Política

China e o Parlamento de STP reavivam a memória da relação bilateral e projectam o futuro

A representação diplomática da República Popular da China em São Tomé e Príncipe e os deputados à Assembleia Nacional do país reuniram-se num seminário sobre o passado e o futuro das relações bilaterais.

Relações antigas, com mais de um século, e que começaram com a presença chinesa em São Tomé e Príncipe. Dezenas de chineses chegaram ao arquipélago no século XIX através das caravelas portuguesas oriundas de Macau. Ajudavam os administradores coloniais na gestão das roças.

Mas, a partir da década de 60 do século XX, o relacionamento entre os chineses e os santomenses evolui para a política. A revolução comunista chinesa teve ecos no seio dos nacionalistas santomenses. A República Popular da China apoiou o CLSTP (Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe), transformado na década de 70 no MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe).

Presidente da Assembleia Popular Nacional da China, Zhu De, recebeu Presidente Manuel Pinto da Costa – 1975

O novo Estado soberano, nascido no dia 12 de julho de 1975, foi reconhecido imediatamente pela República Popular da China. Já em dezembro de 1975, o Primeiro Presidente de São Tomé e Príncipe, Manuel Pinto da Costa tinha visitado a China.

Mao Zedong Presidente da China recebe Pinto da Costa de STP – Dezembro de 1975
A primeira visita do Presidente de STP a China – 1975

O percurso das relações entre os dois países foi partilhado entre os diplomatas chineses e os deputados à Assembleia Nacional. Uma iniciativa que ajudou a recuperar a memória. O próprio edifício onde funciona a Assembleia Nacional é uma memória física da cooperação entre os dois países. O palácio dos congressos foi construído pela República Popular da China e inaugurado em 1988. Continua a ser o edifício de referência política, cultural e social do país.

Francisco Fortunato Pires ex-Presidente da Assembleia Popular e a delegação chinesa após inauguração do Palácio dos Congressos
Francisco Silva ex-Presidente da Assembleia Nacional, na altura secretário-geral da Assembleia Nacional- Década de 90

Uma memória colectiva que pelo menos o povo não esquece. «Muitos santomenses contam as suas experiências de terem sido salvos por médicos chineses, e também a chegada dos navios chineses com mercadorias diversas», revelou Xu Yingzhen embaixadora da China em São Tomé e Príncipe.   

Cerimónia do Seminário – Palácio dos Congressos

Isabel Azevedo líder da Bancada Parlamentar da coligação MCI/PS/PUN reconheceu que aprendeu muito sobre o relacionamento histórico entre São Tomé e Príncipe e a China. Prometeu passar a memória sino-santomense aos seus filhos. Dentre muitos aspectos, a deputada ficou a saber que o Primeiro Presidente de São Tomé e Príncipe, foi um dos últimos líderes mundiais que se reuniu em Beijing com o líder da revolução chinesa, Mao Tsé-Tung.

«É muito importante que essas histórias sejam passadas, para alimentar as novas gerações. Isso é importante para que as novas gerações possam conhecer o que os outros países fizeram para a nossa emancipação», declarou a líder da coligação MCI/PS/PUN que sustenta o governo.  

Iniciativas empreendedoras começaram a ser implementadas pela China em São Tomé e Príncipe ainda durante os primeiros 15 anos depois da independência. Técnicos chineses em artesanato criaram um centro de formação de jovens na transformação do Bambu em objectos de uso.

Centro de formação de Bambu e palha em São Tomé – década de 80

São Tomé e Príncipe despertou para a utilização do muito Bambu que tem, e que estragava em fonte de rendimento. Mobiliários e outros objectos de Bambu passaram a dar aos jovens e adultos, mais renda familiar. «Devemos beber de toda esta experiência do passado e transportá-la para um regime plural. Temos todas as condições para reforçar as nossas relações económicas, políticas, diplomáticas com a República Popular da China para bebermos mais experiência, e lado a lado podermos caminhar», declarou Danilo Santos, o líder da bancada parlamentar do MLSTP, o maior partido da oposição.

Mas, o relacionamento entre os dois países teve percalços. Em 1997 houve uma suspensão.  O ex-Presidente Miguel Trovoada, sucessor de Pinto da Costa, reconheceu Taiwan. Quase 20 anos depois, o filho de Miguel Trovoada, pôs fim a suspensão. Patrice Trovoada enquanto primeiro-ministro restabeleceu as relações diplomáticas com a República Popular da China no ano 2016.

«Reafirmamos o compromisso do Estado santomense em apoiar firmemente a posição da China nas questões relacionadas com a sua integridade territorial, e na sua ideologia de existência de um país com dois sistemas», afirmou a Presidente da Assembleia Nacional, Celmira Sacramento.

Primeiro Ministro Patrice Trovoada e o Presidente da China Xi Jinping
Ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros Urbino Botelho e o homólogo Chinês Wang Yi assinaram o restabelecimento das relações diplomáticas – 2016

O vice-Presidente da Assembleia Nacional, Abnilde Oliveira, deputado da bancada parlamentar do partido ADI no poder reforçou a determinação dos representantes do povo na promoção da memória do relacionamento bilateral, e na preservação dos valores da relação bilateral.

«Nós saudamos a política da China de não ingerência nos assuntos internos dos Estados. Queremos absorver a experiência da China», frisou.

Os deputados compreenderam também a nova fase de relacionamento que se abriu depois de 2016. Pela primeira vez depois da criação do Fórum para cooperação económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa, São Tomé e Príncipe teve a oportunidade de marcar presença. Foi a sexta reunião ministerial realizada recentemente em Macau. O vice-Presidente da Assembleia Nacional Abnilde Oliveira chefiou a delegação santomense.

Embaixadora da China e a Presidente da Assembleia Nacional no seminário – Dia 16 de Maio

Os países do continente africano já estão avançados na consolidação do projecto chinês de construção de um futuro compartilhado. Parece que São Tomé e Príncipe, o arquipélago do golfo da Guiné, não quer perder a carruagem do futuro, face às profundas e rápidas mudanças que estão a ocorrer no mundo.

O arquipélago assinou com a China o acordo designado de Rota da Seda, também conhecido por “Uma Faixa – Uma Rota”. É o principal instrumento da política externa da China. A abertura e infraestruturação das rotas terrestres (estradas, aeroportos e caminhos de ferro) e marítimas(portos) da Ásia Central, da Europa e de África para a promoção do comércio e o desenvolvimento partilhado com a China.

«Foi aprovado um novo plano para cooperação económica e comercial. Espero que São Tomé e Príncipe se envolva verdadeiramente neste plano e possa tirar partido desta cooperação estratégica com a China», referiu Wando Castro, deputado da bancada parlamentar do MLSTP.

Capacidade de Planeamento é outro valor da China, que os deputados consideram importante para São Tomé e Príncipe. «Que possamos também beber da experiência da China sobretudo no capítulo do planeamento. Para começarmos a pensar e a planear a curto, médio e longo prazos», pontuou Wando Castro.

Para a Presidente da Assembleia Nacional, o presente mostra provas de que a cooperação com a China é estratégica. «Uma cooperação marcada pelo respeito mútuo e solidariedade e de benefícios mútuos. O apoio da China em diversas áreas como saúde, educação, infraestruturas e tecnologias tem sido fundamental para impulsionar o progresso de São Tomé e Príncipe», disse a Presidente da Assembleia Nacional.

A embaixadora da China considerou o seminário como um palco de partilha da visão retrospectiva dos laços de cooperação do passado, que serviu também para «analisar a situação actual, e junto aos deputados desvendar o futuro», concluiu.

O futuro é de partilha, num mundo cada vez mais multipolar.

Abel Veiga

3 Comments

3 Comments

  1. luisó

    19 de Maio de 2024 at 13:33

    É tudo muito giro recordar o passado.
    Mas vivemos o presente e este presente diz-nos que a china voltou há 10 anos e que prometeu um porto de águas profundas, um aeroporto moderno e outras infraestruturas e nada se viu.
    O povo não usa e vive de fotos de há 50 anos que outros comeram.
    Queremos aquilo que foi prometido e que foi isso que levou taiwan a sair e já não digo mais.
    Nada se viu, o paludismo e malária voltaram com força, nada de projectos agricolas, nada de nada.
    A quem serviu esta troca?
    Ao povo não……

    • Madiba

      20 de Maio de 2024 at 10:20

      Concordo em plenitude tudo quanto escreveu! Até parece que tirou as palavras dentro do meu pensamento. E digo mais, com Taiwan o nosso país recebia anualmente como ajuda orçamental USD 15.000.000 (Quinze milhões de dólares). Hoje nada mais recebe a não o som de gaita chinês. São dessas coisas, um dia ainda vamos dormir com diabo.

  2. Edson Neves

    19 de Maio de 2024 at 17:13

    Futuro de quem? São Tomé? Ou da China!
    Além da construção do palácio dos congressos qual obra significativa China fez em São Tomé?
    Compare atenciosamente o investimento da China na Etiópia, África do Sul por exemplo depois veja São Tome. O que país dará em troca? Bambu? Ou a pesca predatória?
    Tipo de notícia que deixa a gente triste! A política da China é ganhamos todos, a pergunta é quem leva a maior fatia do bolo?

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