Cultura

Os Calema em Paris

Já lá vamos, sacudir poeiras às saudades tropicais!

Antes, é de todo exigente proceder radiografia à noite de última sexta-feira, 10 de janeiro, de Paris, a cidade do início da digressão dos 15 anos de viagem de CALEMA.

Na 24ª canção, coisa menos coisa, da brilhante parada de duas estrelas são-tomenses, para o fecho do pano à uma mão preenchida de convidados, subiram ao palco, a fadista Mariza Cruz, de sangue luso-moçambicano e o português, Nuno Ribeiro.

Acalorados por quatro casais de dançarinos, trajados em rispidez do Minho, cantaram e encantaram com a “Maria Joana, apanha o primeiro autocarro” à multidão europeia vibrante, verdade seja dita, que correu a encher Paris são-tomense.

Batucada por seis músicos, com o destaque ao conhecido Manecas Costa, o prisioneiro habitual à bandeira da Guiné-Bissau, na sua guitarra, a noitada não parou um minuto de aplausos e coro às canções nostálgicas e também as mais recentes com uma novidade musical para as redes sociais, a partir de meia-noite.

O baixista angolano, o guitarrista, também com a bandeira do seu país na guitarra e o percussionista, os dois na apresentação feita pelos irmãos, vindos diretamente de Cabo Verde e os outros dois músicos do palco, barulharam as mais de duas horas de exibição para os olhos da plateia entusiasmada, ficarem de água na boca, prontos ao próximo espetáculo.

Antes, a tribuna musical, já tinha sido “incendiada” com as vozes africanas, em francês, de Céphaz, o ghanês e o músico da Guiné Conacry, o Black M.

A voz da lusofonia cabo-verdiana com “tá bai, tá bai”, calhou ao Dino di Santiago, quem foi confiado a chave de um outro concerto, oportunamente, confirmado pela dupla. Dia 7 de junho próximo, CALEMA, no estádio da Luz, em Lisboa.

As oito jovens dançarinas, vezes imensas, trocando trajes à noite, as “batucadeiras” de Cabo Verde e os quatro jovens de “mussumba”, coloriram e entusiasmaram o palco.

Antes do meio-dia e através de WhatSapp, entrei no piquete de troca de telefonemas e mensagens para que, após Cannes e Marselha, não houvesse justificação de ausência na Arena. As filhas crescidas, trabalho redobrado, a partir de Madrid e Lisboa, não se cansavam de acertar tempo aos pais, nos Alpes Marítimos, na pertinente finalidade de estarem no aeroporto de Nice, às horas do voo da tarde à Paris.

Dois episódios com tiros ao gelo refugiado no fundo do estômago, pela altura para com o chão, distraíram o romance do casal luso-são-tomense do voo EJU4866, de uma hora, repleto, 180 passageiros, em direção ao aeroporto de Orly, apenas um dos vários voos nos écrans, espalhados também para o aeroporto de Paris-Charles de Gaulle, abandonados que foram os raios solares dos 16º graus da tarde de Nice.

A vizinha do banco C do avião, colada ao filme do telemóvel, não deu sinal de inconveniência ao som baixinho do diálogo, mas sim, do inesperado, a criança (dois, três anos de idade) presa ao banco do meio à frente, duas cadeiras que nos separavam, deixou os pais sem jeito.

Desencarcerada, pôs-se em pé e não se cansava de sorrir comigo, talvez, depois de dar os olhos azuis aos passageiros mais próximos, na verdade, aquela inocência estava coberta de razão. Ao alcance dos olhares dançantes, o pigmento que me cobre a pele escura, sem companhia mais próxima, talvez fosse conquista à consciência inocente. Outro incidente.

Pagamos através do cartão bancário, os dois lanches e, o “garçon” da EasyJet prometeu uns 10 minutos para trazer sanduíche quentinha. Aquando da janela, as primeiras luzes na terra, por volta das 18h00, não iriam tardar a receber-nos no chão seguro, acionei o alarme no teto.

A aeromoça, ou seja, a hospedeira, desculpou-se por terem esquecido do pitéu da Elisabete que já havia engolida sua Fanta, mastigada com a Madeleine, os bolinhos descidos com o café, nem cheiro de Monte Café, aos meus intestinos reclamantes do assalto.

De pernas elásticas, regressou com a sanduíche apimentada de sorriso e duas tabletes de chocolates de oferta para adoçar língua à margosa fome da minha esposa.

Quarenta minutos no hotel – as senhoras levam tempo em demasia para ganharem os homens, na beleza – através de Uber, trocado pelo táxi de chegada, conduzidos por africanos, arrancamos à noite de CALEMA, os irmãos, após Roberto Carlos, o brasileiro, os primeiros lusófonos na Accor Arena. Oportunidade abençoada!

Arisquei-me embarcado pelo orgulho nacional, momento ímpar da dupla vender em alto som e elegância célebre, assim como o chocolate das ilhas que passeiam por Paris, de coroa de rei, a linda e amada bandeira de São Tomé e Príncipe.

Num último controlo de acesso, fiquei com a sensação de que segurança, é a outra arte dos africanos da capital gaulesa. A pistola da Arena, similar aos écrans de cancelas do aeroporto de Nice, perto do fim do bilhete em papel, piscou verde no código de barras no telemóvel e, ao certo, de todos outros, porque tínhamos espalhados por diferentes acessos, já que na conciliação de vida profissional e paródia, os ingressos foram adquiridos, última hora.

Uma jovem branca, de imediato, – o salão estava escuro de confusas luzes e explosões – pegou-me na mão direita, quase que ia sacudi-la, imaginando ser eu, a vítima de assédio, e me orientou a descer com os olhos no chão, até fila y e cadeira x, registadas no aparelho.

Os milhares de ponteiros, na fronteira das 21h00, com a recente presença pessoal, assinalaram início ao concerto com a entrada em cena da banda e sua dupla, o António e Fradique. As mãos dançantes do público, assim como as luzes dos telemóveis, puras estrelas encadeando a espetacular escuridão, manifestaram cumplicidade às vozes das ilhas.

Houve momento de pausa que serviu para o António, mais velho, mais alto e por vezes de viola, trocar o fato vermelho pelo branco de Fradique, de tranças e, vice-versa, óbvio, um e outro, suados pela alta temperatura da noite em contrariedade à meteorologia glaciar, lá fora, a cair ao negativo.

Os oito à dez minutos que as duas estrelas, quase trinta canções cantadas e dançadas, abandonaram o palco e, os artistas na combinação de som e foguetes, estremeceram as ondas humanas, deram para alguns espetadores voltarem a sentar na expetativa de mais curiosidades que vieram fechar as explosões aos corações de Tour Eiffel.

Numa viagem ao meio do mundo, a Accor Arena de Paris, é o Estádio Nacional 12 de Julho, em São Tomé, coberto, de andares das bancadas e com o campo, lá em baixo, cheio de espetadores, com maior liberdade de tirarem linhas às batucadas.

Ás 23h15, a dupla se despediu com os agradecimentos efusivos às presenças dos pais, das esposas, dos filhos, de músicos, técnicos de som, luz e filmagem, da produtora, equipas da Accor Arena e, claro, da multidão que lhes encantou e bateu palmas, em Paris. Os mais de 12.800 espetadores, quase treze mil, abandonaram a Arena com “Onde estás?”

Na boleia do brilho das luzes à escuridão, subi os degraus. No corredor de saída com as lojas de vendas dos materiais publicitários de CALEMA, (camisola/sweater, canecas, ímãs, vinil, CDs, garrafa reutilizável, chaveiros, sacolas de pano/totebag e bonés), entrei no turno à noite parisiense. Aguardei pelas delegações de Nice, Madrid e Lisboa, espalhadas pelas diferentes bancadas, de volta ao hotel.

Apesar do estômago cheio, para ser sincero, faltou aperitivo ao menu da noite são-tomense. É como dizer, faltaram pequenas estrelas ao Universo para que a noite fosse perfeita. São Tomé e Príncipe, esteve ausente do internacional palco, Accor Arena de Paris.

Há pequenas raízes que se notabilizaram em grandes nações, através de oportunidades que internacionalizaram fado, morna, semba, samba, salsa, zook, reggae e variadíssimos estilos musicais com que os artistas conquistaram corações da humanidade.

Para lá da infância e adolescência de dois descalços nos jogos e nas brincadeiras no lamaçal do quintal da casa azul de madeira dos Angolares, a cidade piscatória do sul de São Tomé, contada e retratada no painel e, a aventura juvenil, em busca de horizonte por Lisboa e Paris, infelizmente, houve o suspense. Coração saltou-me do sítio. “Chêi! Mas chêi!”

País grande para a grandeza da nossa pequenez, ou talvez, bastante pequeno para a pequenez da nossa grandeza. Atrapalhei o sorriso embriagado que ainda suava crioulo, sem sorte musical à intelectualidade de manter orgulho aos valores de origem são-tomense.

As dançarinas de saia e “quimone” e os músicos (um deles, diamante em bruto, o Pipokinha), vestidos ao rigor e nos passos cadenciados de “ússua, rumba e dêxa ou kumba lôda da puíta”, porque influenciariam ao marketing da dupla e do produtor Klasszik, ao contrário das nossas delegações, ficaram em terra sem salto à água do Atlântico até Paris.

Perdidos de endereços, supostamente, os músicos que inundam as capitais europeias e vão retirando poeiras de saudades ao crioulo, não subiram à ACCOR ARENA DE PARIS.

As três meninas com a bandeira de São Tomé e Príncipe, ausente no palco de CALEMA, – pecado capital – nas respetivas bancadas e em pontos estratégicos, sul, norte e centro e, óbvio, em disputa para com as bandeiras portuguesas, saltaram e cantaram ao máximo da exaustão.

Quase perderam a voz sem que a dupla, António e Fradique, com a mais pequena, mas simbólica merenda «São Tomé e Príncipe, oiê!» outra vez, «São Tomé e Príncipe, oiê!» e mais uma vez, «São Tomé e Príncipe, oiê!», lhes baloiçasse as três gigantes bandeiras de duas estrelas com que elas deram, do início ao fim, um outro brilho às bancadas parisienses.

Sábado estava reservado para o almoço com os imigrantes de Paris, óbvio, as amizades que requisitaram «Ellyzé – Autópsia da Alma» e, a redescoberta da cidade de luz e amor, mas nem por isso. Nublado e gelado, em contrariedade com o sul francês, solarengo, apanhei um estalo na rua.

Assediei a companhia, num pé atrás ao hotel, no intuito de reaquecer o frio e também vasculharmos o Instagran ou Facebook de CALEMA para matar fome à noite anterior. Qual seria a bandeira publicitária de Arena? De São Tomé e Príncipe, Cabo Verde ou Portugal?

Viemos de longe, da mais pequena nação da lusofonia para os voos da tarde de domingo à Nice, Lisboa e Madrid, sem dúvidas, voltarem a devolver-nos à rotina de encher saco à economia dos países de acolhimento são-tomense.

A auto-estima, para mal dos pecados, voltará a ser como na chegada à Paris, abatida por mulheres e homens, no sobe-desce e em briga com a cabeça perdida, largados à sorte do abrigo, no movimentado aeroporto de Orly.

Sem voltas a dar ao friorento sábado parisiense, através do telemóvel – sorte grande – fui dar à uma excecional, recomendável e, sobretudo, emocional “rumba”, «Sótxi na zudan fá» di Ninho Anguéné para repetidas vezes aquecer corações às saudades das ilhas.

«São Tomé e Príncipe, oiê!»

Parabéns CALEMA!

Especial colaboração ao jornal digital Téla Nón

José Maria Cardoso

Paris, 11.01.2025

FAÇA O SEU COMENTARIO

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top