Cultura

Pá tudú povô bili uê: caminhos e sentidos da alfabetização de adultos em São Tomé e Príncipe com Paulo Freire

A Biblioteca Digital da Universidade do Estado de Rio de Janeiro (UERJ) acabou de disponibilizar a tese de doutorado em Educação “Pá tudú povô bili uê: caminhos e sentidos da alfabetização de adultos em São Tomé e Príncipe com Paulo Freire”, da Cecília Reibnitz.

A tese, defendida em 28 de março passado, é sobre a campanha de alfabetização de adultos em São Tomé e Príncipe, guiada por Paulo Freire (1921-97), na primeira década da independência, durante o regime monopartidário de orientação socialista (1975-90).

Resumo:

Há 50 anos atrás, em 1975, São Tomé e Príncipe, país insular africano, conquistava sua independência de Portugal. A maior parte de sua população não tinha acesso à escolarização formal e, a partir de sua emancipação, a alfabetização de adultos foi assumida como importante tarefa pelo governo do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP). Pá tudú povô bili uê é uma expressão em língua forro, um dos idiomas nacionais do país, que significa “para todo o povo abrir os olhos”. Apareceu em diferentes relatos sobre o tema e expressava o desejo das campanhas de utilizar a alfabetização como ferramenta para ajudar a ler e agir sobre o mundo – ainda que outro sentido permitido pela tradução era o da vigilância, estar atento para inimigos, reais ou imaginários, do governo de partido único que vigeu no país entre 1975 e 1990.

O educador brasileiro Paulo Freire, que se encontrava exilado na Suíça, realizou trabalho de assessoria ao governo santomense na área da alfabetização de adultos – esteve no arquipélago sete vezes entre 1976 e 1979. A partir da participação de Freire, atuando por meio do Conselho Mundial de Igrejas, o processo ganhou maior dimensão e sistematização.

Mesmo após o retorno do educador ao Brasil, Freire continuou contribuindo com a área, mas a assessoria propriamente dita passou a acontecer por meio de outros integrantes do Instituto de Ação Cultural, do qual fora um dos fundadores. A tese buscou explorar e compreender a história dos caminhos e dos sentidos da alfabetização de adultos nas ilhas de São Tomé e Príncipe no período do partido único do MLSTP, não se restringindo a esse recorte histórico. Realizou-se a periodização das fases de campanhas de alfabetização, uma vez que foram identificados diferentes impulsos para o tema e em cada um deles os entendimentos sobre educação ganharam sentidos diferentes.

Analisou-se a influência de Paulo Freire e o papel de suas concepções na formulação e execução de políticas públicas sobre alfabetização em São Tomé e Príncipe pós-independência, compreendendo historicamente sua participação, e como ideias e o “método” de Freire influenciaram as campanhas – na prática ou no discurso. Buscou-se compreender efeitos e sentidos de sua participação no país, que aparece brevemente em estudos sobre o autor, quando muitos reconheceram a relevância de sua passagem por São Tomé, mas poucos se dedicaram a aprofundar estudos sobre ações alfabetizadoras no período histórico considerado.

A tese contou, especialmente, com fontes e vivências experienciadas em diferentes territórios. A pesquisadora viveu por um ano e meio na ilha de São Tomé, e este mergulho quase etnográfico permitiu entrevistar participantes que atuaram na alfabetização ao longo do tempo, realizar pesquisas em arquivos históricos e desenvolver um grupo de pesquisa em parceria com a Universidade de São Tomé e Príncipe. Um período final de seis meses de doutorada sanduíche em Portugal permitiu a expansão da pesquisa, tanto bibliográfica como de fontes históricas, quando pôde contar também com o acervo do Conselho Mundial de Igrejas, na Suíça.

O link: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/23949

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