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Cerveja, Rancores & Cunhas Falhadas

Há oito anos que estou desempregado. Ontem fui dormir convencido de que hoje acordaria trabalhador da Rosema.

As notícias dão por certo que a Rosema já não pertence inteiramente ao Melo Xavier e que nela mandam, entre outros, os meus amigos Guilherme Posser, Manuel de Sãozinha — mais conhecido por Manuel Candongueiro — e Carlos Vilanova.

Confesso que vi uma luz ao fundo do túnel.

Tomo café todas as manhãs no Passante, o bar exterior do Hotel Miramar. O Passante é uma instituição nacional. Ali fazem-se governos, desfazem-se governos, distribuem-se empresas, resolvem-se crises internacionais e, de vez em quando, até se acerta numa notícia.

É lá que encontro o Manuel Candongueiro.

Em tempos idos, dedicava-se à escrita de panfletos e a outras atividades destinadas a alcançar objetivos políticos ou pessoais. Hoje está mais velho. Eu também. A idade fez-nos um favor aos dois: ensinou-nos a tolerar-nos.

Às vezes sentamo-nos na mesma mesa.

À boa maneira da terra, uma cunha não fica mal a ninguém. Lembrei ao Manuel que estava desempregado e inteiramente disponível para integrar os quadros da Rosema.

Não pedi a administração.

Não exigi viatura.

Nem sequer reclamei gabinete com ar condicionado.

Limitei-me a disponibilizar o meu vasto talento.

Ontem, depois do desporto, tomei banho, vesti-me, penteei-me e fiquei à espera que os meus amigos se lembrassem de mim para irmos tomar conta da fábrica.

O telefone não tocou.

Nem a Rosema ligou.

Nem os acionistas.

Nem apareceu uma chamada enganada.

Por alguma razão, não me vão dar o trabalho para o qual me coloquei em bicos de pés.

Não guardo rancor.

A prova disso é o artigo que escrevo.

Aliás, se alguém tem razões para guardar rancor é o Melo Xavier.

Há mais de vinte e cinco anos, quando eu estava no ativo e no cumprimento das minhas funções, deixei-o pendurado no aeroporto de São Tomé.

Atrasou-se, como era seu hábito.

Bramiu.

Gesticulou.

Acenou aos pilotos para voltarem para trás.

Mas o avião partiu sem ele.

Como os voos da TAP eram semanais, lá terá encontrado maneira de seguir viagem por outra rota, provavelmente via Luanda.

Apesar desse episódio, continuo convencido de que o Melo Xavier ainda me guarda alguma estima. Ou então guarda rancor. Em São Tomé, por vezes, é difícil distinguir uma coisa da outra.

Quanto à fábrica, a minha opinião é simples.

A fábrica era do povo.

O Melo Xavier comprou-a.

Pagou-a.

Passou a ser dele.

Depois começou um daqueles novelos jurídicos que conseguem transformar uma questão simples numa coleção de processos, despachos, recursos, providências cautelares e outras especialidades produzidas pelos tribunais.

No âmbito desse percurso, veio uma carta rogatória de Luanda para São Tomé e Príncipe.

O processo acabou nas mãos do juiz de Lembá, meu outro amigo, Augério Amado Vaz.

A partir daí, a história seguiu caminhos que dariam para escrever um livro e cansar o leitor antes do terceiro capítulo.

Os irmãos Monteiro chegaram à fábrica como fiéis depositários.

Aprendi nos bancos dos,prineiros abos da faculdade de Direito que um fiel depositário deve guardar um bem.

Não deve acabar dono dele.

Mas os livros ensinam uma coisa e a vida, por vezes, dedica-se a experiências alternativas.

Com a ajuda de decisões judiciais e de outras engenharias institucionais, os irmãos Monteiro acabaram donos de uma fábrica que, no meu entendimento, nunca deveria ter saído das mãos do Melo Xavier.

E assim se passou uma longa temporada.

Até que a fábrica regressou ao seu antigo proprietário.

Explicação mais simples do que esta não consigo dar.

Voltemos agora ao meu desemprego, que é o verdadeiro drama nacional.

Se o Melo Xavier já não manda na Rosema, e se eu tenho amigos tão influentes na estrutura acionista, por que razão continuo sem emprego?

A pergunta é legítima.

A resposta continua por chegar.

Talvez o telefone esteja avariado.

Talvez os meus amigos tenham perdido o meu número.

Talvez a minha candidatura tenha sido considerada excessivamente qualificada.

Escrito este artigo, dificilmente poderei aceitar um lugar na Rosema.

Mesmo que me oferecessem todas as ações da empresa.

Se aceitasse, cair-me-iam os dentes da boca que tão bonito me fazem sorrir.

Prefiro o meu sorriso a uma fábrica de cerveja de nome Rosena

Ainda assim, não quero terminar sem deixar uma sugestão construtiva aos meus amigos e compatriotas irmãos Monteiro.

Peçam ao Governo — ou exijam, se preferirem — um espaço na Roça Água Izé.

Água não falta.

Vontade também não.

E o país ganharia uma segunda cervejeira nacional.

Enquanto esperava pela chamada da Rosema, a minha mente começou a trabalhar.

Se não me dão emprego numa cervejeira, talvez me caiba fundar outra.

Já tenho nome.

Abade.

Abade geladinha para trazer o povo feliz.

O país pouparia divisas gastas na importação da Sagres, da Super Bock e de outras marcas estrangeiras.

O nacional é bom.

Construamos, com as nossas próprias mãos, uma cervejeira inteiramente nacional.

Há cinco dias consecutivos que a EMAE não me corta a luz.

Não me falta a geladinha no frigorífico.

Só falta aparecer nas notícias que a eletricidade voltou.

Nesse dia, quem sabe, talvez também me telefonem da Rosema.

Manuel Alfinete

Mé n Puáb, di Klêkê

São Tomé, 3 de junho do Ano da Graça de 2026.

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