Cultura

A vida das mulheres de Caué pintada sobre os panos tradicionais que usam no dia a dia

Ana Jacinto Nunes, artista portuguesa ficou encantada com a alegria e a espontaneidade da vida das mulheres do sul de São Tomé, e reflectiu sobre o pano africano que elas usam no seu dia a dia, a realidade jovem e natural da vida feminina santomense.

Os panos típicos que as mulheres santomenses utilizam principalmente na região sul do país inspiraram a veia artística de Ana Jacinto Nunes, que passou alguns dias na cidade de Angolares, capital do distrito de Caué.

O antigo hospital da roça São João, transformado em hospital de criação artística, foi a oficina de trabalho para a artista portuguesa.

«O pano tem já um padrão, e eu fui criando figuras ali. Pintei sobre o pano», afirmou, enquanto desenhava um caranguejo num pano africano. O caranguejo faz parte do ecossistema das mulheres de Angolares, a cidade piscatória do sul de São Tomé.

FOTO : Ana Jacinto Nunes

A pintura do rosto feminino reflecte a solidão. Ana Jacinto Nunes constatou in loco que boa parte dos homens de Caué emigraram, e as mulheres ficaram.

«Os homens emigram e elas ficam. São muitas miúdas, e estão quase todas grávidas. Numa população em que mais de 80% tem menos de 15 anos, a maioria é adolescente», realçou a artista.

A cidade de Angolares e todo o distrito de Caué foi identificado pelo recenseamento geral da população, como região que tem a mais alta taxa de fecundidade e também de natalidade. O olhar artístico de Ana Jacinto Nunes registou esta realidade no terreno e acabou por dar forma à obra artística exposta no hospital de criação da roça São João.

«Eu não sou ninguém para dizer que é gravidez precoce. O que sinto aqui é que as mulheres estão todas grávidas, e que as crianças andam bastante felizes. Há miúdas que levam as crianças as costas…Mas pode ser que estejam a ajudar as mães. Há muita uma cultura de entre ajuda aqui», sublinhou.

Os olhos femininos são realçados nos quadros de pano africano. Uma forma de reflectir a espontaneidade santomense, e alma da mulher.

«Esta ilha é toda verde, e quando se faz a estrada há muitas cores. Quando o tempo está cinzento fica um verde eléctrico, quando está sol vê-se mais sombras, é tudo muito violento, muito verdadeiro…. É tudo muito natural, muito espontâneo», realçou

As cores quentes que pintam a obra, simbolizam a vivacidade das mulheres e da natureza. «As plantas crescem e está tudo sempre a crescer. É uma terra que está sempre a crescer, tem sempre muitas crianças a crescer, tem sempre água a correr», pontuou.

As mulheres do sul de São Tomé fazem parte da natureza exuberante de Caué. Uma região onde segundo a artista portuguesa tudo acontece na mais tranquila naturalidade. Deu o exemplo das casas que são construídas a base de chapas de zinco.

«As casas de latas…e prega-se e já está…foi um bocadinho assim…já está!», afirmou.

Sem stress e em harmonia com a natureza, a vida flui no sul de São Tomé, com as mulheres cada vez mais na liderança da família.

A artista portuguesa, que reside em Macau, aproveitou a residência artística na roça São João, para exprimir sobre o pano africano, o encantamento que descobriu na ilha de São Tomé.

Abel Veiga 

1 Comment

1 Comment

  1. Fruta Pão

    17 de Dezembro de 2025 at 11:36

    Parabéns a Ana Jacinto Nunes

    Pela inovação na arte de pintura Africana (pintura sobre pano africano), retratando a mulher São Tomense.

    Bem haja

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