A memória da minha mãe
Enquanto escrevo estas linhas, pequenos sopros de água caem-me invariavelmente pelos olhos. Talvez porque pensar e falar das mulheres, para mim, começa por pensar e falar da minha própria mãe: Maria Edith Salvaterra Pinto, ou simplesmente Didi, minha malograda mãe do meu coração.
Quando éramos adolescentes e queríamos — ou achávamos que tínhamos o direito a — algo que outros já tinham — um objecto, uma roupa, uma pequena liberdade — lembro-me de a ouvir dizer em crioulo de São Tomé e Príncipe: “cada n’guê tê vida dê.”
Era a forma simples, firme e poderosa que ela encontrava para nos lembrar de uma verdade essencial: não devemos medir a nossa vida pela vida dos outros, porque cada pessoa carrega circunstâncias que só ela conhece.
Na altura, a frase servia para travar as comparações próprias da adolescência. Com o tempo, ela foi ganhando novas camadas de sentido.
Hoje, adulto bebido de quase meio século de vida, compreendo melhor o alcance daquela pequena lição doméstica: por detrás de cada vida existe uma história invisível.
E talvez por isso, o seu significado seja ainda mais verdadeiro quando falamos das mulheres.
Ao longo dos séculos, milhares de milhões de mulheres viveram lutas que raramente ficaram registadas nos livros de história. Algumas dessas lutas tornaram-se bandeiras públicas. Outras nem por isso. Permaneceram silenciosas, escondidas dentro das casas, das comunidades e das famílias — muitas vezes confinadas em corações sofridos, inquietos ou revoltos em angústia.
Mas todas elas existem.
É justamente por isso que, ao pensar neste dia dedicado às mulheres, volto inevitavelmente àquela frase simples da minha mãe.
Não obstante os desafios que atingem o sexo feminino atravessem continentes e épocas, cada mulher tem a sua própria vida, a sua própria história, a sua própria batalha.
E é precisamente por isso que devemos olhar para essa história com atenção, respeito e coragem.
Sem fechar os olhos.
A longa história da luta das mulheres
Se recuarmos no tempo — um tempo que hoje apenas conseguimos reconstruir através de bibliotecas, arquivos, acervos digitais e testemunhos que sobreviveram na memória de algumas pessoas —, veremos que a história das mulheres é também a história de uma luta longa e persistente pela dignidade.
Durante séculos, em muitas partes do mundo, às mulheres foi negado aquilo que hoje consideramos direitos elementares: não podiam votar. Não podiam estudar. Em muitos casos, não podiam sequer decidir sobre o rumo das suas próprias vidas.
Em diferentes épocas e culturas, o corpo e o destino das mulheres foram frequentemente tratados como território de poder: na escravatura que arrancou milhões de mulheres africanas das suas terras, das suas famílias e do seu futuro; nas práticas que transformaram o casamento em imposição e não em escolha; nos sistemas sociais que naturalizaram a submissão feminina como se fosse uma ordem inevitável da vida.
Mesmo quando os séculos avançaram e as sociedades começaram a reconhecer formalmente direitos iguais, a realidade demorou muito mais tempo a acompanhar as leis.
A luta pelo direito ao voto, pelo acesso à educação, pela igualdade perante a lei, pelo reconhecimento da violência doméstica e pela dignidade no trabalho não surgiu de um dia para o outro. Foi construída por gerações de mulheres que, muitas vezes, enfrentaram incompreensão, hostilidade violenta, desprezo ou silêncio.
Mas esta história não pertence apenas aos grandes nomes que aparecem nos livros ou nos anais da história.
Pertence sobretudo aos milhões de mulheres anónimas que, sem discursos nem monumentos, resistiram no quotidiano — dentro das famílias, nas comunidades, nos campos, nos mercados, nas escolas e nas cidades.
E talvez seja justamente aí que reside a verdadeira dimensão desta história: numa luta silenciosa que atravessa séculos e continentes e que ainda hoje continua.
As mulheres anónimas
Se quisermos compreender com verdade verdadeira a história das mulheres, talvez devamos olhar menos para os nomes que ficaram registados nos livros e mais para aquelas que nunca apareceram em nenhuma página.
Esses nomes são, sem dúvida, marcos referenciais. Mas não dizem tudo.
Eu acredito que a história das mulheres foi feita sobretudo de mulheres anónimas.
São elas que, geração após geração, sustentaram famílias, comunidades e culturas inteiras, sem que quase ninguém tenha registado o peso do que carregavam.
Foram mulheres que trabalharam a terra e transportaram ou comercializaram produtos do mar; que atravessaram mercados com filhos às costas; que mantiveram vivas as línguas, os costumes e as memórias dos seus povos.
Mulheres que enfrentaram a dureza da pobreza, da exclusão e da injustiça sem que o mundo lhes pedisse opinião ou lhes oferecesse reconhecimento.
No continente africano, em particular, muitas dessas mulheres tiveram de resistir a sucessivas camadas de violência histórica: a escravatura que destruiu famílias e destinos; os sistemas coloniais que reorganizaram sociedades inteiras sem perguntar pelos seus equilíbrios humanos; e as desigualdades que persistiram mesmo depois das independências.
E, ainda assim, continuaram.
Continuaram a educar filhos, a proteger famílias, a transmitir valores, a manter viva uma ideia de futuro — mesmo quando as circunstâncias pareciam negar qualquer esperança.
Talvez seja por isso que, quando pensamos na força das mulheres, não devemos olhar apenas para os grandes gestos que a história celebra.
Devemos olhar também para a resistência silenciosa que, dia após dia, manteve sociedades inteiras de pé.
Porque muitas vezes o mundo avança graças a pessoas cujos nomes ninguém chegou — ou chegará — a escrever.
As violências que persistem
Reconhecer essa história de resistência não nos deve, todavia, levar à ilusão de que a luta terminou.
Em muitas partes do mundo — e também na nossa própria sociedade santomense — persistem realidades difíceis que continuam a atingir número indeterminado de mulheres e raparigas.
O assédio sexual, muitas vezes banalizado ou tratado como comportamento menor, continua a marcar o quotidiano de muitas jovens e mulheres adultas. Em ambientes escolares, profissionais ou sociais, há ainda quem tenha de aprender demasiado cedo a conviver com olhares invasivos, comentários impróprios ou pressões silenciosas.
Mais grave ainda é a realidade dolorosa do abuso sexual de menores e de adultos — uma doença social que, demasiadas vezes, se alimenta do silêncio das famílias, da vergonha das vítimas e da dificuldade das comunidades em enfrentar estes temas de frente.
Mas, no nosso caso, há também algo que precisa de ser dito com clareza: a enorme dificuldade do Estado em responder de forma eficaz e definitiva a este flagelo.
É preciso dizê-lo sem pruridos.
Há leis. Temos melhorado na sua aplicação. Mas algo continua a faltar, porque os casos não param de ser reportados. Fica muitas vezes a sensação de que alguma coisa permanece por resolver.
A violência doméstica, por sua vez, continua a destruir vidas dentro de espaços que deveriam ser lugares de segurança e de afecto.
Estas realidades não pertencem apenas a relatórios ou estatísticas. Elas existem nas nossas comunidades, nos nossos bairros, nas nossas famílias.
E talvez uma das maiores injustiças seja precisamente o facto de muitas destas histórias continuarem envoltas em silêncio — um silêncio que protege os agressores e isola ainda mais quem sofre.
Falar sobre estas questões não é fácil.
Mas fechar os olhos nunca foi solução para problema algum.
As adolescentes de hoje
É talvez por tudo isto que, nos últimos anos, passei a olhar para estas questões também a partir de um outro lugar da vida: o de pai.
Tenho duas filhas: uma de 3 e outra de 13 anos.
Educar uma adolescente neste tempo que vivemos é, em grande medida, o mesmo exercício permanente de responsabilidade, atenção e aprendizagem que terá sido o dos nossos pais. Tenho a impressão de que hoje esse desafio vem acrescido de novas complexidades que testam constantemente os equilíbrios emocionais e psicológicos das nossas jovens.
Sabemos que o mundo que as nossas filhas estão/vão enfrentar é feito de oportunidades cada vez mais extraordinárias, mas também de desafios que exigem carácter, discernimento e confiança interior.
Falo muitas vezes — todas as vezes, para ser franco — com a minha filha sobre o valor do estudo, sobre a importância de cultivar o pensamento próprio, sobre a força da família e sobre a necessidade de construir uma autoestima sólida.
Mas também falamos sobre as distrações e os devaneios de um tempo dominado pelos telemóveis e pelas redes sociais — esse universo fascinante e, por vezes, perigoso onde tantas identidades jovens se constroem e se expõem.
Educar uma filha adolescente é, de certa forma, ajudá-la a construir uma bússola interior que lhe permita navegar nesse mundo com segurança, dignidade e confiança.
Não é tarefa simples.
Mas acredito numa ideia simples e poderosa: uma jovem que acredita em si própria está muito melhor preparada para enfrentar o mundo.
Conclusão
Talvez seja por tudo isto que, ao chegar ao fim destas linhas, volto inevitavelmente à memória da minha mãe.
Volto àquela frase simples que ela nos dizia quando éramos adolescentes e queríamos medir a nossa vida pela vida dos outros: “cada n’guê tê vida dê.”
Na altura era apenas uma forma firme de nos ensinar a não cair em comparações fáceis.
Hoje percebo que aquela frase contém uma sabedoria maior: cada vida carrega circunstâncias que nem sempre vemos à primeira vista.
Talvez seja essa consciência que deve guiar a forma como olhamos para a história e para a realidade das mulheres.
Porque, por detrás de cada estatística ou de cada grande causa, existem vidas concretas — histórias feitas de coragem, luta, sacrifício e esperança.
Se há algo que aprendi com a minha mãe — e com tantas outras mulheres que a vida me permitiu conhecer — é que o pior que podemos fazer diante da injustiça é fingir que ela não existe.
Por isso, neste dia dedicado às mulheres, deixo apenas uma convicção molecular:
honrar as mulheres é, antes de mais, escolher não fechar os olhos.
Já não consigo ler este texto para os ouvidos físicos da minha mãe.
Leio-o então agora para os ventos, que hão-de soprá-lo para onde entenderem levar.
Com todo o respeito, dignidade e cuidado pela intimidade feminina, deixo um caloroso beijinho às mulheres neste Dia Internacional da Mulher — em especial às mulheres do país e às mulheres da minha vida.
Por Luisélio Salvaterra Pinto
Publicado em Flá Vón Vón — São Tomé e Príncipe em voz alta.