Economia

“É preciso dar um basta aos projectos de cooperação para agricultura que não apoiam a segurança alimentar”

A natureza diz que a insegurança alimentar não pode ser um desafio para São Tomé e Príncipe. Terra fértil e chuva regular, numa terra onde toda semente lançada ao solo dá frutos.

No entanto, os sucessivos governos do país, definem a garantia da segurança alimentar como um desafio estruturante. O actual governo da ADI liderado por Américo Ramos, também inscreveu no seu programa, a garantia da segurança alimentar.

O Presidente do Conselho Nacional para segurança alimentar e nutrição, diz que o país ainda não tem políticas coerentes e integradas para conquistar a segurança alimentar.

Celso Garrido considera que a política pública para a segurança alimentar deve ser transversal. «O ministro da saúde, o ministro da educação, e o ministro da agricultura têm de sentar e fazer políticas públicas coerentes e integradas. Se o governo decidir não só em termos de falácias, mas em termos práticos traçar estratégias de segurança alimentar, que vai de 10 a 15 anos, São Tomé e Príncipe é capaz de produzir e alimentar o seu povo», afirmou.

O presidente do conselho nacional para a segurança alimentar e nutricional, deu o exemplo de alguns projectos financiados pela cooperação internacional para o sector da agricultura, como prova evidente de que os governos de São Tomé e Príncipe, não têm ideias ou políticas claras para garantir a segurança alimentar.

«Muitos dos investidores (parceiros) não nos ajudam na questão das culturas alimentares. Estão mais interessados na nossa matéria-prima como cacau, café, pimenta, baunilha e coco. Mas, nós temos de dar um basta nisso», pontuou.

Segundo Celso Garrido, o governo santomense deve ser inteligente. «Se querem a nossa matéria-prima de qualidade, e oferecem-nos projectos para fortalecer essas fileiras de exportação, então temos também de ter oportunidade de fortalecer as fileiras alimentares», frisou.

Quadro superior do Ministério da Agricultura, Celso Garrido explicou que as fileiras agrícolas de exportação muito cobiçadas pelos parceiros internacionais se desenvolvem exactamente no espaço agroflorestal onde se praticam as culturas alimentares.

«Se nós não fortalecermos as fileiras alimentares, a fileira de exportação está em risco. Porque quem mantém o sistema agro-florestal do cacau são os agricultores familiares que necessitam de comer. Pois só a venda da matéria-prima não satisfaz as suas necessidades familiares. Então há uma necessidade de manter este sistema com políticas públicas coerentes», reforçou.

O responsável do organismo do Estado que promove a segurança alimentar e nutricional, garante que «é possível termos segurança alimentar sim». No entanto, avisa que se o governo não definir programas credíveis para fortalecer a dinâmica produtiva, «vamos ter a nossa barriga entregue a outros povos, que claro ganharão sempre por cima de nós. E ninguém nos manda produtos de qualidade, muito difícil…quando exportam para aqui arroz, feijão, fuba(farinha de milho) ou carne de frangos, não mandam o melhor que têm. Vão mandar aquilo que está armazenado no frio 3 ou 4 anos», explicou.

Um paradoxo que os governos de São Tomé e Príncipe, não dão conta, ou fingem não perceber. Pois, segundo Celso Garrido, «estamos a vender o que temos de bom e de alta qualidade, o nosso cacau, café, coco, baunilha e pimenta. Todas as nossas culturas de exportação são biológicas e certificadas, entretanto estamos a consumir o que é mau. Então alguma coisa está errada aqui. Temos de inverter a situação. Estamos a exportar coisas boas, então devem ajudar-nos a produzir bons alimentos aqui, para o nosso consumo, e o excedente para exportarmos», concluiu.

O primeiro-ministro Américo Ramos agendou a segurança alimentar no seu programa de governo, mas por sinal falta executar políticas coerentes, que possam garantir a irrigação dos campos, a abertura de crédito bonificado para os agricultores, a introdução de tecnologias que reduzam os impactos das alterações climáticas, assim como a criação de mecanismos que promovam a comercialização dos produtos.

Celso Garrido deu o exemplo das instituições públicas, como a Cadeia Central, o hospital Central, as escolas, as forças armadas e de segurança, como sectores que o governo deveria explorar para  incentivar o comércio interno da produção agrícola, e com impacto no rendimento dos agricultores, pescadores e criadores de animais.

Os fundos públicos que o governo disponibiliza para aquisição de alimentos para tais sectores, deveriam ser canalizados directamente para as cooperativas dos agricultores e pescadores, que por sua vez, forneceriam todos os produtos alimentares a tais instituições.

Uma espécie de economia circular, que poderia provocar o aumento da produção dos produtos da terra, e do rendimento das famílias dos agricultores e pescadores.

Abel Veiga  

1 Comment

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  1. Madiba

    18 de Julho de 2025 at 8:48

    Pois é meu senhor. O senhor falou muito bem e concordo com quase tudo. Temos um problema gravíssimo na nossa produção alimentar. Não sei bem o que se passa com agropecuária de S. Tomé e Príncipe! Os engenheiros agrícolas, também não entendem muito de produção agrária do nosso país, pelos vistos. Neste momento temos um Ministro de Agricultura que julgo ser agrónomo. O quê que ele tem demonstrado na prática para população, do conhecimento em que ele adquiriu ao longo dos anos? Qual a diferença dele e um simples agricultor? O quê que ele fez e que escapou o agricultor? Enfim. Como é que se admite que o custo unitário de produção de comida em S. Tomé e Príncipe, chega a ser o preço unitário de venda deste mesmo produto? Quem se arriscava a produzir? Era melhor importar e vender, com todas as consequências que conhecemos. Daí que, eu penso que o Governo deve intervir. O governo deve intervir na fábrica de ração animal, deve intervir nos insumos agrícolas, deve intervir nas pequenas maquinarias, deve intervir na irrigação, na formação dos agentes de terreno e nos produtores e criadores, nos viveiros. Como é que se quer concorrer com os produtos importados, quando o próprio Ministério de Agricultura vende um pinto por Dbs100,00? Depois de alimentar esse pinto quanto o criador poderá vendê-lo? E para quem? Mas se o pinto fosse vendido a 20 ou 30 dobras. E quem diz o pinto, diz para todo o resto. Falou-se na alimentação dos doentes, serviços prisionais e mais. Alguém que vai ao mercado comprar para essas confeções alimentares, vai comprar mais barato ou mais caro. E confesso que, nesta altura ele não estará a ver pela qualidade do produto, mas sim pela sua carteira. Portanto em suma, concordo consigo, deve-se trabalhar bastante na política. E de partida o próprio Ministério da Agricultura, que de facto precisa mudar muita coisa, desde a maneira de pensar dos seus engenheiros e de seguida a COMPRAM. A COMPRAM, no meu entender, não deveria ser projecto de importação de tudo mas sim se produção local.

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