Contenta-me que surjam cartas fora do baralho a olhar para o fenómeno sem entrar na retórica das disputas políticas. Venha mais opinião e mais gente que deite um olhar sobre a crónica cultura de trabalho, a armadilha em que nos encerramos e que nos consome, conjuntamente com a ausência de sentido estético. Às vezes há uma luz que se acende no fundo do túnel — uma enunciação de que, talvez, a terra que tantos insistem em chamar país possa acordar do sono letárgico em que se deixou adormecer no canto síbilo da serpente da consultadoria e da política.
Na terra a que chamamos país, pagamos o preço da banana vendida no mercado de retalho na Europa, porque os poucos que ainda trabalham/produzem sobrevalorizam a sua força de trabalho. A métrica parece ser garantir a subsistência com baixo esforço. Voltando ao preço da banana-pão, que, ao contrário da produção da banana-prata, obriga à indução de força de trabalho na renovação, abertura de novas covas e transplantes frequentes — porque a planta é mais exigente e esgota os nutrientes do solo —, exigindo ainda a produção de mudas, limpeza e fertilização dos solos, etc., etc. Tudo isso é trabalho, inteligência, dedicação e consumo de tempo.
A pergunta inevitável é: quantas horas diárias se dedicam ao cultivo agrícola na terra que se quer país?
Com um pouco mais de esforço, os preços cairiam — interessa isso? Ou prevalece a dedicação à bisca-61, à conversa, ao convívio regado de cerveja e álcool, ao namoro e às amantes ou, tão simplesmente, à contemplação, à espera de que o bem-estar nos caia do céu, tal como a abundante chuva de abril?
Cola Manga-Bassu
Potó-Potô, o lugar em tudo apodrece, 30 de abril de 2056