O jovem tinha 35 anos de idade. Em outubro do ano 2018, exactamente no último dia da campanha para as eleições legislativas, Onésimo Nascimento da Silva que residia em Monte Café foi assistir na cidade da Trindade, capital do distrito de Mé-Zochi, o encerramento da campanha eleitoral. Os dois principais partidos políticos, a ADI no poder em 2018, e o MLSTP na oposição disputavam os votos na cidade da Trindade.
«Ele era uma pessoa calma, sempre no seu lugar», revelou o pai Rui Semedo da Silva.
8 anos depois o pai regressou ao local do crime, e mostrou para o Téla Nón o Bar “Patroa Tem Fé” vizinho do Comando da Polícia da Trindade, como sendo o ponto de partida para a morte. «Esse bar é inesquecível para mim, porque aqui é que começou a morte do meu filho», afirmou o pai.


Segundo Rui Semedo da Silva, alguma troca de palavras no Bar sobre a campanha eleitoral que decorria na rua da cidade da cidade precipitou os acontecimentos.
«Ele veio para aqui numa tarde como era habitual. Ele e a dona do bar eram amigos, de repente foi confrontado com dois polícias e um militar da UPDE, pôs -se em fuga e correram atrás dele», relatou Rui Semedo da Silva.
A fuga para a morte terminou no bairro de Água Cola, arredores da cidade da Trindade.
«Tem uma casa ali atrás. O dono da casa disse que não saiu porque poderiam eliminá-lo também. Foi agressão com tanta violência, que segundo o senhor da casa, ele próprio começou a estremecer Depois arrastaram o corpo e chamaram a carrinha da polícia, que levou o corpo até o comando policial e depois levaram para o posto de saúde já morto».

O povo da Trindade revoltou-se. A antiga Vila histórica que a poetisa Alda Graça do Espírito Santo definiu num dos seus poemas, como sendo a “Vila Condenada” em alusão ao massacre de 1953, registou em 2018, um dos maiores protestos da população a exigir justiça pela morte por espancamento do jovem de 35 anos.
«A população queria que o cadáver fosse colocado à frente do palácio do povo na cidade capital» recordou Rui Semedo da Silva.


O povo de Mé-Zochi protestou durante 2 dias. Pressionados pelo grito do povo, o então Procurador-Geral da República Kelve Carvalho, o ex-Comandante Geral da Polícia, o então governo da ADI, e outras autoridades reuniram-se com o pai da vítima e prometeram justiça célere.
«Não houve julgamento. Não me chamaram, nem qualquer outro familiar, até hoje. Garantiram -me que a justiça seria feita brevemente. Que as pessoas que cometeram a acção bárbara seriam punidas. Mas foi só de boca, nada foi feito até hoje», reclamou.
Sem justiça e sem funeral digno. O pai e os demais familiares da vítima não puderam participar no funeral.
«Nem eu, nem os familiares pudemos participar no funeral. Os policiais e uns militares é que o enterraram. A população foi ao cemitério, mas não pôde entrar, porque o caixão veio escoltado pelas forças de defesa e segurança, e fizeram o seu funeral», frisou.

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Desde 2018 que a democracia e o Estado de direito são-tomenses ficaram manchados pela morte de um civil espancado pelas forças de segurança, sem julgamento e sepultado praticamente em segredo.
O caso do jovem de 35 anos que perdeu a vida no calor da campanha para as eleições legislativas de 2018 pode despertar a consciência nacional, para o risco maior que representa as eleições de 2026.
Pois, numa altura em que o país vive a pré-campanha para as eleições presidenciais de 19 de julho próximo discursos de ódio e de sede de vingança, dominam o debate político pré-eleitoral.
Pior ainda, é o facto de alguns actores políticos lançarem ameaças directas à paz e a tranquilidade nacional. Por exemplo, o antigo primeiro-ministro Patrice Trovoada e Presidente do partido ADI, numa das suas comunicações nas redes sociais deixou claro, que o país poderá entrar numa grande instabilidade caso o actual Presidente da República, Carlos Vila Nova, por sinal seu companheiro de partido, e candidato presidencial escolhido pela ADI em 2021 vença desta vez as eleições presidenciais de julho de 2026.
São sinais de alerta para a democracia são-tomense, que sempre teve a fama de ser pacífica, ordeira e exemplar em África.
Abel Veiga