário público e muito influente membro da comunidade são-tomense no contexto colonial.

A San Maria e o Sr. Rodrigo, de trapos juntos, estabeleceram-se no início dos anos sessenta, na região da Madre-de-Deus, e tiveram uma quitanda nos terrenos da minha família, a dois passos da igreja da padroeira da mesma freguesia.

Entre brincadeiras e coisas doces, ensinava-se aos pequenos o valor do trabalho.

O dia em que o Sr. Rodrigo fazia o doce de ginguba era um ritual. Começava por retirar do espaço exíguo traseiro à loja um mini-armazém a cheirar a açúcar, arroz, milho, farinha, às vezes um toque de petróleo, azeite doce, banha, sabe-se lá mais o quê.

Saíam do armazém grandes tachos, a mesa retangular comprida de armar, um facalhão, uma régua e esquadro — se a memória não me tolda, e ou porque assim quero que seja, eram de alumínio. O material era todo lavado com esmero. Juntava-se à mesa uma toalha de oleado igualmente limpa.

A San Maria, de volta dos tachos, com o açúcar, dourava até ao ponto caramelo. Nós, porventura não sendo dos mais velhos, todos obrigados a lavar as mãos com água e sabão até aos cotovelos; de mãos devidamente lavadas, também seríamos chamados à tarefa.

O Senhor Rodrigo colocava um tambor de dimensão de 20 litros num rodízio, onde por baixo ardia lenha e carvão moindim. No tambor, pela única tampa existente, era colocado o amendoim cru que ia para a torra. O Sr. Rodrigo, como só ele sabia, de há décadas a manejar, dava à manivela a um ritmo cadenciado, controlando a intensidade do fogo e sempre sem abrandar ou acelerar o ritmo. Só ele sabia a velocidade e o volume das chamas de que precisava para não deixar estorricar o amendoim nem tão-pouco deixá-lo cru, com aquele sabor herbáceo, levemente amargo, a seiva mal cozida.

Chegado o seu tempo, o amendoim era retirado do tambor e o ambiente inundava-se do cheiro característico a amendoim quente.

Ui… iniciava-se o frenesim, a nossa curiosidade de miúdos, a urgência de concluir tudo com a cadência e a urgência que se justificava.

O amendoim era passado para gamelas que eram distribuídas pelas mãos de quem estivesse por perto e começava-se a escolha, a esfrega, a peneira, a separação dos amargos e dos queimados. Tudo com o cuidado de não estragar o melhor que se podia do amendoim. Os inteiros enchiam as garrafas para serem vendidos. Os partidos, esses, tinham outro destino.

A calda, em ponto rebuçado, das mãos da San Maria, era despejada em cima da toalha oleada. Com a ajuda de garrafas de vidro cheias de água, estendia-se, com perícia de mestre, a calda até preencher o espaço retangular da mesa.

Nós éramos chamados à vez, porque éramos muitos, queríamos ajudar, participar — claro, porque não se espreme o mel sem que se lambam os dedos.

A garrafa de vidro na mão, o rolo compressor, o suor a cair do rosto, misturando-se com a calda de açúcar, temperava o doce que se formava à mesa. Juntava-se à calda estendida o doce de ginguba partido; de novo, com as garrafas cheias de água, passava-se por cima de tudo, tal qual um cilindro compacta o alcatrão à charrisca. Ficava tudo muito bem alisado, o caramelo de açúcar que, ao arrefecer, ficava grudado ao amendoim. Antes mesmo de ficar totalmente sólido, o Sr. Rodrigo, com mão firme, cortava, à régua e esquadro, os retângulos que preencheriam frascos grandes de vidro, de boca larga e tampa roscada. Frascos que seriam colocados por cima do balcão da loja, em lugar bem visível, para aguçar o apetite de todos.

Nesses dias, intensificava-se a frequência dos miúdos à volta da capela da Madre-de-Deus, à procura dos tostões deixados à porta da igreja nas cerimónias de pagá-Dêvê, flêcê e ou o dinheiro das pragas que se rogavam.

Com esses tostões ia-se à San Maria e ou ao Sr. Rodrigo para os trocar (pegar) e, com eles, comprar os doces dos nossos desejos.

E assim se driblava a pobreza e criaram-se homens, engenheiros, doutores, gente de trabalho da minha geração.

Quando dei por mim, no restaurante, a fatia de bolo terminara. Olhei para o prato vazio e pensei na San Maria, naquela mulher que, de volta dos tachos, dourava o açúcar e, sem saber, dourava também a nossa infância.

Há propósitos que não conseguimos descortinar. A San Maria foi a enterrar na semana passada.

Genito

“Cola Manga-Bassu”

In Memórias da Madre-de-Deus

Dedicatória à San Maria

16 de fevereiro de 2026

FAÇA O SEU COMENTARIO

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top