Política

O Terceiro Dia da Vigília – A escolta de Lobata

 Ao fim da tarde de quarta-feira, a informação correu, célere: dois camiões  carregados de lobatenses  tinham escoltado as 28 urnas do distrito a caminho do Tribunal Constitucional. Falava-se em tumultos. Porém, quando chegámos, pequenos grupos dispersos conversavam em alta voz. O camião com as urnas está aplacado na rampa para viaturas. As urnas continuam dentro do camião, a reavaliação de Mé-Zóchi ainda não terminou e é preciso prevenir o risco de mistura de urnas.  Estacionada diante do edifício, uma carrinha de caixa aberta com agentes da UDPE que, pouco depois, se postaram na varanda.

Alguém explica que um infiltrado, alegadamente pago para provocar distúrbios, havia sido corrido pelos populares. É o terceiro dia de uma concentração que começou na segunda-feira e ‘’só terminará quando forem divulgados os resultados e sem batota’’, diz um jovem. Na terça-feira, apesar da chuvada, alguns não arredaram pé, enquanto, no interior, prosseguia a reavaliação dos votos nulos. Tem sido uma manifestação permanente, desde as primeiras horas do dia até cerca das 22H00.

Zé Barreto, vulgo Bonito, é um agricultor de Guadalupe, está desempregado, e ‘’muito frustrado’’. Diz que os seus dois filhos foram matriculados por um vizinho bondoso, porque não tinha dinheiro para custear o preço das matrículas. Tem cara de poucos amigos e parece ter sido um dos líderes do grupo que escoltou as urnas até ao Tribunal Constitucional. Com ele, estão um coveiro, um pescador e um segurança. ‘’Quer falar com gente para quê? TVS não vai passar.’’ Só se dispõe a falar depois de eu lhe ter explicado muito bem que não é para a TVS.

‘’Viemos com as urnas para garantir a nossa liberdade. Aquilo que sinhora está a ver lá, dentro do camião, é a nossa liberdade. Ai de quem mexer com ela! Non di Lobata na ka ngostá di fla montxi fá.’’ Pergunto se os partidos deram dinheiro para o transporte. ‘’Não, nós contribuímos com dinheiro do nosso bolso.’’

Um dos companheiros toma a palavra: ‘’Não queremos mal para o juiz Bandeira, ele é de Lobata. Só queremos pa ele fazer aquilo que ele sabe que tem de fazer. Se for assim, coisa correr bem. Não queremos sangue.’’

Um outro assegura que os lobatenses não são fáceis de enganar: ‘’Ninguém mete mão n’olho de nós de Lobata. Patrice não mete mão na nossa vista. Lá, em Lobata, nós guardamos urnas 24 sobre 24 horas. Ficamos lá n’frente de Comissão Distrital, dormimos no chão. Agora, estamos à espera dele, ele não vai passar de lá. Ai dele! Povo de Lobata está unido, à espera dele.’’

‘’Chamou gente parasita’’

‘’Quero Patrice fora daqui, ele não pertence a este país, é a única coisa que tenho a dizer’’, resume um jovem morador do bairro de Santo António.

Bem perto, ouve-se uma voz de mulher:’’ Não queremos mal para ninguém, mas gente não confia neste tribunal. Todo juiz deste tribunal é de ADI.’’

Um homem, de cerca de quarenta anos, mostra-se exaltado:

‘’Eu já disse à minha mulher que estou com um pé em casa e outro pé no cemitério. Porque é que os votos podem subir para o ADI, e não podem baixar? Brincadeira. Atrevido! Disse pa Jorge Bom Jesus baixar as calças. Falta de respeito. Homem diz pa outro homem baixa calça? Um primeiro-ministro fala assim? ’’ Responde um jovem de boné, com uma grande mochila às costas:

‘’Patrice tem boca muito suja. Pinta Cabra dos raios. Tá dele lá no Gabão, tá lá n’terra dele, sossegado, nós é que ficamos aqui. Dez dias já, porque é que resultado ainda não saiu? Isso nunca aconteceu aqui em São Tomé e Príncipe. Primeiro-ministro sai de país depois de eleição, sem resultado final, sem dizer ninguém nada? Agora, ele vai candidatar lá no Gabão, vai candidatar lá na terra dele, deixa gente com nossa vida’’ Levy, que é daqui, pode ficar sossegado. Ai dele se ele fizer todo esse abuso que ele fez com Pinto da Costa.’’

Escurece, passam algumas viaturas, buzinando para afastar manifestantes do meio da estrada.

Um jovem de ‘’parto os cornos’’ e de calções fala num tom calmo e profundamente ressentido:

‘’Chamou gente bêbadu, chamou gente dilinquente, chamou  gente marginal. Chamou gente parasita. Parasita! Gente vai mostrar ele quem é parasita. Passou a vida a viajar com nosso dinheiro, gente é que, ainda por cima, é parasita. Ele vai ver.’’

Nos destroços do que já foi um banco de jardim, cinco mulheres conseguiram acomodar-se. Uma jovem de longas tranças, de Maianço, diz que não tem dinheiro para comprar pílulas contraceptivas:

‘’Agora, mulher vai começar a parir, parir só. Isso pode ser?’’

Responde outra: ’’ Nós criamos com banana e matabala, somos daqui. Gente não veio, ele é que veio, ele é que vai embora. Quer pa São Tomé ficar como Gabão. Deus é grande, Deus não dá ele poder.’’

‘’Água e luz não chegam’’

Sónia é de Budo-Budo e diz que quer mudanças.

‘’ Quero muita coisa a mudar, porque nada mudou. Mudança na saúde, mudança na nossa vida, gente não tem dinheiro, está tudo frio. Quem acha que Patrice Trovoada governou bem, é gente que andou a lamber dedo dele.’’

‘’ Ele deu algumas zonas água e luz. Gente come água e luz? Água e luz não chega. Se gente não tem emprego, como é que gente vai pagar água e luz? ‘’ E se o ADI ganhar mais um deputado? ‘’Só com batota. Esses 25 mesmo, só Deus é que sabe…’’

Uma mulher robusta e sozinha vai puxando, para um lado e para o outro, uma longa écharpe :

‘’Até bispo homem meteu com ele. Até bispo! Homem é conflituoso, homem meteu com toda gente. Queria pa gente tirar bispo daqui. Homem queria acabar com religião católica pa ficar muçulmano só. Bôbô! San Tomé Plodôso sa dêsu vivo ku na ka dumini fá.’’

Um conhecido vendedor da praça anda ali, às voltas, saltitando de grupo para grupo:

‘’Hoje é arrasta e nhanga. Arrasta e nhanga! Carrega só, faz sai. Tá a demorar muito. Juiz Bandeira sabe coisa que ele tem que fazer’’, diz ele, num passo de dança.

Abordo uma senhora e um jovem, afastados dos grupos. Quanto tempo estão dispostos a permanecer ali, durante tantas horas seguidas? ‘’O tempo que for preciso. Se for preciso dormir aqui, gente dorme até de manhã. Gente fica aqui até contagem acabar. Gente não está a brincar, é coisa séria.’’ Ela pergunta-me se é para a TVS e respondo que não.

‘’Gente sabe que TVS é coisa de sô Patríce, que pai de sinhor morreu, deixou pa sinhor. Mas qualquer dia, San Tomé vai ficar escuro diiim pa Patrice Trovoada.’’ Viro-me, em direcção a outro grupo e ainda a ouço:

‘’Faxavor dizer Patríce Trovoada como povo piqueno é que está aqui. Povo piqueno que ele chamou bebedadu!’’

 Por volta das 18H30, chega uma mensagem dos que estão na  reavaliação: se o volume das vozes não baixar, os trabalhos serão suspensos. A mensagem é imediatamente acatada. Não se sabe se a reavaliação de Mé-Zóchi terminará a tempo de se começar a de Lobata. Já se fala em comprar café e açúcar. Estão ali dirigentes do MLSTP e da Coligação. Pergunto a Arzemiro dos Prazeres se a manifestação, que vai no terceiro dia, está a ser liderada pelas forças da oposição. Responde-me que não, que se trata de um movimento espontâneo.

‘’É claro que quando é preciso comer, fazemos uma vaquinha e compramos pão, queijo e manteiga. É claro que estamos aqui, vários de nós, mostrando que estamos unidos. Está a falar com as pessoas, está a sentir o clima, dá para ver que nenhuma directiva geraria um clima desses, por imposição.É espontâneo.’’

Debaixo de uma árvore, no passeio oposto ao do tribunal, um jovem fala com ar professoral:

‘’Vocês não compreenderam nada. No fim, tudo vai ficar na mesma. Adi vai ter 25, MLSTP 23, Coligação 5, Movimento Caué, 2. Eles fabricaram isso para ganhar tempo. Ganhar tempo para queimar papel, queimar documento, limpar computador, destruir provas. ADI tinha parlamento, tinha governo, presidência da república. Todos os sectores só tem directores deles. Ninguém controlou nada nesses quatro anos, há muita coisa para esconder.’’ Os outros agitam a cabeça, em concordância.

Gilberto, jovem, T-shirt vermelha, jeans e um ar jovial: ‘’Estou aqui para defender a nossa independência. Durante 4 anos, vivemos numa ditadura. Tudo o que nós dizíamos, entrava logo nos ouvidos de alguém. Havia bufos em todo o lado. Tudo por causa de Patrice Trovoada e dos seus capangas. Vamos acabar com isso. Gente não pode viver com medo na sua terra!’’

E, pelos vistos, o medo ainda não acabou. Um jovem quadro pede anonimato: ‘’Patrice Trovoada impôs um clima de medo, de intimidação e de perseguição. Muita falta de liberdade de expressão e de pensamento durante estes quatro anos. Nos nossos sectores de trabalho, todos os que não pertenciam ao partido do governo tínhamos medo de dar livremente a nossa opinião, o nosso contributo, por muito válidos que fossem. Passámos, simplesmente, a obedecer. Deixámos de dar o nosso contributo como quadros, como técnicos. E isso foi muito mau para o país e para o Estado.’’

São cerca de 19h00. Os lobatenses já regressaram ao seu distrito, contentes por terem escoltado ‘’a sua liberdade’’ até ao Tribunal Constitucional. Para os que ficaram, a vigília prossegue. Até se dar por findo o processo de reavaliação desta quarta-feira. Até serem publicados os resultados definitivos.

Crónica de São de Deus Lima

    5 comentários

5 comentários

  1. Martelo da Justiça

    18 de Outubro de 2018 as 23:03

    Há registos muito interessantes e muito emocionantes nesta crónica. É a São Lima no seu melhor. Parabéns para a minha amiga.

  2. Amo stp

    18 de Outubro de 2018 as 23:04

    Excelente informação. A descrição tem uma característica de pesquisa qualitativa. Muito bem. Viva a liberdade!! Cabe ao próximo governo de São Tomé e Príncipe trabalhar com consciência e para o povo!!

  3. Mandelax

    19 de Outubro de 2018 as 5:58

    Muito obrigado Sao! A vida vale a pena, a vida e a luta. Ao final o caminho falou verdade, e caminho somos nos e nossos pasos por ele. Os teus passos e o teu camiho fazem Historia e dignidade!.

  4. badiu di stp

    19 de Outubro de 2018 as 7:51

    Uma crónica de tirar o chapéu e de fazer o outro despir completamente. Obrigado São Deus Lima.

  5. Martelo da Justiça

    19 de Outubro de 2018 as 14:01

    Só numa ditadura pode deixar um quadro desse como a São Lima, fora de comunicação social. Desde logo apercebi-me que o Patrice Trovoada precisava um “YES MAN”.

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